Amazônia: Manaus incorpora igarapés e áreas verdes em plano para enfrentar a crise climática
Um só Planeta [Unofficial]
March 20, 2026
No Brasil, o planejamento climático ainda é incipiente no nível municipal. Levantamento do WRI Brasil indica que pouco mais de 20 cidades do país possuem planos de ação climática estruturados. Além disso, outro dado citado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) indica que 15 das 27 capitais do país ainda não possuem planos de adaptação e mitigação climática. Manaus vai na contramão da maioria e já se mobiliza para concluir processo público e implantar uma estratégia formal para reduzir emissões e enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Nos últimos dias, a prefeitura encaminhou à Câmara Municipal o Plano de Ação Climática da capital, que estabelece metas de redução de emissões até 2035 e neutralidade climática até 2050. A expectativa é que o projeto seja aprovado por unanimidade ainda no primeiro semestre de 2026. O documento reúne o primeiro inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE) da cidade, com ano-base em 2023, além de uma análise de riscos e vulnerabilidades climáticas. De acordo com o levantamento, Manaus emitiu 6,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente no período, com maior concentração nos setores de transporte (44%) e processos industriais (40%). O plano consolida mais de 150 ações distribuídas em seis eixos estratégicos, incluindo mobilidade urbana, saneamento, eficiência energética, governança climática e ordenamento territorial. A proposta foi elaborada ao longo de 2025 com participação de 21 secretarias municipais, consultas públicas e oficinas com a sociedade civil. Ao Um Só Planeta, o prefeito de Manaus, David Almeida, ressalta que o plano representa uma mudança na forma como a cidade incorpora o clima no planejamento urbano. "Isso significa uma gestão mais preventiva e menos reativa, com decisões urbanas orientadas por evidências para proteger a população e garantir desenvolvimento sustentável no longo prazo", argumenta. “Manaus deixa de tratar a mudança do clima como um tema periférico ou emergencial e passa a incorporá-la como eixo estruturante do planejamento da cidade. Estamos falando de decisões que impactam mobilidade, habitação, saúde pública, atração de investimentos e qualidade de vida, com base em dados locais e visão de longo prazo”, ressaltou o prefeito. A agenda climática Historicamente, o debate climático na Amazônia esteve quase que restrito ao tema desmatamento. O novo plano, porém, indica uma mudança na agenda climática, que coloca a gestão urbana como uma das prioridades. É o que alega o gestor municipal. “Quando uma grande cidade amazônica coloca o clima no centro do planejamento urbano, o debate deixa de ser apenas sobre floresta e passa a incluir a vida nas cidades”, afirmou. Os impactos da crise climática, intensificada pela queima massiva de combustíveis fósseis, já fazem parte da realidade urbana da região. “Significa reconhecer que as mudanças climáticas já impactam o cotidiano da população, seja nas cheias mais intensas, nas ondas de calor, vazantes extremas ou na pressão sobre os serviços públicos”, disse David Almeida. Transporte e indústria O inventário de emissões da cidade revelou que o transporte urbano e os processos industriais concentram a maior parte das emissões de gases de efeito estufa. E o plano estabelece medidas específicas para reduzir emissões nesses setores. “O Plano de Ação Climática de Manaus estabelece como meta reduzir 60% das emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035, considerando 2023 como ano-base, e alcançar a neutralidade climática até 2050”, estimou o secretário municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Fransuá Matos. Entre as ações previstas está a ampliação da geração solar fotovoltaica, com instalação de sistemas em prédios públicos e criação de linhas de crédito e incentivos fiscais para estimular a adoção da tecnologia por famílias e empresas. No Polo Industrial de Manaus, o plano também prevê incentivos para a adoção de práticas de descarbonização. “Entre as ações estão programas de capacitação em temas ESG, criação de incentivos fiscais vinculados a projetos de energia limpa, economia circular e descarbonização de processos produtivos, além de parcerias entre universidades e indústrias para desenvolver projetos de redução de emissões”, explicou Matos. Crise climática e riscos urbanos O diagnóstico climático também aponta que eventos extremos tendem a se intensificar nas próximas décadas, com alagamentos, secas, ondas de calor, deslizamentos e incêndios florestais. Segundo Matos, um dos riscos mais relevantes para Manaus está associado à expansão urbana em áreas vulneráveis e à disseminação de doenças transmitidas por vetores. “O levantamento de vulnerabilidades e riscos climáticos indica que diferentes ameaças tendem a se intensificar nas próximas décadas. Entre esses eventos, o risco de arboviroses se destaca nas áreas mais densamente urbanizadas, com classificação de risco alto ou médio em todos os cenários analisados”, afirmou. Para enfrentar esses riscos, a prefeitura tem ampliado o monitoramento ambiental e territorial, com uso de drones para fiscalização de ocupações irregulares e programas habitacionais voltados a famílias que vivem em áreas de risco. Adaptação climática na Amazônia urbana As estratégias de adaptação previstas no plano também consideram as características ambientais da Amazônia, onde o regime dos rios e a presença de igarapés influenciam o funcionamento das cidades. Segundo o secretário, parte das soluções envolve recuperar funções ecológicas naturais da paisagem urbana. “As estratégias incluem a recuperação de igarapés, recomposição de Áreas de Preservação Permanente e criação de parques lineares, buscando restabelecer a função ecológica e hidráulica desses cursos d’água”, afirmou. Encontro das águas dos rios Negro e Solimões, em Manaus, fenômeno tradicional da região. Divulgação/Prefeitura Manaus Também estão previstas ações de ampliação da arborização urbana com espécies nativas e conservação da cobertura florestal dentro da cidade, medidas consideradas essenciais para reduzir ilhas de calor e melhorar a infiltração da água no solo. Metas até 2050 O plano estabelece metas intermediárias que permitirão acompanhar a evolução das políticas climáticas da cidade. O plano também prevê o compromisso de alcançar desmatamento ilegal zero até 2030, alinhado às diretrizes nacionais de combate ao desmatamento na Amazônia. Segundo o secretário de Manaus, o monitoramento permanente das emissões permitirá ajustar as políticas públicas ao longo do tempo para garantir o avanço da cidade rumo à neutralidade climática em 2050. Mais Lidas
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