Transporte do público concentra emissões dos grandes festivais como Lollapalooza e Rock in Rio
Um só Planeta [Unofficial]
March 19, 2026
No setor de entretenimento, a agenda de shows e festivais passou a incorporar metas ambientais e sociais como parte da estratégia de negócios. A Rock World, responsável pelo Rock in Rio, pelo The Town e pelo Lollapalooza Brasil, lida com números que ajudam a dimensionar o desafio. O The Town 2025 reuniu 420 mil pessoas, gerou 25 mil empregos temporários e movimentou R$ 2,2 bilhões em São Paulo. O Lollapalooza recebeu 240 mil pessoas na edição passada. Já o Rock in Rio 2024 somou cerca de 700 mil participantes em sete dias e, historicamente, apresenta uma pegada de carbono na casa de 60 mil toneladas de CO₂, puxada sobretudo pelo transporte de público e equipamentos. Para estruturar a resposta, a empresa certifica o Rock in Rio e o The Town pela ISO 20121, de Sistema de Gestão de Eventos Sustentáveis. “A Rock World certifica o Rock in Rio e o The Town com a ISO2021, Sistema de Gestão de Eventos Sustentáveis; o que nos torna comprometidos com a melhoria contínua dos nossos processos”, afirma Letícia Freire, gerente de Sustentabilidade Operacional da companhia. Segundo ela, o ponto de partida é mapear toda a cadeia de produção: “O início desse processo é justamente avaliar toda a cadeia de produção dos nossos eventos, para analisar todos os riscos e impactos envolvidos.” A partir desse diagnóstico, foram definidas metas até 2030, que incluem: oferecer alimentação saudável e sustentável; garantir segurança e bem-estar do evento; formar 100 mil pessoas (através dos nossos cursos e treinamentos); envolver os stakeholders na nossa política de sustentabilidade; garantir eventos inclusivos, acessíveis e e diversos; e reutilizar, reciclar e valorizar os nossos resíduos. “As nossas metas refletem não só a redução dos impactos dos nossos eventos, bem como boas práticas referentes ao setor de eventos”, diz Letícia. “A cada edição revemos nossos processos e estabelecemos medidas para chegarmos mais perto das nossas metas.” A executiva explica que não existe uma área de ESG na Rock World. sustentabilidade é um dos pilares de nossa empresa e está inserido e disseminado em todas as áreas e diretorias, com compromissos e responsabilidades específicas de cada setor" Mesmo assim, duas frentes são transversais: áreas de sustentabilidade operacional, que é diretamente ligada à diretoria de operações (responsável por toda parte de infraestrutura, elétrica, hidráulica, resíduos, legalizações), e a área de Talentos, pluralidade e diversidade, que lida com as questões referentes às práticas sociais. “As decisões da agenda de ESG são tomadas a partir de nossas metas de curto, médio e longo prazo, sempre alinhadas aos critérios técnicos”, conta Letícia. Também conta com apoio de uma rede de consultorias técnicas em diferentes frentes. Segundo a gerente de Sustentabilidade Operacional da empresa, a companhia mantém uma parceria de longo prazo com a Deloitte, que avaliou a maturidade ESG do grupo, trouxe benchmarks internacionais e apoiou a definição de metas, além de atuar em frentes operacionais como o inventário de emissões e a avaliação de candidatos ao prêmio de sustentabilidade voltado a patrocinadores e parceiros. Segundo a executiva, mais recentemente, a empresa também contou com apoio externo na agenda de direitos humanos na cadeia de fornecedores, com auditorias e diligências durante montagem, realização e desmontagem dos eventos. Em 2023, quando ainda era organizado pela T4F, o festival Lollapalooza se envolveu em um escândalo após o resgate, pelo Ministério do Trabalho e Emprego em São Paulo, de cinco pessoas em situação considerada análoga à escravidão. Trabalhadores informais que atuavam na logística de bebidas dormiam no próprio local, no chão ou sobre pallets, sem estrutura adequada, energia elétrica ou equipamentos de proteção individual, e cumpriam jornadas de até 12 horas. O Ministério Público apontou que a responsabilidade era da prestadora de serviços Yellow Stripe, contratada como empregadora. Ainda assim, o episódio gerou forte repercussão e acendeu um alerta no setor de eventos sobre os riscos na terceirização e quarteirização de serviços. Na frente climática, o principal desafio continua sendo o transporte do público. “De acordo com os nossos relatórios de emissão de carbono, a maior vertente de emissão dos nossos eventos é sempre o deslocamento do público”, diz Letícia. Por isso, a empresa intensifica campanhas de incentivo ao uso de transporte público de massa, medida que, segundo ela, reduz tanto a pegada de carbono quanto os impactos no trânsito das cidades. O inventário considera dados como número e tipo de viagens (fretes, caminhões, aviões, ônibus e carros), origem do público — mapeada por pesquisas — e volume e procedência de alimentos e bebidas consumidos. “É um processo que requer empenho de toda equipe, que precisa fornecer esses dados logo após a realização do evento.” Ainda assim, ela reconhece limites estruturais: “Não é algo que o evento consiga reduzir diretamente.” Na gestão de resíduos, um dos entraves é o comportamento do público. “Os grandes desafios da reciclagem são dois: dificuldade de engajar o público na separação prévia corretamente (…) e também a existência de embalagens que são as adequadas para alimentos e bebidas, mas que não possuem reciclabilidade ou valor de mercado”, comenta Letícia. O volume gerado varia de acordo com fatores como clima e perfil do público, mas todo o material é encaminhado a cooperativas contratadas para triagem e destinação, de acordo com a gerente de Sustentabilidade Operacional da Rock World. Em 2025, o The Town registrou taxa de desvio de aterro de 94,1%, enquanto outras metas incluem mais de 33 mil pessoas formadas no RockU e mais de 300 mil viagens por transporte público de massa incentivadas. Os resultados são divulgados anualmente nos relatórios de sustentabilidade, na página “Por Um Mundo Melhor”, e a política de sustentabilidade é anexada aos contratos de patrocinadores e fornecedores como forma de engajamento e fiscalização. No campo operacional, a empresa afirma adotar medidas práticas para reduzir consumo de água e energia, como instalação de torneiras de fechamento automático e vasos sanitários com caixa acoplada, além do dimensionamento da rede de geradores conforme a demanda de parceiros e fornecedores. Segundo a executiva, soluções como energia 100% solar ou geradores exclusivamente a biodiesel esbarram na escala dos festivais e na viabilidade econômica. “A dimensão do nosso evento não é comparável com a da maior parte dos outros, e isso torna as soluções inviáveis economicamente.” Ainda assim, a companhia testa soluções como postes solares, geradores a biodiesel e carros elétricos. Mais Lidas
Discussion in the ATmosphere