Estreito de Ormuz, petróleo e segurança energética: como a guerra no Golfo afeta o sistema energético global
Um só Planeta [Unofficial]
March 14, 2026
O Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do comércio mundial de energia, voltou ao centro das atenções com as tensões envolvendo o Irã no Golfo Pérsico. Pela passagem marítima, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, circula uma parcela significativa do petróleo e do gás natural consumidos no planeta. O conflito envolve ataques conduzidos pelos Estados Unidos e Israel contra instalações militares e nucleares iranianas. A resposta de Teerã e o risco de bloqueio do Estreito de Ormuz ampliaram a instabilidade no Golfo, uma das áreas mais sensíveis para o abastecimento energético global. A interrupção dessa passagem ampliou as preocupações sobre a segurança do abastecimento energético internacional e revela a dependência global de combustíveis fósseis, concentrados em poucas regiões produtoras. O tema é analisado em artigo publicado no Broadcast Energia pelos economistas Nivalde de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Vitor Santos, professor do Instituto de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, Portugal. Leia o artigo completo. O Um Só Planeta conversou, de maneira exclusiva, com Vitor Santos, para destrinchar o conflito e mostrar como a geopolítica continua a influenciar diretamente a segurança energética mundial. “Os conflitos em regiões produtoras de petróleo e gás têm um forte impacto global. Contudo, esses impactos são assimétricos e afetam negativamente sobretudo os países importadores que têm uma forte dependência dos combustíveis fósseis”, avaliou o economista, em entrevista exclusiva, ao Um Só Planeta. O Estreito de Ormuz é hoje um dos principais escoadores energéticos do planeta. Vitor Santos detalha os números que impressionam pela magnitude. “Cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente passa pelo Estreito de Ormuz e mais de 90% desse fluxo destina-se a países asiáticos, representando cerca de 45% a 50% do petróleo importado pela China”, detalhou. Além do petróleo, aproximadamente 20% do gás natural liquefeito (GNL) comercializado globalmente também atravessa a referida rota, que é estratégica. Instalação do campo de gás South Pars, no Golfo Pérsico, com queima de gás natural. O reservatório, compartilhado entre Irã e Catar, é o maior campo de gás do mundo. Alireza Firouzi/Getty Images Choques de preço Eventos geopolíticos como o bloqueio de rotas energéticas têm impacto imediato nos preços internacionais do petróleo e do gás, com reflexos em toda a economia. Os primeiros movimentos do mercado já demonstram essa sensibilidade. “O Brent registou um incremento de mais de 35% em relação à sua cotação no dia anterior à guerra no Irão. O índice JKM teve um crescimento de cerca de 50% e o TTF — índice de referência do gás natural na Europa — apresentou uma subida em torno de 73%”, afirmou. Esses aumentos não refletem apenas restrições de oferta, mas, principalmente, a incerteza geopolítica associada à região, como pondera o economista. “Os aumentos dos preços do petróleo têm efeitos sistémicos em todas as cadeias de valor e nos transportes, com reflexos negativos na competitividade, crescimento económico e bem-estar dos cidadãos”. Além dos impactos económicos, o conflito também levanta preocupações climáticas. Bombardeios recentes atingiram infraestruturas ligadas ao petróleo na região do Golfo, prejudicando o funcionamento de depósitos e instalações de armazenamento de combustíveis, gerando incêndios e a libertação de volumes de gases e poluentes na atmosfera. A destruição desse tipo de infraestrutura fóssil pode gerar emissões equivalentes a milhões de toneladas de CO₂, transformando ataques a depósitos de petróleo em verdadeiras “bombas climáticas”. O efeito ultrapassa continentes. Na Europa, o impacto pode ser ainda mais amplo porque o preço do gás influencia diretamente o valor da eletricidade no mercado atacadista. “Na Europa, o preço da eletricidade resulta do preço formado no mercado spot, em que as usinas a ciclo combinado marcam o preço. Isso significa que o aumento do preço do gás natural se reflete em aumentos tendencialmente proporcionais nos preços da eletricidade”, explicou. Dependência energética A crise energética, provocada pela guerra na Ucrânia, já havia revelado a dependência europeia do gás russo. O que é fato, ainda de acordo com a visão do professor, é que o atual cenário no Golfo pode reforçar ainda mais a necessidade de acelerar a transição energética no continente. “A aceleração da transição energética surge não apenas como imperativo climático, mas sobretudo como instrumento central de segurança energética e de autonomia estratégica”, afirmou Santos. A argumentação é simples: a eletrificação da economia é uma estratégia essencial para enfrentar o chamado trilema energético, que responde pelo equilíbrio entre segurança energética, competitividade econômica e sustentabilidade ambiental. Entre as prioridades apontadas pelo especialista para a Europa estão: expansão da geração elétrica renovável; eletrificação crescente da indústria; descarbonização dos transportes, além de renovação energética de edifícios. Ainda há um caminho significativo a ser percorrido. A aposta chinesa A China também enfrenta riscos associados à dependência energética externa. Hoje, mais de 70% do petróleo consumido pelo país é importado, grande parte transportada por rotas marítimas estratégicas. “É o estreito de Malaca, de grande interesse estratégico face a um potencial escalada militar entre os Estados Unidos e a China”, detalha Vitor Santos. Essa vulnerabilidade tem impulsionado uma estratégia industrial agressiva voltada à transição energética.Segundo o economista, o plano Made in China 2025 ajudou o país a se tornar líder global em setores como: energia solar e eólica, veículos elétricos, baterias, infraestrutura de carregamento e redes digitais de energia. “A aposta da China nas energias renováveis tem subjacente a necessidade de reduzir a sua dependência das importações de combustíveis fósseis de forma a assegurar a sua soberania energética”, afirmou Vitor. “Para além da liderança tecnológica, a integração vertical e o controle das cadeias de valor, e a exploração das economias de escala e de gama, os subsídios estatais na China são 4 vezes superiores à média dos países europeus”. Além disso, o país também controla grande parte das cadeias globais de minerais estratégicos, refinando cerca de 90% das terras raras e entre 60% e 70% do lítio e do cobalto – minérios utilizados em tecnologias de energia limpa. Saiba mais Transição energética Para Vitor Santos, a expansão das energias renováveis e da eletrificação tende a reduzir, ao longo das próximas décadas, a influência geopolítica de regiões produtoras de petróleo e gás. No entanto, ainda não é possível estimar em quanto tempo essa tendência se tornará realidade. “A aceleração da transição energética tende a reduzir gradualmente a influência geopolítica de regiões produtoras de petróleo e gás, pois a expansão das energias renováveis e de novas tecnologias diminui a dependência global de combustíveis fósseis”, afirmou. A mudança será gradual. “Muitos países ainda dependerão de combustíveis fósseis por décadas, e novos recursos estratégicos — como minerais críticos para baterias e tecnologias renováveis — podem gerar novas dinâmicas geopolíticas”. O cenário global indica que energia e geopolítica continuarão intensamente interligadas nas próximas décadas, mas com uma transformação gradual das fontes de poder no sistema energético mundial. 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