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Hotelaria aposta na economia circular para enfrentar escassez de recursos e pressão climática

Um só Planeta [Unofficial] March 13, 2026
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A indústria da hospitalidade começa a discutir com mais profundidade sua transição para modelos circulares de produção e consumo, em um cenário marcado pela escassez de recursos e pelas crescentes pressões climáticas. Relatório recente intitulado “Towards Circular Hospitality: Transforming the Tourism System” foi apresentado em Madri, na Espanha, pela ONU Turismo, pela Iberostar Hotels & Resorts e pela Circle Economy, com propostas para tornar o setor mais resiliente e competitivo a partir da economia circular. O documento parte de um dado expressivo: estima-se que os meios de hospedagem sejam responsáveis por cerca de 260 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂ ) por ano — volume próximo às emissões anuais da França. Segundo o relatório, aproximadamente 70% dessas emissões estão associadas à produção, transporte e descarte de bens e serviços utilizados pelos hotéis e consumidos pelos hóspedes. Nesse contexto, decisões relacionadas a compras e operações ganham relevância estratégica, especialmente quando envolvem práticas como logística reversa, reparação e reutilização de materiais. Há, porém, obstáculos para promover uma mudança. O relatório aponta dez desafios principais, entre eles a falta de infraestrutura adequada de reciclagem em diversos destinos turísticos, o que limita o alcance de iniciativas de separação de resíduos dentro dos hotéis. Também são mencionadas barreiras comportamentais, como a necessidade de mudança cultural em relação às mudanças climáticas, e a ausência de uma visão compartilhada sobre circularidade no setor, o que dificulta a expansão de soluções além de redes ou empreendimentos específicos. Segundo Shaikha N. Alnuwais, secretária-geral de Turismo das Nações Unidas, “a indústria hoteleira desempenha um papel fundamental na cadeia de valor do turismo e influencia a forma como os destinos gerenciam recursos, reduzem resíduos, medem impacto, fortalecem economias locais e respondem às crescentes pressões climáticas, ambientais e da cadeia de suprimentos”. Ela afirma que promover práticas circulares e regenerativas é também “um caminho estratégico para a resiliência, a ação climática, a competitividade e a criação de valor de longo prazo”. O relatório utiliza a experiência da Iberostar, que reúne mais de 100 hotéis em 14 países, como exemplo prático de implementação. A empresa estruturou equipes dedicadas aos chamados 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), com mais de 250 profissionais voltados à separação, medição e análise de resíduos. Também passou a utilizar ferramentas de inteligência artificial em cozinhas de mais de 60 hotéis para monitorar e reduzir o desperdício de alimentos. De acordo com o documento, as medidas contribuíram para uma redução superior a 80% dos resíduos enviados a aterros desde 2021. Ainda assim, o próprio relatório ressalta que avanços estruturais dependem de infraestrutura adequada, políticas públicas e articulação com atores locais, indicando que ações isoladas não são suficientes para promover circularidade sistêmica. Gloria Fluxà, Vice-presidente e líder de Sustentabilidade do Grupo Iberostar: mudanças partem de colaboração e diversas atitudes ao mesmo tempo Iberostar/ Divulgação Gloria Fluxà, Vice-presidente e Chief Sustainability Officer do Grupo Iberostar, afirma que a mudança envolveu o alinhamento entre prioridades estratégicas internas, metas comerciais e incentivos. “Acreditamos que é assim que começa a mudança sistêmica: não com uma única grande decisão, mas com milhares de pequenas escolhas alinhadas na mesma direção”, diz. Ela acrescenta que a transição exigirá ações colaborativas em diferentes frentes. Cinco frentes para a transição A partir de workshops com atores do setor, o relatório identifica cinco áreas estratégicas para avançar rumo à circularidade: compras circulares, com priorização de opções duráveis e reutilizáveis; operações circulares, com uso mais eficiente de recursos como água e alimentos; ambiente construído circular, com edifícios energeticamente eficientes e uso de materiais de origem biológica; cultura empresarial e experiências circulares, com capacitação de equipes e engajamento de hóspedes; e, por fim, destinos circulares, baseados em colaboração com municípios e apoio a iniciativas locais. Para Claudia Alessio, especialista em circularidade e autora pela Circle Economy, “a economia circular não é apenas uma necessidade ambiental, é um meio para um fim”. Segundo ela, o conceito fortalece a resiliência dos negócios ao reconhecer a dependência da hotelaria em relação ao capital natural e social, além de funcionar como ferramenta de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. O relatório sustenta que, diante da dependência do setor em relação a cadeias globais de suprimento e a ecossistemas locais, a circularidade tende a se consolidar não apenas como agenda ambiental, mas como estratégia de gestão de riscos e competitividade no médio e longo prazo. Mais Lidas

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