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A ideia simples que pode mudar a economia da Amazônia: rematar

Um só Planeta [Unofficial] March 13, 2026
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Durante décadas, a floresta amazônica foi derrubada para abrir espaço para pasto, garimpo e madeira. Foi um modelo de ocupação desastroso, que deixou para trás grandes áreas abandonadas e degradadas e uma economia muito mais baseada na especulação de terras do que em inovação e produtividade. O resultado todos já conhecemos. Um território imenso e degradado, que gera pouca riqueza duradoura e continua pressionando a floresta que ainda está de pé. Mas e se a solução estivesse justamente nessas áreas já abertas? Um estudo do projeto Amazônia 2030 defende uma ideia ao mesmo tempo simples e poderosa. Em vez de continuar avançando sobre a floresta, o Brasil deveria voltar seus olhos para “rematar” as áreas que já foram desmatadas, mas que hoje estão abandonadas ou subutilizadas. Rematar significa recuperar essas terras e transformá-las em sistemas produtivos modernos, com agroflorestas, cultivo de espécies perenes, restauração florestal, produção de commodities compatíveis com a floresta e também geração de créditos de carbono. A análise "Para proteger a Floresta Amazônica, precisamos Rematar as Áreas Desmatadas mostra que a Amazônia tem escala para isso e o Brasil tem as condições e a expertise para colocar o plano em prática. Ao longo das últimas décadas, cerca de 85 milhões de hectares de floresta foram derrubados na região. Uma parte importante dessas áreas hoje está abandonada ou subutilizada. Dentro desse território, cerca de 35 milhões de hectares já foram mapeados e poderiam ser recuperados e usados de forma produtiva sem afetar a produção de soja ou de gado. Hoje, produtores amazônicos já faturam cerca de US$ 7,2 bilhões por ano com produtos compatíveis com a floresta, como açaí, cacau, mandioca e banana. Ainda assim, a região captura menos de 3% de um mercado global de cerca de US$ 233 bilhões relacionado a esses produtos. Ou seja, existe demanda, existe mercado e existe terra disponível. O que falta é transformar essa oportunidade em uma estratégia de desenvolvimento séria. A discussão sobre o futuro da Amazônia costuma ficar presa a um conflito antigo. De um lado, quem defende proteger a floresta. Do outro, quem argumenta que a região precisa gerar renda e emprego. O rematamento mostra que essas duas coisas podem caminhar juntas. Quando áreas degradadas são recuperadas e passam a produzir cacau, café, açaí ou madeira de manejo sustentável, a floresta ganha valor econômico. Isso cria renda local, fortalece cadeias produtivas e reduz o incentivo para derrubar novas áreas. Em vez de depender de atividades que degradam o território, a região pode construir uma economia baseada na recuperação da terra, na produção florestal e em novos mercados, como carbono e bioeconomia. Mas isso não acontece sozinho. O estudo mostra que três desafios precisam ser enfrentados para que essa transformação aconteça. É preciso resolver a insegurança fundiária, ampliar o acesso a financiamento de longo prazo e investir em tecnologia e capacitação para sistemas produtivos mais avançados. Também será necessário coordenação pública. Não para substituir o mercado, mas para criar as condições para que novos negócios floresçam. Grandes mudanças econômicas raramente começam com ideias complicadas. Muitas vezes começam com algo simples que muda a forma de olhar para um problema. Se essa ideia ganhar escala, o Brasil pode transformar um passivo ambiental em uma nova base de desenvolvimento e talvez essa seja a inovação mais importante de todas. *Gustavo Nascimento é preto, faixa preta, jornalista e coordenador de projetos em O Mundo que Queremos

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