Lanternas movidas a energia solar ajudam a reduzir ataques de morcegos-vampiro em comunidades amazônicas
Um só Planeta [Unofficial]
March 10, 2026
Em comunidades isoladas da Amazônia, onde a noite cai sem luz elétrica e o calor obriga moradores a dormirem com portas e janelas abertas, um visitante indesejado pode aparecer: o morcego-vampiro. Pequenas mordidas, nos pés ou nas pernas, muitas vezes imperceptíveis no momento em que ocorrem, podem representar risco de transmissão da raiva. Um estudo, conduzido pelo Instituto Mamirauá, indica que uma medida simples pode ajudar a reduzir esse problema: iluminação durante a noite. A pesquisa foi realizada entre 2023 e 2024 em comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã e da Floresta Nacional de Tefé, no Amazonas. A conclusão é que, após a instalação de lanternas solares no entorno das casas, os relatos de mordidas de morcegos nos seis meses anteriores à pesquisa caíram de 19% para 3% entre os entrevistados. As lanternas foram doadas pela Schneider Electric, que é uma empresa global que atua no segmento em tecnologia de energia. Morcego-vampiro comum Maria Carolina Wallenhaupt Gruber/UPF Situação Os morcegos-vampiro (Desmodus rotundus) se alimentam principalmente do sangue de mamíferos e, ocasionalmente, de humanos. Na Amazônia, os ataques costumam ocorrer durante a madrugada, quando as pessoas estão dormindo. Embora a mordida geralmente seja pequena e pouco dolorosa, pode transmitir o vírus da raiva, uma doença quase sempre fatal quando não tratada rapidamente. “A espoliação por morcegos acontece por uma combinação de situações. Moradias próximas das florestas, casas sem vedação, hábito de dormir em locais abertos, presença de animais domésticos, falta de iluminação noturna e outros fatores”, explica a coordenadora do Programa de Qualidade de Vida do Instituto Mamirauá, Maria Cecília Rosinski Lima Gomes. De acordo com a pesquisadora, em muitas comunidades, os ataques acabam sendo tratados como algo rotineiro, sendo sequer registrados, o que dificulta a elaboração de políticas públicas para conter o problema. “Para a população no estudo, por exemplo, as espoliações faziam parte da vida da família e nem eram informadas”. Iluminação e prevenção A pesquisa buscou justamente entender se a iluminação poderia ajudar a reduzir esse risco. Lanternas solares foram instaladas próximas às residências para garantir claridade durante a noite. “Considerando a gravidade da situação, é necessária uma estratégia de combate em várias frentes, que é onde entram ações simples como a iluminação da residência durante a noite usando lanternas portáteis recarregáveis, além do trabalho de educação em saúde, no diálogo direto com as populações afetadas”, afirma Maria Cecília. Lanternas foram entregues a comunidades isoladas na Amazônia e, depois, uma pesquisa especificou os efeitos da medida simples. Divulgação “A educação em saúde foi essencial, pois além de ser um compromisso ético na pesquisa, ela é também uma estratégia já presente no SUS (Sistema Único de Saúde) e que deve ser fortalecida”, diz a pesquisadora. Quando equipes de saúde e moradores passam a reconhecer melhor os riscos associados aos ataques, aumenta a chance de notificação e de adoção de medidas preventivas. Energia impacta saúde e segurança O estudo também chama atenção para um problema mais estrutural que amplia a vulnerabilidade dessas comunidades: a exclusão energética. Em muitas áreas remotas da Amazônia, o acesso à eletricidade ainda é limitado ou inexistente. “Muitas comunidades ainda vivem sem acesso regular à eletricidade. Tecnologias simples, como lanternas solares ou pequenos kits de energia, permitem levar iluminação e serviços básicos a locais onde a rede elétrica não chega”, afirma a gerente sênior de Comunicação, Relações Institucionais e Sustentabilidade da Schneider Electric na América do Sul, Karolina Gutiez. Além dos impactos na saúde e na segurança, soluções de energia solar de pequena escala também podem trazer benefícios na área ambiental. Em comunidades da Amazônia, a iluminação doméstica ainda depende de geradores movidos a diesel, lamparinas a querosene ou baterias descartáveis, fontes que emitem gases de efeito estufa e poluentes atmosféricos. Lanternas solares, por outro lado, utilizam energia renovável e reduzem a necessidade de combustíveis fósseis para atividades básicas do cotidiano, como a própria iluminação noturna. De acordo com Karolina Gutiez, iniciativas de acesso à energia podem gerar impactos que vão além da iluminação. Em algumas localidades, as lanternas distribuídas passaram a apoiar também o trabalho de parteiras tradicionais, que realizam atendimentos e partos durante a noite em regiões sem a referida infraestrutura elétrica. A presença de luz nas casas e nos espaços comunitários também aumenta a segurança no período noturno e permite que atividades como estudo e reuniões comunitárias se estendam após o anoitecer. Saiba mais Morcegos-vampiro Existem apenas três espécies de morcegos hematófagos no mundo, e todas vivem na América Latina. A mais comum é o Desmodus rotundus, espécie que se alimenta principalmente do sangue de mamíferos como bovinos, cavalos e porcos. Quando não encontram presas animais, esses morcegos podem morder humanos, especialmente em áreas rurais ou comunidades próximas à floresta. As mordidas costumam ocorrer enquanto a pessoa dorme e muitas vezes passam despercebidas, já que o animal possui saliva com substâncias anestésicas. O principal risco não é a mordida em si, mas a possível transmissão da raiva, doença que ainda representa um desafio de saúde pública na Amazônia. Mais Lidas
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