Foco de enchentes, Vale do Taquari (RS) teve alta de mais de 5°C no calor extremo desde 2000
Um só Planeta [Unofficial]
March 6, 2026
Números compilados pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) dão destaque para o estado do Rio Grande do Sul, que tem onze dos 20 municípios onde o calor extremo aumentou mais desde o ano 2000. Os dados de temperatura, obtidos por Um Só Planeta com exclusividade, revelam ainda que a maioria das cidades gaúchas no topo do ranking está localizada no Vale do Taquari, região do interior entre as mais atingidas pelas enchentes de 2024. Na ocasião, o rio Taquari subiu 21 metros acima da cota de inundação, invadindo propriedades e gerando destruição. No começo do ano letivo de 2026, escolas da região ainda convivem com salas de aula improvisadas devido aos danos das enchentes históricas. Segundo dados do governo estadual, cerca de 1.200 pessoas ainda estão em abrigos em todo o Rio Grande do Sul. Saiba mais O estado sabe das condições de temperatura na região e afirma apostar em trabalhos de adaptação. Em cidades como Colinas, Imigrante, Westfália, Teutônia e Arroio do Meio, os dias mais quentes hoje podem atingir mais de 5°C a mais do que ocorria no ano 2000. Arambaré, que fica às margens da Lagoa dos Patos, é o único município fora do Vale do Taquari no topo da lista do Cemaden. Está próximo à Região Metropolitana de Porto Alegre, ponto mais crítico em relação a extremos climáticos no estado devido à grande concentração populacional e de infraestrutura. “A região de vales tem uma variabilidade térmica maior que as planícies, e sofrem com o aquecimento”, afirma a secretária de Meio Ambiente e Infraestrutura do estado, Marjorie Kauffmann. “São também as regiões que tiveram mais enchentes com grande volume de chuvas, e principalmente em tempos mais rápidos. Chuvas torrenciais, com grandes volumes. A região de Colinas a Lajeado sofreu muito com esses eventos”, complementa. Moradores do Vale do Taquari recebem chaves de novas moradias após perderem casas na enchente de 2024. Segundo o professor Alex Santos, docente do curso de Ciências Atmosféricas da UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará), a amostra de 25 anos do Cemaden é pequena para se apontar uma mudança climática consolidada. Contudo, se pode afirmar que as altas temperaturas afetam o clima da região. “Ou seja, ocorrências de eventos extremos mais frequentes, em menor escala de tempo. Diminui-se o intervalo entre um evento e o outro”, pontua o especialista. Estudo do coletivo científico WWA (World Weather Attribution) feito ainda em 2024 aponta que, com o agravamento do aquecimento global, a frequência de enchentes como a ocorrida no Rio Grande do Sul pode diminuir, passando de uma vez a cada 100 anos para uma vez a cada 20 anos. A temperatura máxima serve como indicativo de quão quente um dia em determinada região pode ser. Na lista elaborada pelo Cemaden, uma cidade com +5°C é um local onde se pode afirmar que, se no ano 2000 o dia mais quente do ano chegava a 30°C, hoje pode chegar a 35°C. Consulte a tabela completa para ver o aumento na sua cidade. Cidades gaúchas têm aumento do calor extremo Alta nas temperaturas máximas aferidas entre 2000 e 2025 Colinas (RS): +5,3°C Imigrante (RS): +5,1°C Arambaré (RS): +5,1°C Westfália (RS): +5,1°C Teutônia (RS): +5°C Arroio do Meio (RS): +5°C Estrela (RS): +4,9°C Roca Sales (RS): +4,9°C Lajeado (RS): +4,7°C Fazenda Vilanova (RS): +4,5°C Paverama (RS): +4,5°C Fonte: Cemaden Segundo a secretária Kauffmann, mais do que as chuvas e enchentes, o calor afeta o Rio Grande do Sul especialmente na forma de estiagens severas, com peso maior na região oeste do estado. A agricultura é o setor econômico mais impactado, e por isso carente de adaptação estratégica. Já em relação ao bem-estar da população, as ondas de calor se juntam à possibilidade de novas enchentes, e para isso os esforços da gestão local estão concentrados na adaptação. O estado criou um programa de formação de comitês locais de acompanhamento das mudanças climáticas, colocando a adesão dos municípios a este sistema integrado como condição para receber repasses de verba para quaisquer temas, não apenas aqueles relacionados ao clima. A estruturação de comitês locais de monitoramento dialoga com o programa nacional Adapta Cidades, que fornece capacitação para que municípios vulneráveis do Brasil possam mapear seus pontos de atenção em relação aos extremos climáticos e assim preparar protocolos de emergência e planos de desenvolvimento adequados à realidade do século 21. Dos 497 municípios do estado, 442 possuem comissões recebendo treinamentos. “Sabemos que temos algumas regiões do mundo mais vulneráveis e o Rio Grande do Sul está posicionado, tanto para chuvas, secas, ondas de calor… Sabemos que o estado vai ser fortemente impactado por essas mudanças climáticas”, afirma a chefe da pasta de Meio Ambiente. “A sensibilidade maior acaba na região metropolitana e na região costeira do estado, com densidade demográfica maior.” A gestão espera até o final do ano ter pronto seu diagnóstico de impacto de ondas de calor sobre o estado. Mais Lidas
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