O que a guerra com o Irã significa para a expansão das energias renováveis na Europa e Ásia
Um só Planeta [Unofficial]
March 3, 2026
Os ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã desencadearam a maior turbulência nos mercados globais de petróleo e gás desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. Instalações estratégicas foram afetadas, rotas marítimas foram interrompidas e os preços das commodities energéticas dispararam — em um cenário que pode redesenhar, mais uma vez, os rumos da transição energética. É o que detalham reportagens da agência de notícias Bloomberg. O Catar fechou a maior instalação de exportação de gás natural liquefeito (GNL) do mundo. A Arábia Saudita suspendeu as operações em sua maior refinaria de petróleo. E o tráfego de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz praticamente parou. Segundo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os bombardeios contra o Irã podem continuar por quatro a cinco semanas. À primeira vista, a escalada reforça um argumento recorrente em defesa das fontes renováveis: energia solar e eólica são produzidas domesticamente e estão menos expostas a tensões geopolíticas. “Preços altos de petróleo e gás são, em princípio, uma boa notícia para tecnologias alternativas, porque as tornam mais competitivas”, afirmou Thijs Van de Graaf, pesquisador de energia do Instituto de Geopolítica de Bruxelas à Bloomberg. “Fica mais atraente instalar painéis solares, bombas de calor e outras tecnologias que reduzam a dependência do gás.” Para países importadores, especialmente na Ásia, a instabilidade no fornecimento de petróleo e gás pode acelerar a busca por alternativas. “Formuladores de políticas na Ásia vão olhar para isso e ficar menos inclinados a seguir a rota do gás”, disse Kingsmill Bond, estrategista de energia do think tank Ember. “Quanto mais esse conflito durar, maior será a pressão para encontrar soluções alternativas.” Embora o mundo ainda registre excesso de oferta de petróleo e gás, um conflito prolongado tende a reconfigurar mercados, preços e estratégias nacionais de segurança energética. Especialistas alertam que o aumento dos preços pode pressionar orçamentos públicos, sobretudo em países em desenvolvimento. Antony Froggatt, diretor de Energia e Clima da Transport and Environment, destaca na reportagem que custos mais elevados limitam recursos para subsídios e políticas de apoio, fundamentais para que tecnologias limpas consigam competir com fontes mais poluentes. Em economias com grandes reservas de carvão, como China e Índia, o combustível fóssil mais intensivo em emissões pode surgir como substituto rápido e barato para parte do gás importado. Mas o cenário não é linear. Para David Hostert, chefe global de economia e modelagem da BloombergNEF, o choque pode ter efeitos colaterais relevantes. “Preços mais altos de energia podem gerar inflação”, disse. Isso pode levar bancos centrais a elevar juros, encarecendo o financiamento de projetos de energia limpa — um setor intensivo em capital e altamente sensível ao custo do crédito. Hostert resume o momento como “um tipo de teste de Rorschach, dependendo do que você quer enxergar”. Países produtores de petróleo e gás podem interpretar a crise como justificativa para reforçar a exploração de recursos domésticos. Já nações importadoras podem acelerar a eletrificação e reduzir a dependência de combustíveis fósseis externos. A experiência europeia após a invasão da Ucrânia pela Rússia oferece um exemplo de como crises energéticas podem impulsionar as renováveis. Entre 2019 e 2024, os países da União Europeia instalaram capacidade suficiente de energia eólica e solar para evitar a queima de 92 bilhões de metros cúbicos de gás e 55 milhões de toneladas de carvão mineral em 2024, segundo a Agora Energiewende. “Tivemos resultados concretos”, afirmou Frauke Thies, diretora para a Europa do think tank. “Foram as renováveis que impediram que a Europa sofresse ainda mais na última crise energética.” Transição com nuclear O novo choque energético também reacende o debate sobre o papel da energia nuclear na transição. Em meio ao ressurgimento global do interesse pela tecnologia, a Califórnia discute flexibilizar uma moratória de 50 anos que restringe novos projetos no estado. Um projeto de lei apresentado recentemente permitiria a aprovação de reatores de nova geração licenciados pelo governo federal desde 2005, em um contexto de aumento da demanda por eletricidade e metas climáticas ambiciosas, como alcançar 90% de eletricidade limpa até 2035 e 100% até 2045. “Com metas como 90% de eletricidade limpa até 2035 e 100% de energia limpa até 2045, a energia nuclear é uma fonte que precisa ser considerada”, afirmou a deputada estadual democrata Lisa Calderon, segundo a Bloomberg. O movimento ocorre enquanto o governo Donald Trump destina US$ 80 bilhões ao setor nuclear e investidores direcionam bilhões a empresas que desenvolvem pequenos reatores modulares, vistos como potencialmente mais rápidos e baratos de construir do que usinas convencionais — embora especialistas indiquem que pode levar ao menos uma década para que essas tecnologias sejam implementadas em escala relevante. Na última década, cinco estados americanos revogaram proibições a novos reatores impostas após o acidente de Three Mile Island, enquanto outros 11 ainda mantêm restrições. Para Charles Oppenheimer, fundador do Oppenheimer Project, a mudança de postura da Califórnia tem peso simbólico: “A Califórnia chegou atrasada à festa, mas símbolos importam — e o que a Califórnia faz, o mundo tende a seguir.” Mais Lidas
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