Risco de calor extremo em São Paulo acompanha mapa da desigualdade
Um só Planeta [Unofficial]
March 2, 2026
As áreas menos favorecidas e mais adensadas de São Paulo são também as mais expostas ao risco de calor extremo. É o que confirma uma pesquisa realizada por cientistas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP. Em estudo, as pesquisadoras revelaram, visualmente, a conexão entre a desigualdade social e a vulnerabilidade climática no município. A partir de dados públicos, foi gerado o primeiro mapa de ilhas de calor — locais com temperaturas maiores do que seus arredores — para a cidade de São Paulo. Os resultados identificaram que a distribuição espacial do risco está diretamente ligada a aspectos socioeconômicos e climáticos e que o calor ameaça principalmente as periferias das zonas leste, norte e sul. “Em São Paulo, quem corre mais risco ao calor são pessoas com baixa renda que moram em áreas adensadas, em favelas”, afirma Luiza Muñoz, primeira autora do artigo. A pesquisadora explica que fatores como menos presença ou acesso a áreas verdes são agravantes da exposição às altas temperaturas. Os resultados foram publicados em artigo na revista científica Urban Climate. No trabalho, as pesquisadoras reúnem mapas em escala censitária, analisando separadamente cada setor reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dentro do município de São Paulo. Cada uma dessas áreas é um fragmento de um bairro que compõe uma unidade territorial utilizada para coleta de dados. Desigualdade climática O estudo parte de uma premissa adotada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A entidade, composta por cientistas e governantes do mundo inteiro, define que o risco ao calor é resultado da interação entre perigo climático, vulnerabilidade e exposição. As altas temperaturas só se convertem em ameaça concreta quando atingem populações vulneráveis — como crianças e idosos — e expostas — com menor capacidade de adaptação e que vivem em ambientes urbanos adversos. No caso paulistano, as autoras da pesquisa afirmam que o risco atinge populações sem acesso a áreas verdes ou a ar-condicionado, por exemplo. “Quanto maior a renda, espera-se que maior seja a capacidade de adaptação”, explica Muñoz. Sua orientadora, Denise Duarte, lista fatores que impulsionam a adaptabilidade de uma pessoa, geralmente atrelada ao poder econômico: ar-condicionado, acesso a piscinas, residências mais arejadas e proximidade a áreas verdes. O ponto-chave do artigo, segundo as arquitetas, é a territorialização da discussão sobre o clima. Duarte explica que o mapa é “uma ferramenta de desenho urbano para se pensar políticas públicas voltadas à adaptação climática”. Dessa forma, gestores municipais podem avaliar regiões e ações prioritárias para o combate ao calor extremo. No caso de São Paulo, o resultado é claro: os setores classificados com risco alto ou extremamente alto concentram-se sobretudo nas favelas. Nelas, se observam temperaturas mais elevadas, menor cobertura vegetal, maior impermeabilização do solo, elevada densidade populacional com renda mais baixa e maior proporção de crianças. “O mapa é um retrato da desigualdade social em São Paulo”, diz Muñoz. “Não é possível discutir risco ao calor, ou qualquer risco climático, sem discutir questões socioeconômicas”, continua. Regiões centrais e bairros de maior renda, embora também enfrentem ilhas de calor e condições de temperatura parecidas, apresentam risco inferior devido à maior capacidade adaptativa da população e a melhores condições urbanas. O que são ilhas de calor? O trabalho foi realizado em um contexto de intensificação das ondas de calor — períodos prolongados de temperaturas pelo menos 5°C acima da média. O ano de 2024 foi o mais quente já registrado globalmente, e São Paulo constantemente bate recordes de temperatura — o último foi em janeiro de 2026, com 36,4° registrados na Mooca, zona leste da capital. As cientistas dizem que, no Brasil, as ondas de calor estão associadas a quase 50 milhões de mortes nas últimas duas décadas. E o cenário se torna mais complexo em grandes centros urbanos: contribuem para a criação de ilhas de calor, a impermeabilização do solo, a verticalização da cidade, a falta de áreas verdes, a poluição e o calor gerado por motores de veículos, equipamentos e indústrias. Esses fenômenos climáticos são característicos de ambientes urbanizados. Grandes cidades apresentam temperaturas significativamente mais altas do que áreas rurais — diferença que pode chegar até 10°C. Foi diante dessa realidade que o projeto de Muñoz surgiu. Para elaborar os mapas, as pesquisadoras utilizaram dados abertos, pensando na replicação do projeto. A temperatura e o tipo de solo (impermeável e urbano, vegetação ou corpo hídrico) foram obtidos por meio de satélites de acesso aberto. Os dados censitários identificados pelo IBGE podem ser livremente acessados no Geosampa, portal de mapas oficial da cidade de São Paulo. Informações sobre renda, faixa etária, densidade da população e tipo de habitação — formal ou informal, regular ou favela — foram cruzadas com os dados ambientais. Dessa forma, foi possível identificar o risco ao calor e os seus agravantes. Diante dos resultados, Muñoz acredita que o enfrentamento do calor extremo depende de intervenções ambientais e de políticas urbanas estruturais. “A chave para promover adaptação é a melhoria de condições socioeconômicas, é a melhoria da habitação.” Traçar o plano À medida que as mudanças climáticas se intensificam, seus efeitos se fazem mais presentes no mundo inteiro. O que se desenrola é o aumento da frequência e da potência de eventos extremos, como ondas de calor ou grandes tempestades. As pesquisadoras afirmam que os resultados apontam um ciclo em que vulnerabilidade social e ambiental se retroalimentam. Em muitos casos, as áreas mais quentes coincidem com aquelas que historicamente receberam menos investimento e sofreram uma urbanização menos organizada. Muñoz e Duarte destacam que adaptação climática e justiça social não podem ser tratadas separadamente. “A ideia era que isso não ficasse preso na academia, mas que pudesse ser aplicado em prefeituras”, conta Duarte. “A técnica que resultou nos mapas é uma ferramenta para dar suporte para políticas públicas. É um dado exato que pode contribuir para o planejamento climático de cada município”, completa Muñoz. O artigo Heat risk in the city of São Paulo: interactions between SUHI and social inequality pode ser acessado por este link. Mais informações: luiza.munoz@usp.br, com Luiza Muñoz, e dhduarte@me.com, com Denise Duarte. Mais Lidas
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