Tendências e tensões que vão moldar a pauta climática em 2026
Um só Planeta [Unofficial]
February 24, 2026
O ano de 2025 se encerra como o segundo mais quente da história. Não foi o pior número da série, mas reafirma o quanto a crise climática não pode ser um tema secundário no nosso calendário, como um retrato do que se viu ao longo do ano: alertas máximos, consensos científicos consolidados, decisões — e indecisões — que confirmaram a urgência de um cenário que deixou de ser apenas uma projeção futura para se tornar uma condição de adaptação do presente. No Brasil, 2025 foi marcado por disputas centrais da política ambiental. Debates sobre proteção de florestas, ordenamento territorial e licenciamento ambiental, voltaram a ganhar força, com os impactos e as soluções de populações e territórios vulnerabilizados colocados no centro da mesa de discussão. Internacionalmente, o debate climático compôs o diagnóstico que reafirmava uma maior necessidade de ação no palco da governança climática. No preparo para a 30º Conferência das Partes sobre Clima (a COP30), a maioria dos países ainda permanecia fora da trajetória do Acordo de Paris, que completou 10 anos no último mês. Mesmo com as tensões envolvendo o multilateralismo, o protagonismo do Brasil ao assumir a Presidência da COP30 trouxe a responsabilidade de demonstrar, na prática, que compromissos internacionais podem se traduzir em políticas nacionais capazes de proteger direitos fundamentais — e vice-versa. Desde o início do ano, a ciência foi clara: é preciso decidir pelas pessoas e pelo planeta, que seguem vivenciando policrises: a climática, de perda de biodiversidade, de poluição e da desconexão com a natureza — todas alimentadas pelas desigualdades e, de certa forma, as alimentando também. Para as infâncias, isso significou começar o ano letivo sob calor extremo, com impactos diretos na saúde, no aprendizado e na permanência escolar, especialmente onde políticas de adaptação seguem inexistentes. Em março, o auge das ondas de calor que atingiram o país inteiro, a voz da ciência ditava que o ritmo das respostas climáticas importa tanto quanto os números dos termômetros — e elas precisam ser baseadas na natureza. Em Abril o cenário internacional começou a se organizar em torno da COP30 e os olhos estavam voltados para Belém. Movimentos de justiça climática, adaptação climática nas cidades e mapas do caminho contra o avanço do uso dos combustíveis fósseis ganharam mais espaço no discurso oficial, tornando mais evidente que as policrises também são uma crise dos direitos humanos, e que não afetam todas as pessoas da mesma maneira. De Maio a Setembro, diversas agendas pré-COP colocaram as cartas das negociações na mesa: de Bonn à Africa Climate Week, passando pelas MINI COPs, uma pré-COP em Brasília e a premiação Earthshot no Rio de Janeiro, países e organizações diversas trouxeram suas realidades para ampliar a visão das considerações a serem debatidas oficialmente em Novembro. Durante todos esses momentos, crianças estiveram — em vídeos, cartas ou pessoalmente — pautando a importância de serem consideradas como absoluta prioridade. E em Novembro vimos isso acontecer internacionalmente na COP30, a partir de menções mais robustas e transversais ao longo dos principais textos da agenda de negociações, e nacionalmente na decisão do CONAMA em aprovar a primeira resolução de Justiça Climática e Racismo Ambiental da sua história. 2026 tende a consolidar alguns movimentos importantes da agenda climática O Brasil seguirá exercendo a Presidência da COP, o que mantém o país em posição estratégica no debate internacional e reforça a tendência de reposicionamento diplomático na pauta ambiental. Ao mesmo tempo, cresce o entendimento de que a resposta à crise climática não se dará apenas por metas globais de redução de emissões, mas também por políticas de adaptação, especialmente nas cidades. O avanço do calor extremo tornou esse tema central, e iniciativas como o Beat the Heat (ou “Mutirão contra o Calor Extremo”), apoiadas por cientistas como Carlos Nobre, apontam para soluções baseadas na natureza, como a ampliação da vegetação urbana, como medidas eficazes para reduzir riscos e proteger territórios vulneráveis e comunidades vulnerabilizadas para reduzir os impactos das temperaturas altas. Ao lado dessas tendências, 2026 será marcado por tensões relevantes. A principal delas é a distância entre liderança internacional e implementação doméstica. Presidir a COP não garante, por si só, coerência interna. A efetividade dessa liderança dependerá da capacidade de alinhar discursos globais a políticas públicas nacionais e locais. Outra tensão importante está relacionada ao calendário eleitoral nos governos subnacionais. Estados e municípios são atores centrais da adaptação climática, mas períodos eleitorais costumam gerar descontinuidade administrativa, priorização de agendas de curto prazo e enfraquecimento de políticas estruturais. Nesse cenário, o próximo ano se apresenta como um período decisivo para transformar consensos em ação. A tensão central será decidir se essas soluções serão tratadas como política pública permanente ou como iniciativas pontuais. Para as próximas gerações, essa escolha tem efeitos concretos, ou melhor, efeitos naturais: define se crescerão saudáveis e resilientes como suas cidades, ou se mais expostas aos impactos da crise climática que já desmontam seus direitos básicos. Ainda assim, 2026 também oferece uma janela de oportunidade. O acúmulo de evidências, a centralidade da COP no Brasil e a maior consciência sobre os impactos do clima no cotidiano criam condições para decisões mais consistentes. É hora de transformar conhecimento em prioridade e intenção em ação. (*) Carolina Maciel é bióloga e analista de natureza no Instituto Alana. Também é gestora ambiental (UERJ), Conselheira no CONAMA, escritora e pesquisadora de clima, periferias e infâncias. Carolina Maciel Divulgação/ALANA
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