Áreas desmatadas têm mais enchentes no período chuvoso e menos água na seca, mostra estudo
Um só Planeta [Unofficial]
February 21, 2026
A disponibilidade de água em pequenas bacias hidrográficas tem sido impactada pelo avanço do desmatamento na região de transição entre Cerrado e Amazônia, aumentando o risco de cheias no período chuvoso e reduzindo a disponibilidade hídrica na estação seca. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). A equipe analisou, por meio de monitoramento de campo, como diferentes níveis de cobertura vegetal influenciam o fluxo dos rios. Foram avaliadas oito bacias hidrográficas no leste de Mato Grosso ao longo de três anos, abrangendo áreas com diferentes graus de inclinação do terreno e cobertura de vegetação nativa, variando entre 10% e 80%. Os resultados, publicados no Journal of Hydrology X, mostram que bacias mais desmatadas apresenta aumento consistente no volume anual e diário de água escoada, além de maior variabilidade sazonal. Nessas áreas, também foram registrados picos mais intensos de vazão durante eventos de chuva forte, indicando maior risco de enchentes e alterações rápidas no comportamento dos cursos d’água. Segundo a pesquisa, o desmatamento altera o equilíbrio do ciclo hidrológico ao reduzir processos naturais como evapotranspiração e infiltração da água no solo. A conversão de áreas florestais em pastagens ou lavouras diminui a capacidade da paisagem de reter água, favorecendo o escoamento superficial. Como consequência, foi observado que bacias mais desmatadas podem registrar até o dobro do fluxo anual de água em comparação com áreas que mantêm maior cobertura vegetal nativa. “Conseguimos monitorar a vazão dos córregos de forma contínua, com medições a cada hora, em uma região com poucos dados hidrológicos. Isso nos permitiu entender como o desmatamento acelera o escoamento da chuva, aumenta o risco de enchentes e reduz a água disponível na estação seca”, disse Hellen Almada, pesquisadora do IPAM, em comunicado. Ela continua: “Os resultados mostram que é preciso considerar a sazonalidade, a topografia e os solos para avaliar os impactos na segurança hídrica, especialmente em anos de seca severa”. Apesar do aumento do volume de água durante o período chuvoso, os pesquisadores identificaram um efeito oposto na estação seca. Em bacias com alto nível de desmatamento, a vazão no período seco representa apenas 10% do fluxo anual, enquanto bacias com vegetação conservada mantiveram aproximadamente 30% do fluxo de água, inclusive em anos com menor precipitação. “Os resultados mostram que o desmatamento impacta diretamente a segurança hídrica e reforçam a importância de conservar a vegetação nativa e planejar melhor o uso da terra”, completa Leonardo Maracahipes-Santos, pesquisador do IPAM.
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