Indígenas interceptam balsa no Tapajós e ampliam pressão contra decreto que inclui rios amazônicos em programa de desestatização; entenda o embate
Um só Planeta [Unofficial]
February 19, 2026
Uma mobilização indígena no rio Tapajós, nesta quinta-feira (19), ampliou a tensão em torno dos projetos logísticos na Amazônia. Cerca de 400 indígenas, distribuídos em quatro embarcações, interceptaram uma balsa de grãos no trecho urbano do rio, em frente ao porto da Cargill, ocupado por povos do Baixo Tapajós desde 22 de janeiro. O ato teve como objetivo chamar a atenção do governo federal e da sociedade para os impactos da transformação dos rios amazônicos em corredores de exportação, segundo informações do Amazon Watch. Além do bloqueio terrestre ao terminal da multinacional, a mobilização agora passa a pressionar também pelo rio. Os manifestantes pedem a revogação do Decreto 12.600/2025, que incluiu os rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, e a anulação do edital de dragagem do Tapajós. Para as lideranças, a medida abre caminho para a privatização da chamada manutenção da navegabilidade — o que, na prática, permitiria intervenções estruturais para acelerar o escoamento de commodities como soja e milho. “Esse rio é nossa rua. É nossa fonte de alimento, é morada de nossos peixes e essencial para o equilíbrio da floresta e do clima. Como transformar essa riqueza em corredor para soja? E pior, sem ouvir os povos que vivem nele e dele", enfatizou a liderança do Baixo Tapajós, Auricélia Arapiuns. Protesto ocorre contra medidas que ampliam a navegação comercial nos rios amazônicos Coletivo Apoena Audiovisual "É por isso que estamos aqui, porque queremos que o Brasil respeite a Convenção 169 da OIT ( Organização Internacional do Trabalho) e nos ouça antes das tomadas de decisões. Esse decreto foi assinado primeiro e agora querem discutir como consultar? Isso não é consulta, é tentativa de legitimar o que já foi decidido. E foi decidido por quem? Para quem? Para favorecer meia dúzia de empresas estrangeiras, como a Cargill, que lucra com as violações de direitos humanos e ambientais na Amazônia”, ressaltou Auricélia. A mobilização ocorre em meio ao avanço do chamado corredor logístico do Arco Norte, que integra projetos como a Ferrogrão (EF-170), planejada para ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA). O leilão da ferrovia está previsto para setembro. Dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) indicam que a hidrovia do Tapajós — conectada à BR-163 e aos portos de Santarém e Miritituba — movimentou mais de 15 milhões de toneladas de grãos em 2024. Pressão Organizações socioambientais alertam que a transformação dos principais rios amazônicos em hidrovias voltadas ao agronegócio pode gerar impactos negativos sobre territórios tradicionais, biodiversidade e clima. Entre os riscos apontados estão a intensificação da grilagem, a expansão da soja sobre áreas sensíveis, a contaminação de corpos hídricos e o aumento da violência nas rotas de escoamento. “É importante um olhar crítico e de impactos cumulativos sobre o projeto Arco Norte. A Ferrogrão, a expansão de portos graneleiros privados e a Hidrovia do Tapajós podem criar um corredor logístico com aumento de cinco a sete vezes da quantidade de soja, que irá aumentar a pressão sobre territórios tradicionais. As consequências vão além dos impactos no rio Tapajós, com a expansão da soja e do desmatamento, ameaçando também as próprias metas climáticas do país de redução do desmatamento”, ressaltou a analista de política de transporte da GT Infraestrutura, Renata Utsunomiya. Para lideranças indígenas, os efeitos já são perceptíveis nas comunidades. Alessandra Korap Munduruku afirma que a intensificação do escoamento de grãos alterou a dinâmica do rio e a disponibilidade de pescado. “Com o aumento do escoamento de soja pelo Tapajós, veio o aumento das dragagens, portos e tráfego de balsas. Já estamos vendo peixes com alteração, peixe que some, peixe que aparece contaminado, com a barriga cheia de grãos. Enquanto os brancos pensam só em economia, esquecem da segurança alimentar. Se isso aumentar, esse veneno vai chegar cada vez mais na cadeia alimentar das cidades”, alertou a liderança, vencedora do Prêmio Goldman 2023. Indígenas exibem faixa durante interceptação de balsa de grãos em Santarém (PA) Coletivo Apoena Audiovisual Maria Leusa Munduruku também chamou atenção para os limites naturais dos rios amazônicos. “O rio tem seu tempo, sua cheia, sua vazante. Quando aprofundam, alargam e forçam a navegação o ano todo, rompem esse ciclo. Nosso povo sempre ensinou que é preciso respeitar o limite do rio. Quando não se respeita, vêm as secas extremas, os desequilíbrios. E nesse caso, não é só o Tapajós que sente, é toda a região”, disse. Em outubro de 2024, segundo comunicado da manifestação, o nível do rio Tapajós chegou a apenas 17 centímetros — 77 centímetros abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior, que já havia marcado a pior seca histórica. Mobilização O movimento, liderado por povos do Tapajós, ganhou reforço nas últimas semanas. Na segunda-feira (16), cerca de 50 indígenas Kayapó e Panará, vindos do Mato Grosso e do Pará, chegaram ao acampamento. Na sexta-feira (13), Munduruku do Alto Tapajós também se somaram ao protesto, que já reúne cerca de 1.200 pessoas. Mais Lidas
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