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Ocupação indígena no porto da Cargill no Pará entra em nova fase e eleva tensão com governo federal

Um só Planeta [Unofficial] February 19, 2026
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A ocupação iniciada por lideranças indígenas no porto da gigante do agronegócio Cargill, em Santarém (PA), entrou em nova fase na última semana. O movimento, que começou com representantes de povos do Baixo Tapajós, agora reúne também indígenas do Médio e Alto Tapajós, além de delegações Kayapó e Panará, ambas vindas do Mato Grosso. Aproximadamente 1.200 pessoas estão na manifestação que iniciou no dia 22 de janeiro. Nesta quinta-feira, o movimento completa 29 dias. A principal reivindicação é a revogação do Decreto 12.600/2025, que incluiu os rios Tapajós, Tocantins e Madeira no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrindo caminho, de acordo com os manifestantes, para concessões e intervenções voltadas à ampliação da navegabilidade. Para as lideranças, o debate não se limita à logística de escoamento de grãos. Trata-se, segundo afirmam, de uma decisão sobre o futuro territorial da Amazônia. De um lado, a estratégia de consolidar corredores de exportação para fortalecer a competitividade agrícola; de outro, a defesa de territórios tradicionalmente ocupados, da pesca artesanal, da dinâmica natural dos rios e da integridade cultural dos povos indígenas. “Enquanto o Lula não revogar esse decreto, a luta vai aumentar”, afirma a liderança indígena do Médio Tapajós, Alessandra Korap Munduruku. “O movimento iniciou com poucas pessoas, e hoje ele está crescendo muito mais, não só os 14 povos do Baixo Tapajós, mas também o povo do Médio e Alto Tapajós, os parentes Kayapó, os parentes Panará que vieram do Mato Grosso, porque sabem que esse decreto também vai afetar outras regiões”, ressalta Alessandra. Segundo ela, os impactos ultrapassam o leito principal do rio. “Ela não afeta só o rio. Ela afeta também outros territórios que, muitas vezes, não têm rios grandes, mas têm igarapés. Quando esse decreto aumenta a soja nas regiões, que já está avançando na Amazônia, isso atinge tudo”. O que prevê o decreto? O Decreto 12.600/2025 incluiu trechos estratégicos dos rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização, instrumento que permite estudos e modelagens para concessões à iniciativa privada. Na prática, viabiliza a chamada “manutenção da navegabilidade”, que pode envolver dragagens periódicas, derrocamento de rochas e outras intervenções destinadas a permitir o tráfego contínuo de grandes comboios de barcaças. O Tapajós integra o chamado Arco Norte — corredor logístico que conecta a produção de soja e milho do Centro-Oeste aos portos do Norte do país, reduzindo distâncias até mercados internacionais. Em 2024, mais de 15 milhões de toneladas de grãos foram escoadas pela hidrovia, segundo dados do setor. O governo federal já declarou que a dragagem, suspensa recentemente, seria parte de manutenção rotineira e afirmou que respeitará o direito à consulta prévia, livre e informada previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). As lideranças indígenas, contudo, sustentam que a consulta deveria ter ocorrido antes da edição do decreto. Outros povos A chegada de delegações Kayapó e Panará, vindas da região do Alto Xingu, no Mato Grosso, ampliou o alcance político do movimento. Para esses povos, a inclusão dos rios no programa de desestatização não representa apenas uma mudança logística no Tapajós, mas um precedente que pode impactar outras bacias e territórios conectados ao avanço do agronegócio. As lideranças avaliam que a consolidação do corredor logístico do Arco Norte fortalece a expansão da soja sobre áreas próximas a terras indígenas e unidades de conservação. No Mato Grosso, a preocupação recai sobre o aumento da pressão fundiária no entorno de territórios como o Capoto-Jarina e sobre os impactos indiretos da infraestrutura associada à BR-163 e à projetada Ferrogrão (EF-170). Para esses povos, o decreto integra uma política mais ampla de priorização da exportação de commodities, com potencial de alterar dinâmicas ambientais em regiões que, mesmo sem grandes rios navegáveis, dependem de igarapés, nascentes e sistemas hídricos interligados. Mobilização já está prestes a completar um mês Mebengokre Karakran Metuktire Expansão da soja Para os povos mobilizados, a transformação dos rios em hidrovias permanentes acelera a expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia. A BR-163, a projetada Ferrogrão e os portos privados instalados em Miritituba e Santarém formam, segundo pesquisadores e organizações socioambientais, um eixo estruturante da logística do agronegócio na região. “Quantos rios precisam ser mortos? Para o povo entender que a Amazônia está sofrendo com os ataques do próprio governo”, diz Alessandra Korap. Há tensão estabelecida entre o movimento e o governo federal, que, por outro lado, tem defendido internacionalmente a liderança brasileira na agenda climática e a redução do desmatamento. Os povos tradicionais são defensores do bioma. Mercados internacionais A liderança Munduruku também associa o avanço logístico aos acordos comerciais e à demanda externa por commodities. “Os outros países também são culpados pela destruição da Amazônia, porque quando ele compra mais soja, milho, algodão, minério, é por conta dos acordos que os países fazem. Então, a morte do nosso rio vai afetar o nosso corpo, a nossa cultura, nossa língua, nosso bem-estar, nosso bem-viver”, questiona Alessandra. Mais Lidas

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