Petróleo derramado no Nordeste viajou recorde de 8.500 km em lixo plástico até a Flórida, nos Estados Unidos
Um só Planeta [Unofficial]
February 15, 2026
Após um derramamento, o petróleo raramente viaja longas distâncias. Evaporação, dissolução, degradação, além das medidas de resposta a esses eventos, como a aplicação de dispersantes, evitam que o material percorra mais de 300 quilômetros da fonte. Porém, um estudo de pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC) com instituições internacionais comprovou, pela primeira vez no mundo, um caso que quebra esse padrão. O óleo espalhado na costa do Nordeste brasileiro em 2019 viajou cerca de 8.500 quilômetros até Palm Beach, na Flórida, nos Estados Unidos, em uma viagem de aproximadamente 240 dias. A cidade é o ponto mais oriental da península da Flórida, e sua praia é considerada uma das mais poluídas por detritos no sudeste dos Estados Unidos. Isso porque se localiza a cerca de cinco quilômetros do fluxo da corrente do Golfo do México, e recebe ventos que sopram do mar trazendo diversos detritos. A Friends of Palm Beach (FOPB), uma organização sem fins lucrativos dedicada à limpeza do litoral de Palm Beach, divulgou nas redes sociais a chegada inusual dos detritos, despertando o olhar de pesquisadores. Mapa dos avistamentos de resíduos com óleo e fardos de borracha Environmental Science & Technology Segundo o estudo, o que tornou o feito possível foi a presença de resíduos plásticos marinhos, gerando um novo alerta para a governança global dos oceanos. As garrafas, quando possuíam rótulos legíveis, traziam inscrições em português, espanhol e inglês. O material, coberto por óleo, chegou à costa do estado diariamente, por vários meses, em 2020. Fardos de borracha, encontrados na costa do Nordeste brasileiro no ano anterior, também apareceram na costa estadunidense. A coincidência dos eventos motivou pesquisadores do Labomar-UFC, em parceria com instituições internacionais, a verificarem se os acontecimentos estariam conectados. Eles comprovaram a hipótese e publicaram, em janeiro, um artigo na revista Environmental Science & Technology revelando que o lixo marinho, especialmente o plástico - cada vez mais presente nos oceanos, pode ser responsável por uma contaminação transfronteiriça de petróleo. Além das garrafas com óleo, a praia de Palm Beach também registrou o aparecimento de fardos de borracha em 2020, semelhantes aos que chegaram à costa do Nordeste brasileiro em 2019 Divulgação “Trata-se da interação entre poluição por óleo e resíduos plásticos marinhos, na qual o plástico atua como vetor, ampliando a persistência, o alcance espacial e o impacto ambiental do óleo. Essa interação cria um co-contaminante com comportamento distinto daquele observado quando óleo e plástico são considerados isoladamente”, explica o professor Rivelino Cavalcante, do Labomar, um dos autores da pesquisa. Os riscos ambientais, acrescenta o professor Rivelino Cavalcante, são múltiplos, pois o plástico oleado é um contaminante potencial e perigoso. “A ingestão de materiais plásticos por animais marinhos, por si só, já representa uma ameaça significativa à saúde desses organismos. Somado a isso, quando os animais se encontram oleados, o risco é ainda maior, uma vez que diversos hidrocarbonetos presentes no petróleo são tóxicos, incluindo compostos com potencial carcinogênico”, aponta. Mais Lidas
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