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Sinal vermelho para a biodiversidade: cervo asiático invade Pantanal e ameaça espécies do bioma brasileiro

Um só Planeta [Unofficial] February 13, 2026
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O Pantanal, maior área úmida continental do planeta, passa a conviver com uma nova ameaça. Um registro feito em janeiro de 2026 confirma a chegada do cervo Axis (Axis axis) — também conhecido como chital — ao bioma. A ocorrência foi relatada no site ECO pela pesquisadora Liliani Marilia Tiepolo, PhD e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), especialista em mamíferos e conservação da biodiversidade. O registro ocorreu em uma fazenda a cerca de 100 quilômetros ao sul de Corumbá (MS), na região do Nabileque, entre o rio Paraguai e a fronteira com Bolívia e Paraguai. Segundo o relato, um indivíduo foi filmado após atacar touros e ser perseguido por cães. O avistamento surpreendeu trabalhadores da propriedade, que recorreram à Embrapa Pantanal para identificação da espécie. Trata-se do primeiro registro confirmado do chital no Pantanal. Pantanal depende do fluxo de água que vem das partes mais altas, as cabeceiras. Bioma não teve período de cheia em 2024, diz estudo do WWF-Brasil. CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images Invasão Originário do sul da Ásia, o chital foi introduzido na América do Sul no início do século XX para fins de caça esportiva no Uruguai e, posteriormente, na Argentina. Desde então, expandiu-se rapidamente pelo território argentino e, na sequência, ultrapassou as fronteiras do país vizinho. No Brasil, o primeiro registro ocorreu em 2009, no Rio Grande do Sul. Depois, a espécie foi identificada em Santa Catarina (2019), Paraná (2020) e São Paulo (2024). Agora, alcança o Mato Grosso do Sul — e o Pantanal. Segundo Tiepolo, a velocidade de expansão da espécie no Brasil varia entre 100 e 150 quilômetros por ano. Projeções indicam que, mantido o ritmo atual, o chital pode alcançar estados como Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro, Espírito Santo e até o sul da Bahia nas próximas duas décadas. Risco A preocupação é o impacto sobre espécies nativas do Pantanal. O bioma abriga as maiores populações de cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), ameaçado de extinção; veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus leucogaster); além de populações de veado catingueiro e veado mateiro. Os impactos, ainda não totalmente projetados, incluem competição por alimento, transmissão de doenças e interações agressivas entre indivíduos. “A invasão documenta a capacidade de dispersão ativa da espécie”, aponta a pesquisadora Liliani Tiepolo, no artigo publicado no ECO. Ainda segundo ela, pouco se sabe sobre a magnitude real dos impactos ecológicos, mesmo em países vizinhos onde o chital já está estabelecido há anos. Além disso, o Pantanal enfrenta impactos de incêndios, avanço agropecuário e mudanças climáticas. Nesse contexto, espécies invasoras são consideradas uma das maiores ameaças globais à biodiversidade. No caso do Pantanal, a introdução de um mamífero de grande porte com potencial competitivo significativo pode alterar dinâmicas ecológicas. Na Argentina, por exemplo, a presença descontrolada levou autoridades provinciais a declarar o cervo Axis como praga e autorizar caça seletiva como medida de controle, diante de evidências de competição com fauna nativa, riscos sanitários e acidentes rodoviários causados por grandes rebanhos. Fragilidade Tiepolo destaca que o país não possui estrutura adequada de governança para lidar com invasões biológicas de mamíferos de grande porte. O caso do javali (Sus scrofa) é citado como exemplo. A política de controle ficou concentrada na atuação de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs), considerada ineficaz. Para estabilizar populações de javalis, seriam necessárias remoções superiores a 60% dos indivíduos por ano — algo que nunca foi obtido. Saiba mais Diferentemente de países como Estados Unidos, Canadá ou Austrália, o Brasil não conta com um serviço nacional estruturado de gestão de vida selvagem priorizando o manejo técnico de populações invasoras. “O Brasil não possui governança suficiente para tratar de controle de invasões por espécies exóticas de mamíferos”, escreve Tiepolo. Outro fator preocupante é a venda de cervídeos exóticos como animais “ornamentais”. O artigo aponta que é possível encontrar anúncios na internet oferecendo chital, cervo rusa, cervo vermelho, cervo dama e até antílopes, com preços superiores a R$ 10 mil. Esse cenário amplia o risco de colonização acelerada. Mais Lidas

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