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  "textContent": "\nA suspensão do pregão para dragagem no Rio Tapajós, anunciada pelo Governo Lula após dias de mobilização indígena em Santarém (PA), pode parecer, à primeira vista, um episódio que culminou com a vitória de lideranças indígenas: um processo licitatório interrompido, uma medida apresentada como “gesto de negociação”, a promessa de consulta prévia. No entanto, para quem vive às margens do Tapajós, o que está em curso não é um fato isolado. É mais um capítulo de uma longa história de disputas sobre território, poder e memória na Amazônia — que detém a maior floresta tropical do mundo e é essencial na regulação do clima global. O professor indígena Maike Kumaruara, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), vê a atual controvérsia como parte de um padrão histórico, interligado a episódios anteriores. “Esse processo de intervenção faz parte de um padrão que a gente entende como colonização de imposição. Desde o período colonial, houve uma ocupação que foi desterritorializando e desestruturando os povos indígenas”. “O rio é fronteira colonial” Para compreender o presente, Kumaruara propõe olhar para trás. Ele recorda que, no século XVIII, vilas e aldeias indígenas tiveram seus nomes substituídos por nomes portugueses. “Vila dos Tapajós virou Santarém. Alter do Chão também teve seu nome alterado. Isso não é só uma troca de nome, é imposição cultural”. Essa imposição, segundo ele, não terminou. Ela apenas mudou de forma. Hoje, aparece sob a justificativa de desenvolvimento, da logística e da competitividade internacional. A hidrovia do Tapajós é apresentada como corredor estratégico para o escoamento de grãos do agronegócio pelo chamado Arco Norte. “Mas, para os povos do Baixo Tapajós, ela representa mais uma etapa de um processo contínuo de desterritorialização”, diz. O professor indígena Maike Kumaruara, da UFOPA, analisou o cenário Arquivo Pessoal Desenvolvimento para quem? O argumento de que grandes obras trariam progresso econômico não é novo na Amazônia. Estradas, portos, barragens e projetos de mineração foram historicamente justificados como vetores de modernização. O resultado, porém, nem sempre alcançou as populações locais. E o pior: ameaçou o habitat de populações tradicionais, que utilizam a bioma para preservação ambiental e do modo de vida. “A lógica do desenvolvimento sempre foi de exploração da terra e da mão de obra indígena. A pergunta é: desenvolvimento para quem?”, questiona Kumaruara. Ele cita o terminal portuário instalado em Santarém, ligado ao escoamento de grãos, como símbolo dessa contradição. Ele explica que o empreendimento da Cargill foi erguido sobre área considerada sítio arqueológico indígenas, antes espaço de memória e ancestralidade. Manifestantes ocupam área próxima ao terminal da Cargill, em Santarém, durante mobilização contra a privatização da hidrovia do Tapajós Divulgação/Conselho Indígena Tapajós Arapiuns Racismo ambiental A análise do professor vai além da dimensão histórica. Ele identifica o que chama de continuidade de um “racismo ambiental” — conceito que descreve a concentração de impactos ambientais negativos sobre populações vulnerabilizadas. “Quando se flexibiliza a legislação ambiental ou se cria mecanismos que funcionam como autolicenciamento, abre-se espaço para violência e desterritorialização”. Na bacia do Tapajós, os impactos já estãp sendo conhecidos e/ou estimados. Estudos conduzidos por instituições, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a própria UFOPA, apontam alta incidência de mercúrio no sangue de populações ribeirinhas e indígenas, resultado do garimpo. Segundo Maike, a pesquisa será divulgada em breve. “Historicamente, os principais impactos socioambientais são o mercúrio, o garimpo ilegal, a retirada de madeira. Isso já está acontecendo. A dragagem é mais uma peça dentro dessa engrenagem”. A preocupação não é apenas com a navegabilidade, mas com o que pode ser mais uma agressão ao rio — sedimentos, contaminantes, alterações no regime das praias e na pesca. Consulta prévia A atual mobilização também recoloca no centro do debate a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura o direito à consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas. “Existe um padrão histórico de não consultar. A consulta precisa ser livre, prévia e informada, de acordo com as características culturais de cada povo. Essa é uma batalha enorme”. Embora reconheça avanços institucionais recentes, como a existência de ministérios e secretarias voltadas aos povos indígenas, Kumaruara expressa frustração com a edição do decreto que prevê a concessão da hidrovia. “O decreto foi assinado pelo Executivo. Isso gera decepção”. O rio Talvez o ponto mais complexo do conflito esteja na diferença de concepção sobre o próprio rio. Para o Estado e para o mercado, o Tapajós é um meio logístico. Para os povos do Baixo Tapajós, ele é mais que isso. “O rio é ancestralidade. É alimento, é transporte, é sagrado. Para nós, o Tapajós é sujeito”. A mobilização atual, explica o professor, é também fruto de um processo de retomada identitária. Rodas de conversa, reconstrução da memória histórica, fortalecimento da identidade indígena fazem parte da resistência. “Essa memória nos dá força para defender o território”. Mais que logística Segundo o professor, o que está em disputa não é apenas um plano de dragagem, nem exclusivamente uma concessão de hidrovia. É um embate sobre o futuro da Amazônia. “O que está em jogo não é só logística. É decidir se a região será vista apenas como corredor de exportação ou como território de vida”. A manifestação ganhou apoio do Conselho Municipal de Política Cultural de Santarém. Initial plugin text Mais Lidas",
  "title": "Dragagem do Rio Tapajós: 'Não é só logística. É decidir se região será  corredor de exportação ou território de vida', diz professor indígena"
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