External Publication
Visit Post

Minerais da transição energética colocam a Groenlândia sob pressão ambiental inédita

Um só Planeta [Unofficial] February 9, 2026
Source
A Groenlândia, território de geleiras e com aceleração do degelo no Ártico, entrou definitivamente no radar da geopolítica global, no início deste ano. O interesse estratégico dos Estados Unidos, explicitado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, posicionou a ilha como protagonista na corrida por minerais críticos, essenciais tanto para a transição energética quanto para a indústria de defesa. O movimento, no entanto, revela um ponto frágil: a busca por insumos fundamentais para tecnologias de baixo carbono pode reproduzir, no Ártico, a mesma lógica predatória já observada em outras regiões do mundo. Esse vínculo foi assumido publicamente pelo próprio Trump. Em entrevista à CNBC, reproduzida pela CNN, o presidente norte-americano afirmou que os direitos minerais estavam no centro das conversas. “Eles estarão envolvidos nos direitos minerais, e nós também”, disse, ao comentar negociações envolvendo a Groenlândia. A declaração tornou explícito a mineração, especialmente de terras raras, como principal ativo do interesse norte-americano na terra que pertence a Dinamarca. Ilustração indica avanço perigoso de Donald Trump na Groelândia llustration by Cheng Xin/Getty Images Terras raras De acordo com o professor Herbert Garcia Viana, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e especialista em tecnologia mineral pela Universidade Federal do Pará, a Groenlândia concentra alguns dos depósitos mais relevantes de minerais críticos do planeta. As reservas de terras raras são estimadas em cerca de 38,5 milhões de toneladas, além de aproximadamente 593 mil toneladas de urânio. “As terras raras são essenciais na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, amplamente utilizados em sistemas de defesa, radares, mísseis guiados, satélites, veículos elétricos e turbinas eólicas”, explica Viana. O urânio, acrescenta o especialista, ocupa posição estratégica tanto na geração de energia nuclear quanto em aplicações associadas à segurança energética e à defesa. Na prática, a transição energética e a indústria militar compartilham os mesmos insumos — o que ajuda a explicar por que Washington passou a tratar a Groenlândia como território chave para reduzir dependências externas e conter a influência de outros países nas cadeias globais desses materiais. Território x mineração O avanço desse interesse ocorre em um contexto ambiental sensível. O Ártico aquece mais rápido do que a média global, e seus ecossistemas apresentam recuperação lenta diante de perturbações. Para Viana, qualquer intensificação da atividade mineral na Groenlândia exigiria padrões regulatórios rigorosos e avaliações ambientais aprofundadas. “Trata-se de aberturas de minas, estradas e portos em um território praticamente ‘virgem’, que pouco conhece a ação do homem industrial”, afirma. “Isso pode provocar fragmentação de habitats, afetando espécies adaptadas a condições extremas e de lenta recuperação ecológica”, frisou em entrevista ao Um Só Planeta. Alerta Para a especialista em energia renovável Thaynara Leal, membro da Rede Amazônidas pelo Clima (RAC), o discurso que associa minerais críticos à transição energética precisa ser visto com cautela. “Esse risco é real”, afirma. “Quando desvinculado de compromissos climáticos e socioambientais robustos, o discurso tende a reproduzir a mesma lógica extrativista e predatória da mineração tradicional, apenas sob uma nova narrativa verde", argumentou Thaynara Leal. Ela observa que o interesse dos Estados Unidos na Groenlândia se insere em um contexto de enfraquecimento da agenda climática norte-americana durante a gestão Trump. “Há um desinteresse em proteger o meio ambiente, mas um foco claro em expandir economicamente com recursos estrangeiros”, diz. Segurança estratégica x proteção ambiental Ainda segundo Herbert Viana, em cenários de competição entre grandes potências, critérios ambientais costumam ser relativizados em nome da segurança nacional. “Esse conflito se manifesta por meio de flexibilização regulatória, celeridade excepcional em processos de licenciamento e priorização de acordos geopolíticos”, explica. Mesmo quando há tratados internacionais, acrescenta, eles frequentemente estabelecem compromissos mínimos - insuficientes para proteger territórios ambientalmente frágeis. Sul Global Para Thaynara Leal, a corrida por minerais críticos na Groenlândia não pode ser analisada de forma isolada. Segundo ela, o território ártico começa a reproduzir uma dinâmica já conhecida em regiões ricas em recursos estratégicos do Sul Global, lá, interesses geopolíticos costumam se sobrepor a critérios socioambientais. “Territórios do Sul Global frequentemente se tornam alvos de disputas marcadas por assimetrias de poder. Chile, Bolívia e Colômbia enfrentam pressões crescentes sobre suas reservas estratégicas, e narrativas de instabilidade política ou fragilidade institucional acabam sendo usadas como justificativa para intervenções econômicas”, afirma. Na avaliação de Leal, o risco é que a Groenlândia passe a ser incorporada a essa mesma lógica, agora sob o argumento da transição energética e da segurança estratégica como prioridade. “Quando a exploração de minerais críticos é desvinculada de compromissos climáticos e socioambientais robustos, ela tende a reproduzir a mesma lógica extrativista e predatória da mineração tradicional, apenas sob uma nova narrativa ‘verde’”, explica Thaynara. Recentemente, a população da Groelândia e da Noruega conduziram manifestações com palavras ofensivas para Donald Trump. Protesto em Copenhague exibe mensagem “Dump Trump” (abandone Trump) em reação a declarações do presidente dos EUA. Kristian Tuxen Ladegaard Berg/NurPhoto/Getty Images População protesta contra interesses externos e pressões econômicas sobre a Groenlândia Sean Gallup/Getty Images O alerta se estende ao Brasil. O país detém uma das maiores reservas de terras raras do mundo, atrás apenas da China, além de outros minerais essenciais para a transição energética global. “Se interesses externos encontrarem alinhamento político interno e respaldo institucional, existe o risco de aprofundamento de um modelo de exploração ainda mais predatório, sobretudo no Norte e no Centro-Oeste, regiões historicamente vulneráveis a pressões econômicas e ambientais”, afirma. Para a especialista, o debate sobre minerais críticos precisa ir além da urgência tecnológica e incorporar temas como governança, soberania e justiça socioambiental. “A transição energética é central para enfrentar a crise climática, mas precisa ser cuidadosamente desenhada, com parcerias responsáveis, mecanismos claros de compensação e respeito aos direitos ambientais e sociais no médio e longo prazo”. Transição energética Nesse sentido, a Groenlândia é um território que pode ser uma espécie de teste para o futuro da transição energética. Leal lembra que não existe hoje um modelo de mineração totalmente sustentável em nenhuma parte do mundo, já que os impactos ocorrem antes, durante e após a extração. Ainda assim, ela vê uma possibilidade de ruptura com o padrão histórico. A resposta a esse dilema indicará se a transição energética global será capaz de romper com velhas lógicas de exploração ou apenas deslocá-las para territórios vulneráveis. “Se a Groenlândia, em articulação com a Dinamarca e a União Europeia, conseguir liderar um modelo de exploração com padrões ambientais rigorosos, salvaguardas à biodiversidade, proteção às populações locais e mecanismos claros de mitigação, isso pode representar um novo paradigma para a governança dos minerais críticos”, afirma. Mais Lidas

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...