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Plano Clima projeta perda de R$ 17 trilhões até 2050 sem ampliação de políticas contra crise climática

Um só Planeta [Unofficial] February 7, 2026
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O novo Plano Clima 2024–2035, lançado pelo Ministério do Meio Ambiente na última quinta-feira (5), projeta que o Brasil pode perder até R$ 17,1 trilhões em Produto Interno Bruto (PIB) até 2050 caso não amplie suas políticas de enfrentamento à crise climática. A estimativa, apresentada no Sumário Executivo aprovado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, também aponta a possibilidade de perda de 4,4 milhões de empregos em cenário de falta de ação. Os números são alertas de um documento que consolida a estratégia nacional para cumprimento da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) apresentada ao Acordo de Paris e reafirma a meta de emissões líquidas zero até 2050. No entanto, ao detalhar a trajetória até 2035, mantém uma ambiguidade: a meta brasileira varia entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente, uma diferença que implica níveis distintos de ambição e políticas públicas. Análise Para a professora e especialista em Mudanças climáticas, Marcela Lima, da Universidade Federal do Pará (UFPA), o Plano Clima cumpre um papel estruturante ao transformar compromisso internacional em estratégia local executável. “O Plano Clima é útil para o cumprimento das NDCs porque ele funciona como a ponte entre o compromisso internacional e a entrega concreta dentro do país. A NDC diz onde o Brasil quer chegar em termos de emissões e o Plano Clima organiza como chegar lá, ao traduzir a meta nacional em uma trajetória com prazos, critérios e forma de acompanhamento”, relaciona Marcela Lima. Segundo ela, a principal força do documento está em tornar a meta rastreável por setor. “Ele tira a meta do nível agregado e torna a execução mais rastreável, ao desdobrar a ambição em planos e metas por setor, atribuindo responsabilidades e criando base para cobrança e correção de rota”. Tensão A indefinição sobre qual das duas trajetórias será perseguida tem sido alvo de críticas. Para o Observatório do Clima, o Sumário Executivo mantém o país “em cima do muro” ao não indicar de forma explícita se perseguirá o cenário mais ambicioso. A questão é sensível no setor de energia, onde o documento menciona substituição progressiva de combustíveis fósseis, mas não crava o fim da exploração, sequer estabelece datas. Uso da terra O Plano mantém dois planos específicos para mudança do uso da terra — áreas públicas e áreas privadas — reforçando que o cumprimento da meta climática brasileira continua condicionado à redução do desmatamento. A divisão entre áreas públicas e propriedades privadas, com metas distintas de redução do desmatamento, foi alvo de críticas de organizações da sociedade civil, que apontam diferença no grau de ambição entre os dois segmentos. Organizações como o Observatório do Clima avaliam que a separação entre áreas públicas e privadas reflete tensões sobre o papel do setor agropecuário nas emissões nacionais. Justiça climática e adaptação O eixo de adaptação ocupa posição na estratégia. Para o analista da Impacta Finanças Sustentáveis, Lucas Formigoni, isso representa um avanço. “O plano não trata a justiça climática apenas como um tema acessório, mas como um princípio orientador e uma estratégia transversal que perpassa todos os seus eixos”. Segundo ele, o foco em vulnerabilidade — considerando ameaça, exposição e capacidade de resposta — permite direcionar políticas a populações mais impactadas. Já Marcela Lima reforça que a justiça climática dependerá da implementação. “A justiça climática também depende de implementação com participação social efetiva, transparência e coordenação entre níveis de governo”. Lacuna Embora projete perdas trilionárias em caso de falta de ação, o Sumário Executivo não detalha quanto custará implementar o plano nem as fontes de financiamento. É o mesmo problema de reuniões multilaterais de meio ambiente: projeta-se o volume de gastos para mitigação das mudanças climáticas, mas a origem dos recursos é tratada de forma negligente. O Ministério do Meio Ambiente foi procurado para esclarecer estimativas de investimento e instrumentos financeiros previstos, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. Para o CEO da Impacta Finanças, Felipe Vignoli, atrair capital será determinante. “O básico é entender que precisamos de mecanismos para facilitar a entrada do capital e instrumentos de proteção cambial. O primordial é garantir ao recurso internacional segurança e previsibilidade”, pontua Vignoli. Segundo ele, o Brasil enfrenta dois desafios: não ser percebido como país de baixa renda prioritário para recursos concessionais e, ao mesmo tempo, possuir mercado doméstico ainda imaturo. “É necessário preparar projetos, educar investidores sobre os reais riscos de iniciativas socioambientais e trabalhar a bancabilidade. Mesmo o acesso a capital filantrópico precisa evoluir”, opinou. Visão empresarial Do lado empresarial, João Leal, gestor de política climática do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), avalia que o Plano representa avanço institucional. “O lançamento do Sumário Executivo representa um avanço importante ao estabelecer metas setorizadas”. Ele destaca que o setor privado já vem estruturando capacidade de resposta. “As emissões de títulos sustentáveis no mercado internacional saltaram de US$ 2,06 bilhões em 2022 para US$ 6,55 bilhões em 2024”, argumenta Leal. Para Leal, ambição climática representa oportunidade estratégica. “Ambição climática não representa risco — representa oportunidade de reposicionamento estratégico do Brasil como fornecedor global de soluções de baixo carbono”. Previsibilidade Ainda assim, especialistas apontam que o grau de detalhamento é decisivo em documentos como o Plano Clima. Nesse aspecto, portanto, há questões a serem reajustadas. Formigoni alerta. “Quanto menos objetivo o documento, maior o espaço de manobra para interpretações divergentes. Ainda existem lacunas de implementação e regulação que mantêm riscos de descontinuidade com possíveis trocas de governo”, ressalta Lucas Formigoni. A consolidação do Plano em bases legais pode ser determinante para garantir estabilidade de longo prazo – independente de governo, cujo ciclo no Brasil é passível de mudança a cada quatro anos. Mais Lidas

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