Obsessão de Hollywood por tratamentos estéticos de ponta está prejudicando as atuações?
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June 9, 2026
A capacidade de transmitir emoções apenas com um olhar ou uma expressão facial sempre foi uma das ferramentas mais valiosas dos atores. Mas, em uma indústria cada vez mais obsessiva por padrões estéticos rígidos, cresce o questionamento: a busca pela aparência perfeita está acabando com a arte? O debate ganhou força nos últimos anos à medida que estrelas de Hollywood passaram a recorrer com mais frequência a preenchimentos faciais e outras intervenções estéticas, que, em alguns casos, podem limitar a movimentação natural do rosto e prejudicar a atuação. Anne Hathaway, em foto no Met Gala 2026: atriz já foi criticada por possíveis procedimentos estéticos Gilbert Carrasquillo/GC Images Nas redes sociais, não faltam observações do tipo: "Anne Hathaway não consegue mexera testa no filme Odisseia, de Christopher Nolan", ou "Ryan Gosling está com uma aparência jovem demais". Desde os primórdios de Hollywood, artistas recorrem a diferentes métodos para “melhorar” o seu visual. Dizem que Marlene Dietrich extraiu os molares para ter maçãs do rosto arqueadas, e que Greta Garbo se consultou secretamente com um cirurgião plástico para ganhar as feições de deusa. Mas especialistas apontam que o cenário atual é diferente. “Os filmes se tornaram menos intimistas em termos de enquadramento do rosto do ator”, observou o dermatologista David A. Colbert, dos Estados Unidos, ao The Guardian. “À medida que nos afastamos da cultura dos cinemas, das telas grandes para as telas pequenas, eu me pergunto a tolerância [ao uso de tratamentos estéticos] está aumentando ou diminuindo.” Para o cirurgião plástico Anthony Brissett, presidente da Academia Americana de Cirurgia Plástica Facial e Reconstrutiva, as modernas câmeras de alta definição têm elevado a busca por procedimentos. "Há coisas que atores e atrizes compartilham comigo e que não entendo ao vê-los na minha frente. Aí os assisto na televisão e consigo ver todos os pequenos defeitos dos quais eles se queixam. Eles estão sob um alto nível de escrutínio e não conseguem evitar esse desejo de manter a beleza eterna", salientou ao Guardian. Jennifer Lawrence no Globo de Ouro de 2026: procedimentos sim, mas "não na testa" Gilbert Flores/2026GG/Penske Media via Getty Images No caso das mulheres, essa pressão se soma a uma transformação importante: diferentemente do que ocorria décadas atrás, atrizes hoje conseguem protagonizar produções de grande orçamento após os 40 anos. Mas a permanência nos holofotes frequentemente vem acompanhada da expectativa por uma aparência quase inalterada pelo tempo. "Hoje e no futuro, é de se esperar que atrizes entre 30 e 60 anos não consigam mais mexer a testa", diz Colbert. Apesar disso, alguns artistas têm evitado mexer no rosto para não prejudicar a atuação. Caso de Kate Hudson: a atriz revelou que interrompeu aplicações de Botox durante as filmagens do filme Song Sung Blue, pois a história se passa na década de 1980. Jennifer Lawrence contou à revista The New Yorker que faz preenchimento, mas se recusa a mexer na testa, pois fica mais visível nas câmeras. “Cirurgias plásticas visíveis são um fator decisivo para que eu elimine um candidato em praticamente todos os projetos em que trabalhei”, disse uma diretora de elenco de Los Angeles ao Guardian. “As emissoras detestam cirurgia plástica, a menos que seja em alguém já famoso; aí, magicamente, elas não percebem. Quanto mais famoso você for, mais poderá mexer no seu rosto antes que isso comece a prejudicar suas chances de conseguir um papel em um filme.” Ainda assim, ela afirmou que cirurgia plástica ou preenchimento nunca são abordados diretamente nos processos de seleção de elenco em que esteve envolvida. "É algo completamente implícito", enfatizou. O preparador de atores Zak Barnett acredita que a inteligência artificial poderá mudar o jogo. "O desejo de perfeição será substituído por projetos e atores de IA. Acho que o que o público vai querer ver cada vez a verdade, que são as imperfeições. Se voltarmos a histórias centradas nos personagens, não vamos querer nada que obstrua essa autenticidade", avaliou. Mas Jessica Goldstein, jornalista que cobre a estética e a cultura de Hollywood, tem outra opinião: "Os padrões de beleza no capitalismo exigem que sempre haja algo novo para comprar. Pode haver uma mudança superficial. Mas isso não significa que as pessoas deixarão de pagar por procedimentos estéticos. Significa apenas que a natureza desses procedimentos mudará", completou. Mais Lidas
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