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Steven Pinker: "Ainda não dá para prever como os seres humanos vão usar a inteligência artificial no futuro"

Home | Época Negócios [Unofficial] May 15, 2026
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O psicólogo e linguista canadense Steven Pinker participou de um painel da São Paulo Innovation Week nesta sexta-feira (15/5) junto com o físico brasileiro Marcelo Gleiser. Autor de obras como Iluminismo Agora e Racionalidade, Pinker usou dados históricos para argumentar que, apesar da atual "recessão democrática" global e das incertezas trazidas pela inteligência artificial, a condição humana melhorou de forma mensurável ao longo dos séculos. "Se medirmos o bem-estar humano ao longo da história — quanto tempo as pessoas viviam, quantas crianças sobreviviam ao parto, quantas pessoas passavam fome, quantas sabiam ler e escrever —, tudo isso mostra que hoje estamos muito melhores do que estávamos décadas ou séculos atrás", afirmou Pinker. O pesquisador negou um otimismo exagerado do qual seus críticos o acusam. "Não é esperança, não é otimismo e muito menos enxergar os problemas por um viés positivo", argumentou. Segundo Pinker, o progresso é resultado da aplicação da racionalidade humana ao sofrimento e à violência, e não um processo automático. "Isso só vai acontecer se utilizarmos nossa racionalidade para buscar uma melhoria." Democracia em recuo No contexto da geopolítica global, Pinker reconheceu a "recessão democrática" dos últimos dez a quinze anos, citando Estados Unidos, Índia, Hungria, Rússia e China como exemplos de retrocesso. Mas colocou o fenômeno em perspectiva histórica: "A democracia está um pouco pior agora do que em 2011. No entanto, é melhor do que na década de 70 ou 80." Sobre a China especificamente, disse que o país "nunca foi uma democracia", mas que é "muito menos repressivo do que na época de Mao [Tsé-Tung]", período em que milhões morreram na Revolução Cultural — ainda que tenha se tornado mais autoritário na última década. Para o psicólogo, os ideais iluministas que defende e as instituições democráticas são "um tanto não naturais". "As pessoas não apreciam de fato as vantagens da democracia, da lei e da ciência. Nós acabamos voltando para a visão de que é necessário um líder, o autoritarismo, o tribalismo", afirmou o escritor. A resposta, segundo ele, é a persistência nesses mesmos ideais: "O Iluminismo é um projeto sempre em construção. Do contrário, ele regride." Conhecimento comum Pinker falou sobre o conceito de conhecimento comum (common knowledge), tema do seu livro mais recente. Ele diferencia o conhecimento privado — aquilo que apenas uma pessoa sabe — do conhecimento comum, em que "eu sei algo que você sabe, você sabe que eu sei, eu sei que você sabe que eu sei e assim por diante". Esse mecanismo, segundo Pinker, explica fenômenos aparentemente irracionais do comportamento de massas. "Durante a Covid, todo mundo correu ao supermercado para comprar papel higiênico. Por quê? Não porque havia escassez, mas porque todos pensaram: se todo mundo está comprando, eu também vou comprar. E isso, de fato, criou a escassez." Para Pinker, o mesmo vale para as crises financeiras que afetaram o sistema econômico global ao longo do último século: "As pessoas não retiram o dinheiro porque acham que o banco está em dificuldade, mas porque sabem que outras pessoas ouviram o boato e vão correr ao banco, e isso pode fazer o banco realmente falir." Segundo ele, foi o que aconteceu na Grande Depressão dos anos 1930 e na crise de 2008. Previsões para a IA Ao ser questionado sobre inteligência artificial, Pinker adotou um tom cautelosamente positivo. Ele descartou os cenários mais sombrios, nos quais a IA escravizaria ou dominaria a humanidade, classificando-os como improváveis. "Isso não é nem um pouco capaz de acontecer", disse. Ao mesmo tempo, reconheceu que haverá disrupções e rotatividade no mercado de trabalho, mas ponderou que as previsões históricas de automação total nunca se concretizaram. "A inteligência artificial está se tornando uma ferramenta que ajuda a criar pequenos nichos, para ser utilizada por humanos de uma forma que talvez a gente ainda não consiga prever exatamente." Entre os impactos positivos que o psicólogo antecipa estão a eliminação de trabalhos perigosos, tediosos e repetitivos, além de avanços na gestão de energia, redução do custo de moradia e melhoria dos sistemas de saúde. "Se eu tivesse que apostar, diria que as vantagens vão superar as desvantagens", concluiu. *Com supervisão de Lia Hama Mais Lidas

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