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“A IA não tem valores e não está nem aí para nós”, diz neurocientista

Home | Época Negócios [Unofficial] May 14, 2026
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“O que eu vou falar se traduz em uma palavra: tempo.” Foi assim que a neurocientista Suzana Herculano-Houzel abriu sua palestra no festival São Paulo Innovation Week, onde discutiu temas como cérebro, inteligência, tecnologia e os impactos da inteligência artificial na sociedade contemporânea. Na avaliação da pesquisadora, o tempo é “o presente mais precioso” conquistado pela evolução humana – e também o recurso mais ameaçado pela hiperconectividade e pela automação excessiva. “Tempo é o presente mais precioso que ganhamos com a evolução humana. E o que a gente faz com ele é a decisão mais importante a cada momento das nossas vidas”, afirmou a neurocientista. “Isso é especialmente importante quando existem tantas tecnologias e quando o nosso mundo se tornou tão complexo e, ao mesmo tempo, quando é tão fácil a gente aceitar soluções simples, [deixando] algoritmos pensarem por nós, decidirem o que vamos assistir ou vestir.” Autora do livro A Vantagem Humana – Como Nosso Cérebro se Tornou Superpoderoso (Companhia das Letras), Herculano desenvolveu sua palestra a partir de uma explicação sobre o funcionamento do cérebro humano e o que diferencia a espécie humana dos demais animais. Segundo ela, a principal diferença não está no tamanho do cérebro, mas na quantidade de neurônios corticais. “O que eu descobri transformando os cérebros em sopa é que a diferença mais simples e gritante entre a nossa espécie e todas as outras é que temos o maior número de neurônios corticais”, disse. “É com os neurônios, com sua capacidade de processamento, exatamente como computadores. Não é o tamanho, mas o número de processadores dentro deles.” Ela comparou a evolução dos computadores, que ficaram menores e mais poderosos, ao cérebro humano. “Os primeiros computadores eram muito maiores do que os smartphones”, afirmou. Ao longo da apresentação, a pesquisadora argumentou que o córtex cerebral é o grande responsável pela flexibilidade cognitiva humana. Segundo ela, é essa estrutura que permite associar informações, reconhecer padrões, criar memórias e prever consequências futuras. “O resultado dessa associação é a flexibilidade. Não fazemos a mesma coisa duas vezes da mesma maneira”, afirmou. “O córtex cerebral se torna preditivo. Temos a capacidade de simular mentalmente as consequências das ações que podemos fazer. O comportamento sai do presente, não está mais preso ao presente. Tem passado e futuro.” Para a neurocientista, é justamente essa capacidade de adaptação e flexibilidade que define a inteligência humana. “O nome que eu dou para essa flexibilidade comportamental é inteligência. Inteligência é flexibilidade comportamental, capacidade de agir e fazer diferente.” Foi nesse contexto que Herculano fez uma das declarações mais fortes da palestra ao comparar a inteligência biológica à inteligência artificial. “A grande diferença entre a nossa inteligência biológica e o que está aí fora chamada de inteligência artificial é que a inteligência artificial não está nem aí para a gente. Ela não tem valores. A nossa permite que a gente aja em prol dos nossos valores”, afirmou. Segundo Herculano, a inteligência humana é “proativa”, enquanto a adaptação é “passiva”. “Resolver problemas é mais uma coisa que somos capazes de fazer com essa flexibilidade”, disse. A cientista também questionou explicações tradicionais sobre a evolução humana. Em vez de associar o aumento do cérebro exclusivamente à seleção natural, ela defendeu a ideia de que o desenvolvimento tecnológico teve papel central nesse processo. “Nossos ancestrais puderam [desenvolver cérebros maiores] graças às tecnologias desenvolvidas para modificar e melhorar a vida, como a pedra e o fogo”, afirmou. “Essas ferramentas trouxeram um aumento enorme de oportunidade energética para os nossos ancestrais.” Na visão da pesquisadora, a evolução humana está diretamente ligada à criação de tecnologias capazes de gerar mais tempo livre, aprendizado e construção de conhecimento. “Tecnologia é qualquer objeto, processo ou método cuja aplicação ajuda a resolver um problema com mais velocidade e permite abordar novos problemas, gerando tempo livre para aprender.” Ela também relacionou o desenvolvimento do cérebro humano ao prolongamento da infância e do tempo de vida. “Conforme [a espécie] ganha mais neurônios, mais tempo ela é criança, mais tempo leva para atingir a maturidade sexual e mais tempo vive”, afirmou. “Ganhamos tempo protegido de infância, outros que cuidam da gente para podermos explorar, querer e aprender.” Uso excessivo de telas Ao defender a educação como elemento essencial para a preservação do conhecimento humano, Herculano criticou o uso passivo da tecnologia e fez ataques ao consumo excessivo de telas e à dependência de ferramentas de IA generativa. “O ChatGPT, aquele maldito que te cospe informações, não acrescenta nada, não cria nada, não constrói conhecimento”, afirmou. “A gente constrói conhecimento quando constrói habilidades.” Segundo a pesquisadora, plataformas digitais disputam diretamente a atenção humana e sequestram oportunidades de aprendizado e desenvolvimento cognitivo. “O que a gente ganha rolando tela? Absolutamente nada. E os donos da plataforma, tudo”, disse. Ela defendeu que a tecnologia deve ser usada como ferramenta e não como “ralo do tempo”. E também afirmou que delegar excessivamente tarefas cognitivas para automações pode reduzir capacidades humanas ao longo do tempo. “Terceirizar a inteligência delegando tarefas à automação e à IA torna você menos inteligente ao roubar sua flexibilidade e suas oportunidades de construir conhecimento, habilidades, crescer e agir com mais inteligência”, afirmou. Siga a Epoca Negócios:

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