Mesmo quem ocupa cargo alto está ameaçado pela IA, diz Michel Alcoforado
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May 8, 2026
Se as máquinas estão por toda parte, tomando os empregos das pessoas e executando suas funções de forma mais rápida e eficaz, os seres humanos vão ter que exercitar sua capacidade reflexiva para encontrar saídas e garantir seu futuro. A avaliação é do antropólogo do consumo e consultor em cultura, comportamento e estratégia de negócios Michel Alcoforado. “Vamos ter que apostar naquilo que a gente tem de único, que é a nossa humanidade”, afirmou o escritor e palestrante em entrevista à Época NEGÓCIOS. “Então, quando a máquina copiar aquilo que estamos fazendo, vamos ter que inventar outra coisa. Quando a máquina copiar de novo, a gente inventa outra, até o último suspiro”, acrescentou. Alcoforado foi palestrante do festival de inovação Gramado Summit, que termina nesta sexta-feira (8) nos pavilhões do Serra Park, na cidade gaúcha. Após subir ao palco com a apresentação “A economia da atenção pelas lentes antropológicas”, o escritor autografou seu best-seller “Coisa de Rico” (Todavia) e conversou com a reportagem. Leia a seguir. Época NEGÓCIOS - Como você enxerga o impacto da inteligência artificial no comportamento das pessoas? O que mudou na forma de elas trabalharem, se expressarem e consumirem? Michel Alcoforado - Eu brinco que, quando as máquinas estão entrando para tudo quanto é lado e a gente está tendo que se valer delas, porque não tem como lutar contra elas, só vai sobrar para a gente uma coisa, que é virar mais humano ainda. Qual é o atributo mais importante que nós, humanos, temos? É pensar sobre o pensar. O que a máquina faz? Ela articula pecinhas que a humanidade já articulou de uma forma muito mais rápida e muito mais eficaz do que eu e você seríamos capazes de fazer. O que vai sobrar para a gente diante desse cenário é pensar sobre o pensar e recuperar de uma forma completa e direta aquilo que nós temos de único, que é a nossa humanidade. Então, gente que é acostumada só com aquilo que é padrão vai perder o emprego, gente que fica na média vai perder o emprego, gente que acha que o próprio trabalho é só cumprir ordem de alguém, vai perder o emprego, porque tudo que é padrão as máquinas vão conseguir dar conta de entregar com uma velocidade e um custo menor do que a gente. O que vai sobrar para os seres humanos? Correr das máquinas. E correr como? Correr com corpo? Não, é correr com a cabeça. Então, quando a máquina copiar aquilo que estamos fazendo, vamos ter que inventar outra coisa. Quando a máquina copiar de novo, a gente inventa outra. E assim a gente vai aguentando até o último suspiro. O que você observa como antropólogo: existe mais medo ou mais entusiasmo em relação à inteligência artificial? Medo — e os dados têm mostrado isso. Fui dar um curso na Croácia e falei disso numa palestra. Uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial apontou que, a cada ano que passa, as pessoas vão desenvolvendo mais medo. E isso é um desafio enorme para os gestores, né? Porque, ao mesmo tempo que os executivos estão pressionados com a necessidade de introduzir novas inteligências artificiais no seu negócio, eles enfrentam uma resistência gigantesca de todo mundo. É uma resistência legítima porque as pessoas sabem que boa parte dos seus skills está em risco, elas sabem que o lugar delas está em risco. E não porque elas leram no relatório do Fórum Econômico Mundial, mas porque elas viram que o porteiro, a recepcionista do prédio, já não existem mais. Porque todo mundo recebe um QR Code e você entra no prédio agora com autorização. Elas perceberam que essas câmeras na cidade estão tirando os seguranças das portas dos edifícios, que o cargo de porteiro está sendo questionado e que os estagiários, que elas antes precisavam, agora elas já não têm mais tanta paciência com eles, porque elas se valem do Claude e do ChatGPT como os novos estagiários delas. Então as pessoas estão com medo, mas acho que a gente não tem que ter medo, não. Mesmo aqueles que ocupam funções com salários mais altos também estão ameaçados de perder o emprego, certo? É a primeira vez na história da humanidade que gente que é paga para pensar também está em risco. Até então, era só quem era pago para apertar botão. Estamos atingindo os trabalhos mais bem pagos do mercado. Então, dá para ter medo mesmo. Porque te prometeram que, se você estudasse, falasse outra língua, escrevesse português e falasse direitinho, você ia conseguir um emprego bem pago. Agora não é mais assim. E eu acho que tem um outro ponto que dá medo: pela primeira vez não temos para onde ir. Porque, quando você olha ao longo da história da humanidade, da primeira Revolução Industrial até agora, quando houve a industrialização ou a mecanização do campo, os trabalhadores migraram para a indústria. Quando houve a mecanização da indústria, os trabalhadores migraram para o setor de serviços. Mecanizando o setor de serviços, a gente vai fazer o quê? Fugir das máquinas. E como a gente foge das máquinas? Sendo humano. Como os líderes devem se posicionar diante desse cenário para criar engajamento nas equipes? Porque eles também estão inseguros. É uma insegurança legítima, mas muito menor do que a de quem está começando a carreira agora. Porque nós entramos na faculdade tendo mais ou menos uma ideia do que viraríamos. Eu dou aula na ESPM, na graduação. Acho injusto com esses meninos que estão entrando lá, porque eles não fazem a menor ideia do que aquele curso vai dar de futuro. Então, o que é o ponto fundamental de qualquer liderança em 2026? Primeiro ponto é que, em um mundo onde cada vez mais a gente está olhando para o próprio umbigo, acho que cabe à liderança construir um colchão comum, por onde esse time anda. O que eu diria que é esse colchão comum? Cultura. Vamos voltar para aquela coisa do RH. O RH vai ficar rico de novo, sabe? O RH vai disputar com o CFO quem é mais chique dentro da firma. A liderança vai ter que pensar: como é que a gente vai inventar ritual, valor que me permita, apesar das nossas diferenças, a gente se entender. Eu acho que essa é uma premissa grande. Agora, tem o segundo ponto que, para mim, é o mais fundamental para a liderança: a gente precisa inventar futuro. A vida só faz sentido se você inventar futuro. Eu só estou aqui porque eu estou achando que, depois de amanhã, isso aqui vai dar alguma coisa, né? E você também. Pode ser o próximo salário que cai na conta ou pode ser a carreira da gente como um todo. A gente inventa futuro para fazer o nosso presente ter sentido. O líder vai ter que inventar futuro, porque os grandes futuros que nós tínhamos inventado ruíram. Eles já não fazem mais sentido. *A jornalista viajou a convite do evento Mais Lidas
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