Ele transformou a insônia em uma startup que ajuda brasileiros a acessar cannabis medicinal legalmente
Home | Época Negócios [Unofficial]
May 8, 2026
Toninho Correa passou boa parte da carreira ajudando grandes empresas a resolver problemas complexos de negócio. Publicitário e executivo de comunicação, ele construiu uma trajetória cruzando criatividade, tecnologia e estratégia, combinação que o levou a ganhar prêmios em festivais como Cannes e One Show, além de participar da construção de campanhas e plataformas para marcas como Casas Bahia e TIM. Mas foi um problema pessoal, e não uma demanda corporativa, que deu origem ao negócio mais improvável de sua trajetória. Depois de anos trabalhando em ritmo intenso, virando noites e acumulando jornadas exaustivas, Toninho começou a enfrentar problemas graves de saúde relacionados à falta de sono. “Tive uma espécie de derrame ocular por estresse”, conta. Medicado durante anos para dormir, ele diz que passou a se incomodar com a sensação de acordar “dopado”. Foi então que conheceu a cannabis medicinal. A experiência, porém, esteve longe de ser simples. De um lado, um preconceito pessoal. “Não uso recreativamente, sequer bebo”, diz. Do outro, uma jornada de compra extremamente fragmentada, burocrática e pouco tecnológica. Entre o momento em que decidiu buscar o tratamento e a conclusão da compra, passaram-se quase 30 dias, sem contar o prazo de entrega. Foi dessa frustração que nasceu a Blis. Criada com os sócios Marcela Machado, Rafael Reisman e Rosângela Peres, a startup se posiciona como uma infraestrutura tecnológica que organiza a jornada regulatória da cannabis medicinal no Brasil. A empresa não realiza consultas, não vende produtos e não faz importação. Seu papel é conectar as diferentes etapas do processo em um único ambiente digital, dentro das regras da Anvisa. “O acesso era extremamente pulverizado. Então criamos uma jornada integrada, com tecnologia própria, para reduzir a fricção”, diz. Segundo Toninho, a startup conseguiu encurtar em até 180 vezes o tempo necessário para iniciar o tratamento em comparação ao modelo tradicional. Hoje, o paciente baixa o aplicativo, responde a uma anamnese com cerca de 30 perguntas, é conectado a médicos parceiros e, em caso de prescrição, segue dentro da própria plataforma para as etapas regulatórias e de compra. Comprar cannabis medicinal no Brasil, segundo a Anvisa, exige receita médica e ocorre por três vias principais: farmácias (com produtos aprovados), importação autorizada (RDC 660/2022) ou associações de pacientes. O processo exige laudo médico, cadastro no site do governo e, para importação, autorização prévia da Anvisa. A startup afirma operar em mais de 2,2 mil cidades brasileiras e diz ter alcançado mais de 1 milhão de downloads em pouco mais de dois anos. Segundo a empresa, cerca de 80% dos usuários estão fora das grandes capitais. A Blis também afirma ser o único aplicativo do mundo aprovado oficialmente por Apple e Google para operar um modelo “one-stop shop” ligado à cannabis medicinal. “Foram nove audiências com a Apple até conseguirmos a aprovação”, lembra o fundador. A origem da companhia acabou se tornando parte da cultura do negócio. “Foi a coragem do ignorante”, brinca Toninho. “Eu nem sabia que não podia fazer um aplicativo desse tipo. Comecei a investir e, quando a primeira versão ficou pronta, descobri o tamanho do desafio regulatório.” Apesar do crescimento acelerado, a Blis opera com uma estrutura enxuta: são cerca de 30 pessoas no time. A startup atingiu breakeven em apenas seis meses, segundo o fundador, e projeta faturar R$ 70 milhões até o fim deste ano. “Temos uma mentalidade muito pautada por inteligência artificial. O time não tende a crescer demais porque usamos tecnologia para ganhar eficiência”, afirma. Os dados coletados pela plataforma também abriram uma nova frente para a empresa. Com dezenas de milhares de anamneses registradas – todas anonimizadas, segundo a startup – a Blis começou a construir relatórios sobre saúde mental, ansiedade, insônia e bem-estar. “Temos talvez um dos maiores bancos de dados de saúde mental e bem-estar desse mercado no Brasil”, diz Toninho. A ambição, segundo ele, é colaborar futuramente com universidades e instituições públicas em pesquisas relacionadas ao tema. Hoje, a startup diz receber sondagens frequentes de investidores e fundos interessados no mercado de cannabis medicinal, mas afirma que ainda não pretende abrir rodada. “A empresa é rentável, temos caixa e queremos crescer com os nossos pés”, afirma. A expectativa é ultrapassar R$ 100 milhões de receita anual até o fim de 2027. Toninho acredita que parte do crescimento da Blis veio justamente da mudança no perfil do paciente brasileiro. Se antes o mercado era mais associado a doenças graves e neurológicas, hoje, segundo a empresa, as maiores demandas estão ligadas a bem-estar, ansiedade, estresse e insônia – exatamente o problema que originou a startup. “A Blis nasceu quase como uma loucura”, diz. “Mas acabou desbloqueando um mercado inteiro de pessoas que antes nem sabiam que poderiam acessar esse tipo de tratamento.” Mais Lidas Banner da série Inovadores Clayton Rodrigues
Discussion in the ATmosphere