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Carolina Ignarra: o futuro do trabalho passa pela inclusão de pessoas com deficiência

Home | Época Negócios [Unofficial] May 8, 2026
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Carolina Ignarra aprendeu cedo a perceber potência onde muita gente percebe limitação. Fundadora e CEO da Talento Incluir, consultoria que já conectou mais de 10 mil profissionais com deficiência ao mercado de trabalho em mais de 700 empresas, ela transformou a própria trajetória em uma agenda de impacto corporativo. “Quanto mais problema a empresa que me procura tem, mais eu fico apaixonada por fazer o trabalho”, diz a executiva, que defende uma visão de inclusão baseada não apenas em contratação, mas em pertencimento, desenvolvimento e transformação cultural. Em um momento em que parte do mercado desacelerou iniciativas de diversidade, Ignarra afirma que a pauta da inclusão de pessoas com deficiência ganhou força nas empresas brasileiras — impulsionada, em parte, pela legislação. Mas, para ela, ainda há um erro estrutural na forma como as companhias lideram o tema. “A contratação é só um pedacinho da inclusão”, afirma. Na entrevista, a executiva também fala sobre liderança, empreendedorismo, os aprendizados de sair da operação para assumir um papel mais estratégico e os desafios de ser mulher e pessoa com deficiência no ambiente corporativo brasileiro. O mundo corporativo conhece a Carolina Ignarra, CEO e Fundadora da Talento Incluir, mas estas credenciais não falam tudo sobre você (e nem devem). O que você gostaria que todos soubessem sobre você? Quem é a Carolina? bSou uma pessoa justa, equilibrada, ativista e otimista. Sou libriana, signo da justiça, e como tal, prezo por querer tudo bem eboasquilibrado. Ao mesmo tempo que eu sou contestadora, eu também curto estar em ambientes, em relações que são saudáveis. Prezo muito para o relacionamento sempre estar bom para todo mundo, não dá para ficar bom só para mim. É o jeito que eu educo minha filha: tem que estar bom para mim, para ela, para as amigas dela, para os desafios dela. Também é o jeito que eu trato as pessoas que trabalham diretamente comigo. Só é boa a relação quando é boa para todo mundo. E é assim também que eu trato as minhas causas profissionais. A questão da pessoa com deficiência. Sempre de um jeito muito justo. Muito equilibrado. Sem deixar bom para um lado só. E a forma que eu faço o negócio. Se o negócio não estiver justo para todo mundo, então não deve acontecer. Neste momento da sua vida, o que você sabe com certeza? Eu sei com certeza que toda história tem dois lados. Toda história tem algumas dimensões de verdades. Eu acho que, quanto mais a gente conhece as histórias e as informações e todos os lados, mais certa a gente fica nas nossas opiniões. O que a gente faz tem mais responsabilidade com o todo. Para mim, essa é a verdade da qual eu não tenho nenhuma dúvida. Todos os desafios que eu tenho, quando a gente se dispõe de verdade a ouvir o outro lado, a gente fala: “poxa, você também tem razão. Eu tenho razão, mas ela também tem razão”. Inclusive, esse é um comportamento que não tive sempre. Foi um comportamento que eu aprendi com o passar do tempo; pelo tema em que a gente trabalha, precisamos nos desenvolver nesse aspecto. Como a sua experiência como pessoa com deficiência influenciou — de forma concreta — suas decisões estratégicas e seu estilo de liderança dentro das organizações em que atuou? Primeiro, a deficiência chega na minha vida para mostrar mais possibilidades no que parece errado, torto e imperfeito. Então, eu percebo que, quanto mais desajeitado estiver, quanto mais desencaixado estiver, e de uma forma bem direta em relação ao trabalho, quanto mais problema a empresa que me procura tem, mais eu fico apaixonada por fazer o trabalho. Se ela estivesse perfeita, ela não precisava de mim. Então eu acho que a deficiência traz isso para mim, traz um conforto com o imperfeito e uma forma de enxergar o imperfeito como o “caldo”. O que eu posso tirar de bom dessa história toda? O que eu posso aprender com essa história toda? E o que essa parte que parece tão torta, tão estranha, pode trazer de benefícios para aquilo que é tão linear. A gente discursa isso, e a partir do discurso, trazer para a prática, trazer para a minha prática é inegociável. O que pode nos falar sobre o trabalho da Talento Incluir e como contribuiu com a atuação das empresas? A Talento Incluir surge a partir da minha história. Então, como CNPJ, a gente existe há 18 anos. Mas eu venho trabalhando como uma voz há muito tempo a partir de uma palestra que era a minha história de volta ao trabalho. Eu adquiri a deficiência, voltei a trabalhar muito rápido. E, passados esses 18 anos, temos alguns pilares importantes. O pilar de Cultura, que engloba conscientização, letramento, palestras, workshops, também material de comunicação. O pilar de Empregabilidade que contempla o onboarding, a gente chama de ambientação, que é uma boas-vindas da pessoa contratada na equipe. E Avaliação Social que é um complemento a avaliação que vem do médico. Feita por uma equipe multidisciplinar que entrega para a liderança que recebeu um laudo, um relatório adicional sobre aquela pessoa, trazendo mais informações sobre a deficiência e sobre possíveis comportamentos percebidos naquela pessoa como herança de um capacitismo estrutural. E o pilar de Acessibilidade. Ajudamos as empresas a mapear as barreiras de infraestrutura, comunicação, metodologia. E o Pilar de carreira que contempla o acompanhamento das contratações. Em 18 anos, incluímos mais de 10 mil pessoas com deficiência, em mais de 700 grandes empresas. Além da Talento Incluir, você é executiva da Talento Sênior. O que pode nos dizer sobre essa atuação? A Talento Sênior é uma consultoria que tem como foco a empregabilidade das pessoas com mais de 45 anos. Na verdade, não é emprego, é trabalhabilidade. É um ressignificar do trabalho para pessoas que ainda querem trabalhar, ainda precisam trabalhar com longevidade. A essência do nosso negócio é pegar executivos, executivas, lideranças, média liderança de grandes e médias empresas para oferecer ou part-time, ou projetos para pequenas e médias. Então, além de a gente não deixar pessoas que tiveram carreiras de sucesso sem caminhos, a gente também pega expertise dessas pessoas num valor acessível para alavancar pequenos e médios negócios, que são os maiores empregadores desse país. Com base na sua vivência e na sua expertise, o que pode nos dizer sobre o cenário empresarial para profissionais com deficiência no Brasil de 2026? Vejo um mercado promissor para nós, percebo. Primeiro, quando no ano passado o movimento de desaceleração da diversidade veio com força para o Brasil a Lei de Cotas segurou esta frente de atuação. Temos uma pauta baseada em lei e todo aquele orçamento que as empresas tinham para todas as pautas, eles direcionaram para pessoas com deficiência. Eu tive vários clientes me falando eu vou contratar vocês porque eu preciso, eu tenho esse dinheiro, eu não quero perder esse dinheiro e eu tenho uma pauta que é lei e que vai me ajudar a convencer de que eu tenho que usar. Então a gente conseguiu, por um triste motivo, mas como negócio é um motivo que é uma consequência que não nos atingiu diretamente como atingiu os outros marcadores. Posso dizer que está bom, que tem procura, porque os leads que chegam, é um volume que está normal, não tem nada de diferente. Mas as empresas que são nossas clientes mesmo são aquelas mais avançadas há muito tempo, que já tem uma perspectiva mais sustentável nas suas políticas e na sua cultura de inclusão. Quais oportunidades as empresas estão perdendo ao deixar de incluir profissionais com deficiência? As empresas, de forma geral, acham que investem, porque, como elas precisam contratar por causa da cota, elas já têm lá um investimento direcionado para pessoas com deficiência e elas entendem que é um investimento. Muitas vezes eu entendo que esse dinheiro que elas direcionam é custo, não é investimento, porque elas fazem muito mal esse investimento, então ele vira custo. Se a gente não acompanha a carreira da pessoa com deficiência, ela se perde muito antes do que a carreira comum. Quando você emprega bem, a gente, enquanto comunidade, vai espalhando essa fama de bom empregador, e cada ano que passa a empresa tem menos custos na hora de atração, na forma de atrair. Depois, vai trazer a pessoa com deficiência incluída e não apenas contratada. A gente só traz inovação para o negócio se a gente puder fazer parte, se a gente tiver o senso de pertencimento. Então, o que as empresas ainda não perceberam é isso. Depois que eu contrato, os desafios estão só começando. O desafio de contratar é o único percebido pelas empresas. Mas a contratação é só um pedacinho da inclusão. Então, a gente precisa acompanhar e tratar o desenvolvimento dos acompanhamentos de um jeito mais singular do que coletivo. Você traz em si uma interseccionalidade importante: ser mulher e pessoa com deficiência. O que pode nos dizer sobre isso? A gente tem esse desafio da interseccionalidade, que eu acho que vale sempre ressaltar quando eu conto a minha história. Eu sou uma pessoa com deficiência, mas sou uma mulher antes disso, inclusive. A deficiência veio depois, o gênero sempre veio comigo. E a questão de ser mulher numa sociedade tão violenta com a gente, eu acho que torna ainda mais importante a minha história, a que eu tenho entregado para o mundo, que eu estou deixando de legado para as próximas gerações. Qual é a lição que levou mais tempo para você aprender na vida? Para empreender, foi muito difícil eu entender que eu não precisava estar na operação. Foi muito difícil entender que eu não estava sendo estratégica. E aquilo me doía quando eu escutava. Eu passei 11 anos só na operação. Faz uns três anos que eu consigo ver a empresa de fora. De lá para cá a gente só tem crescido em todos os últimos anos, todos os anos a gente tem crescimento, mesmo em anos difíceis a gente teve 12% de crescimento, mas teve. Então, a gente está com muita evolução a partir do momento que eu saí da operação, que eu comecei a olhar de cima. Então, esse foi o meu maior aprendizado como empreendedora. O que é sucesso para você? Eu me entendo uma pessoa de sucesso a partir do momento que eu comecei a gostar dos meus resultados em algumas partes da minha vida; todas é muita coisa. Por exemplo, eu amo o meu resultado profissional, eu amo o meu resultado familiar, eu amo o resultado que eu tenho social, a qualidade das amizades que eu tenho, da rede de apoio que eu tenho. Eu ainda não amo meus resultados físicos, por exemplo, de saúde. Eu negligencio muito a minha alimentação, negligencio muito a atividade física, nunca é prioridade para mim. Então, eu percebo que esse sucesso, primeiro, ele não é completo, sempre vai ter lugares que a gente desequilibra, e eu me entendo com muito sucesso na hora que eu curto a jornada. Eu falo: “cara, que delícia que é ser essa mãe que eu sou, eu amo essa mãe que eu sou, eu amo essa esposa que eu sou, eu amo essa executiva que eu sou”. E quando eu passo a me valorizar, a consequência é que o mercado valorize também, o marido valorize também. Então, eu acho que sucesso para mim é isso, assim, eu ficar bem com as escolhas que eu fiz e com os frutos que eu estou colhendo nas escolhas que eu fiz. Mais Lidas

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