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  "textContent": "\nHá quatro décadas, Douglas Rushkoff se dedica a entender como a tecnologia molda e distorce nossas formas de viver. Autor de obras centrais para a cultura digital, como Team Human (“Do lado dos humanos”, em tradução livre), Throwing Rocks at the Google Bus (“Jogando pedras no ônibus do Google”) e Survival of the Richest (“Sobrevivência dos mais ricos”), todos inéditos no Brasil, o pesquisador foi um dos primeiros a descreverem o potencial libertário das comunidades online nos anos 1990, antes de se tornar um dos mais contundentes críticos da lógica de crescimento infinito do Vale do Silício. Professor de teoria da mídia na City University of New York e apresentador do podcast Team Human, Rushkoff atravessa temas que vão do imaginário cyberpunk às promessas de transcendência da elite tecnológica. Ao revisitar sua trajetória e suas conversas com CEOs obcecados por cenários apocalípticos, Rushkoff argumenta que o desafio não é prever o que virá, mas enfrentar os efeitos de um sistema que já opera no limite e que continua, ainda assim, acelerando. Na conversa com Época NEGÓCIOS, ele descreve ainda como executivos bilionários investem em bunkers, modelos preditivos e projetos escapistas enquanto sociedades reais lidam com colapsos ambientais, desigualdade e erosão institucional. ÉPOCA NEGÓCIOS Você critica a atitude dos donos das big techs, que não hesitam em esgotar todos os recursos para encontrar a solução tecnológica ideal, que neste momento é a superinteligência. Esse “aceleracionismo” é o novo dogma? Douglas Rushkoff Exatamente. Essa fé nas soluções tecnológicas é quase religiosa. Mas, se formos honestos, veremos que a civilização está exaurida. As estruturas que criamos – para a política, o mercado financeiro, o consumo de energia – se tornaram inviáveis, e nenhuma tecnologia vai resolver isso. NEGÓCIOS Você se vê na outra ponta, a dos pessimistas? Rushkoff Nunca fui otimista. Nos anos 1990, vi na tecnologia uma oportunidade, mas percebi cedo que ela seria capturada pela lógica financeira. Hoje não vejo minha posição como pessimista ou otimista, o que faço é uma constatação. Sou um presentista. Eu relato o que está acontecendo, não o que vai acontecer. Não é o futuro que me incomoda, é o presente, no qual precisamos enfrentar os efeitos de um sistema que já opera no limite. NEGÓCIOS Em que momento acredita que a internet perdeu o seu espírito libertário? Rushkoff No começo, a rede era o refúgio de quem ia contra as corporações. Agora, é o inverso: vamos ao mundo real para escapar das redes. A internet se tornou o principal território do mundo corporativo. Eu a uso como ferramenta, mas não como espaço de convivência. Hoje, o espírito comunitário se deslocou para espaços menores – grupos de WhatsApp, fóruns do Reddit, servidores do Discord. Esses lugares ainda têm moderação humana, o que faz diferença. NEGÓCIOS A inteligência artificial é vista como o novo salto evolutivo da humanidade. O que a tecnologia está revelando sobre nós? Rushkoff Que os problemas são anteriores. Quando vejo artistas reclamando que a IA “rouba” suas criações, penso que o erro foi aceitar a lógica da propriedade intelectual como forma de valor. Arte não é mercadoria, é contribuição à sociedade. Os artistas deveriam ser pagos para existir, independentemente da produção. A IA também expõe falhas que já estavam na educação e na economia. E há o trabalho invisível: milhares de pessoas, muitas em países pobres, rotulando dados para os modelos de IA, fazendo o serviço sujo para que os algoritmos pareçam mágicos para o usuário. NEGÓCIOS Em seus livros, você fala que o estado natural das sociedades é o feudalismo. O que isso quer dizer? Rushkoff O feudalismo é a condição padrão do poder humano, nós nunca saímos dele. Nada na natureza cresce exponencialmente, só o câncer. E o capitalismo é um câncer social. Ele mata o hospedeiro. Alguns perceberam isso e tentam sair do planeta, fazer upload da consciência ou deixar que os pobres morram junto com o sistema. É o mesmo instinto feudal de sempre: proteger castas, propriedades, heranças. A polícia, o sistema financeiro, as corporações, tudo foi desenhado para preservar quem já tem a riqueza. É por isso que digo que precisamos desnaturalizar o poder. Ver o absurdo é o primeiro passo para criar algo novo. NEGÓCIOS Em suas palestras, você diz que, para escapar da hipnose coletiva, é preciso “tornar as coisas esquisitas”. O que quer dizer com isso? Rushkoff Ser esquisito é não aceitar as circunstâncias dadas e, em vez disso, ver o mundo como algo maleável. Pense no dinheiro, por exemplo. Somos treinados a acreditar que é real, quando na verdade é dívida. Dinheiro é algo emprestado por quem tem capital para que outros possam trocar entre si. Tornar as coisas esquisitas é olhar para essas convenções, como poder, autoridade, economia, e perceber que poderiam ser diferentes. Até a caixa de entrada do seu e-mail é um exercício de poder. Quem disse que você precisa responder? Quando desnaturalizamos o poder, tiramos sua força e ganhamos liberdade para redesenhar o mundo. NEGÓCIOS Na sua visão, esse processo exige sair do digital e encarar o lado humano e doloroso da existência. Rushkoff Sim. Quando tocamos o humano, encontramos o luto coletivo. É de partir o coração perceber o que fizemos uns aos outros. Muitos se distanciam disso com riqueza ou distrações. A espiritualidade de verdade exige atravessar essa dor. Por isso tantos recorrem à ayahuasca: ela te força a cair no presente, a sentir. Se depois dessa experiência alguém tentar integrar o que aprendeu ao trabalho, talvez haja esperança para todos nós. NEGÓCIOS Em eventos de negócios, fala-se muito sobre os executivos que recorrem a psicodélicos e misticismo. O que há por trás disso? Rushkoff Eu diria que metade das pessoas que vai a esses eventos está tentando preservar seus métodos de sempre e chegar à aposentadoria sem encarar o que mudou. A outra metade, em boa parte formada por mulheres, mergulha em psicodélicos, cogumelos, ayahuasca e meditação, e fala em “transformação regenerativa”. É curioso: em conferências como a House of Beautiful Business, nos Estados Unidos, tenho a impressão de que muitos estão ali para fazer penitência. Querem se sentir melhor consigo mesmos. Conversam sobre budismo e finanças regenerativas enquanto comem refeições sofisticadas e são servidos por gente que, em certos momentos, parece invisível. Há um contraste brutal entre o discurso espiritualizado e o contexto de luxo. NEGÓCIOS O Brasil vive algo parecido. Temos uma herança de escravidão muito visível, mas pouco elaborada. Rushkoff Essas contradições são universais. Encontrei muita gente que, depois de passar 20 anos em consultorias ou bancos, fez uma experiência com ayahuasca e decidiu liderar o “movimento regenerativo”. Dizem que leram meu livro, Survival of the Richest, e querem ser “líderes” do pós-capitalismo. Eu sempre pergunto: “Por que ele não pode apenas ser seguidor por um tempo?”. Mas não, eles só sabem liderar. Repetem as ideias de livros sobre propósito para que todos saiam se sentindo bem. É um circuito de autoindulgência. NEGÓCIOS Mas há quem tente algo verdadeiro nesse campo? Rushkoff Sim, conheço iniciativas genuínas. Existem pequenas comunidades regenerativas no mundo, como Tamera, em Portugal, que funcionam como pontos de acupuntura: experimentam outras formas de viver, de compartilhar e de trabalhar. Mas o que me preocupa é a ilusão de que conversar, tomar cogumelos e “metabolizar a crise global” já seja suficiente. NEGÓCIOS E o Brasil? Quando você olha para cá, o que vê? Rushkoff O Brasil é fascinante porque ainda guarda o que chamo de indigenity, uma conexão ancestral com a terra. Vocês têm água, biodiversidade, criatividade e alta tecnologia. Poderiam ser líderes globais, enquanto Estados Unidos, China e Rússia se enredam em boicotes e guerras comerciais. Mas há o outro lado: se não tomarem conta de tudo isso, precisarão construir um exército, porque o mundo virá tomar o que vocês têm. O valor planetário está aqui, e o modelo econômico ocidental não sabe contabilizá-lo. O que estamos testemunhando é o colapso desse modelo. O próximo modelo, o regenerativo, só se faz com a natureza. NEGÓCIOS Em seu livro sobre tecnofeudalismo, Yanis Varoufakis diz que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Rushkoff Concordo totalmente. O capitalismo é um sistema inventado na era industrial para evitar a ascensão da classe média. Foi construído para perpetuar hierarquias. E agora, na era digital, ele se volta contra a própria espécie. Não se trata de abolir o comércio ou a troca – isso é humano. Mas esse modelo vai nos matar se insistirmos nele. NEGÓCIOS Há momentos em que você parece fatalista. Ainda acredita que podemos mudar? Rushkoff Depende do que chamamos de mudança. Às vezes penso que o fim da civilização pode ser vivido com amor. Mesmo que o planeta esteja morrendo, podemos dar as mãos e atravessar juntos. Veja: para mim, o amor é a faísca inicial da criação. Muitos cientistas dizem que a consciência é produto da complexidade material, mas eu acho o contrário: a consciência criou a matéria. Se acreditarmos nisso, talvez o universo inteiro exista apenas para experimentar o amor, e essa seja a força final. NEGÓCIOS Depois de tudo, ainda há saída? Rushkoff Não sei se há uma “saída”. Talvez o que exista seja um modo mais digno de permanecer. A civilização pode estar morrendo, mas ainda podemos nos unir. Se fizermos isso com consciência, talvez o mundo não precise acabar.",
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