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"textContent": "\nO avanço da IA não pressiona apenas quem pode ser substituído; ele também corrói o poder de compra de parte da força de trabalho Getty Images A transição para a automação – dos escritórios aos caminhões sem motorista – já está redesenhando o trabalho. Mas esse entusiasmo tecnológico ainda não se refletiu na economia real. Todo dia 1º de maio carrega um tom de balanço sobre as relações de trabalho, mas o deste ano acontece sob uma sombra específica: a ansiedade em torno da inteligência artificial (IA). A imagem preferida do debate público costuma ser a da máquina extraordinária – o caminhão que cruza rodovias sem motorista, o robô que entrega comida desviando de pessoas na calçada, o algoritmo que produz relatórios em segundos. Mas, ao focarmos na fascinação com aquilo que a tecnologia pode fazer, ignoramos uma constatação muito mais urgente: a IA já está redistribuindo risco antes mesmo de demonstrar ganhos consistentes de produtividade e crescimento. O descompasso entre a euforia do mercado financeiro e a economia real é evidente. Até agora, o entusiasmo com a IA ainda não se traduziu claramente nos dados macroeconômicos. O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou, em abril de 2025, que o boom da inteligência artificial ainda não havia alavancado a produtividade global de forma perceptível nos números agregados; o órgão estima que, na Europa, os ganhos de produtividade com a IA devem ser modestos, batendo na casa de 1% cumulativo em cinco anos. Nos Estados Unidos, berço dessa revolução, o Produto Interno Bruto (PIB) vem apresentando oscilações desde 2025, com desaceleração da economia e sem indicar um salto estrutural de crescimento. É nesse vácuo entre a promessa e a realidade que o problema do desemprego estrutural ganha contornos críticos. Tome-se o exemplo dos caminhões e veículos de carga autônomos. Eles não são apenas uma curiosidade tecnológica, mas o ensaio geral de um dilema político e corporativo iminente. Se a automação avançar em ritmo industrial prioritariamente para reduzir custos logísticos, a eficiência será rapidamente capturada pelo capital, enquanto a conta da falta de trabalho será enviada para a sociedade. O problema central não é se a IA vai dirigir melhor que os humanos, e sim o fato de que ela pode reorganizar o mercado de trabalho muito antes de produzir crescimento suficiente para compensar e realocar os profissionais que perderem suas funções. Para as grandes companhias e líderes de negócios, esse não é apenas um problema de política pública; é uma questão de governança e de sustentabilidade econômica. O avanço da IA não pressiona apenas quem pode ser substituído; ele também corrói o poder de compra de parte da força de trabalho. Ao mesmo tempo, estreitam-se as portas de entrada para quem busca as primeiras oportunidades. Empresas passam a contratar menos estagiários, trainees e profissionais juniores, transferindo para sistemas automatizados tarefas que antes funcionavam como etapa de formação. O resultado é um paradoxo de entrada: o sistema intensifica a cobrança sobre os incluídos – um cenário que já cobra seu preço na saúde mental de quem fica – e dificulta o acesso dos que ainda tentam entrar no mercado. No Brasil, pesquisa do FGV Ibre com base na “PNAD Contínua” confirma esse movimento: para jovens de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas à IA generativa já existe uma queda diferencial na probabilidade de conseguir emprego, e com renda formal. No longo prazo, contudo, a inovação sem um novo pacto social torna-se um risco ao próprio sistema produtivo. Afinal, quem consumirá os produtos entregues com tanta eficiência pelos caminhões e robôs autônomos caso a base de trabalhadores com renda encolha? A questão, portanto, não é frear o avanço tecnológico, o que seria anacrônico. A questão é quem paga a conta da transição. Políticas de requalificação profissional, novos desenhos de seguro-desemprego, redução da jornada de trabalho em setores mais impactados e até debates mais ambiciosos, como o da renda básica universal, precisam deixar de ser tratados como abstração e entrar com seriedade na agenda econômica. Neste 1º de Maio, a reflexão mais importante para líderes e executivos não é como automatizar operações mais rápido. É lembrar que, embora os caminhões do futuro possam ser autônomos, a construção de uma nova economia funcional ainda requer – e muito – a nossa capacidade de direção. * Victoriana Leonora C. Gonzaga é advogada de direito internacional e direitos humanos, professora e palestrante. Doutoranda em Direito (USP) e mestre em direito e desenvolvimento econômico e social (FGV-SP) *Carlos Portugal Gouvêa é advogado, professor da USP e doutor em Direito (Harvard)",
"title": "1º de Maio e inteligência artificial: quando o risco chega antes da prosperidade"
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