Conheça a tecnologia por trás do tênis de queniano que quebrou recorde em maratona
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April 27, 2026
O queniano Sabastian Sawe completou a Maratona de Londres no último domingo (26) em 1h59min30s, tornando-se o primeiro atleta a cruzar a linha de chegada de uma maratona oficial em menos de duas horas. A marca supera em 65 segundos o recorde anterior, estabelecido pelo queniano Kelvin Kiptum em Chicago, em 2023. Nos pés de Sawe, durante toda a prova, estava o Adizero Adios Pro Evo 3, da Adidas, um tênis de 97 gramas vendido por US$ 500 (cerca de R$ 2.800) e projetado para ser usado uma única vez. O Daily Mail detalhou a tecnologia do calçado. A leveza extrema não é o único ponto positivo do modelo. O tênis concentra três inovações de engenharia desenvolvidas ao longo de três anos, com mais de doze versões de protótipo e testes realizados desde laboratórios em Herzogenaurach, na Alemanha, até campos de altitude no Quênia e na Etiópia. A espuma que economiza passos O componente central do Adizero Adios Pro Evo 3 é a espuma chamada Lightstrike Pro Evo, produzida sem compressão, um processo que permite atingir densidades menores do que as obtidas por moldagem convencional. A formulação é 50% mais leve do que a versão utilizada no modelo anterior, o Evo 2, que pesava 138 gramas. A redução no peso total da versão nova foi de 30%. Apesar disso, os índices de retorno energético — isto é, a proporção de energia que a espuma devolve ao corredor a cada passada — aumentaram. Testes independentes do RunRepeat apontaram 11% a mais de retorno energético em relação à geração anterior. A lógica é: quanto mais energia a entressola devolve ao atleta, menos esforço muscular ele precisa aplicar para manter o ritmo. Algo que, em 42 quilômetros, faz diferença mensurável no resultado final. O aro no lugar da placa A segunda inovação diferencia o Evo 3 dos demais supertênis do mercado. Em vez de uma placa de fibra de carbono que atravessa a entressola de ponta a ponta (solução adotada pela maioria dos concorrentes, incluindo os modelos da Nike), a Adidas desenvolveu o que chama de ENERGYRIM: uma estrutura em formato de "U", feita de carbono impregnado em resina, que percorre apenas as bordas externas da entressola. "A pesquisa mostrou que os efeitos propulsores do carbono se concentram nas bordas do pé", explicou Charlotte Heidmann, diretora da linha Adizero na Adidas, ao Gear Patrol. Manter o centro da entressola livre de carbono permite uma coluna de espuma pura em toda a região plantar, o que aumenta o amortecimento sem adicionar rigidez desnecessária. O resultado, segundo a empresa, é uma melhora de 1,6% na eficiência de corrida em comparação com o Evo 2, margem que, para atletas de elite percorrendo 42 quilômetros, equivale a segundos decisivos. O restante do calçado foi submetido ao mesmo critério de eliminação de qualquer grama dispensável. O cabedal é feito de uma malha semitransparente inspirada em velas de kitesurf, conforme a empresa detalhou ao WWD. A sola de borracha Continental cobre apenas o antepé, a área de maior atrito em alta velocidade, e fica ausente nas demais regiões. A espessura total da entressola chega a 39 milímetros no calcanhar, dentro do limite de 40 mm fixado pelo World Athletics para provas de rua. O debate que o recorde amplia A discussão sobre o impacto da tecnologia no atletismo de elite não começou com o Evo 3. O marco foi 2016, quando a Nike lançou o Vaporfly, primeiro tênis de corrida com placa de fibra de carbono para uso comercial. Os três primeiros colocados na maratona masculina dos Jogos Olímpicos do Rio usaram um protótipo do modelo. Estudos posteriores estimaram que o tênis melhorava a economia de corrida de atletas treinados em cerca de 4% e o desempenho, em torno de 3%. Desde então, segundo o Sportico, os tempos dos 50 melhores maratonistas do mundo melhoraram em média 2%, em grande parte atribuída às mudanças no calçado. O World Athletics respondeu com regulamentação publicada em 2020: um único elemento de carbono por tênis e altura máxima de 40 mm na entressola para provas de estrada. O Evo 3 cumpre ambas as exigências, o ENERGYRIM é classificado como elemento único, mesmo em sua forma periférica. Para o professor Yannis Pitsiladis, do Comitê Olímpico Internacional, a variação de desempenho entre atletas usando supertênis pode superar 10% em alguns casos, o que, segundo ele, faz do acesso ao calçado um fator capaz de determinar quem se classifica para competições internacionais. O próprio Sawe antecipou as questões sobre a validade do recorde. Meses antes da prova, seu empresário divulgou que o corredor e a Adidas financiaram um aumento nos testes de antidopagem conduzidos pela Athletics Integrity Unit, autoridade responsável pela integridade do atletismo mundial, ao custo de US$ 50 mil, para demonstrar que o desempenho era produto de treinamento e tecnologia, não de substâncias proibidas.
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