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Disputa entre Estados Unidos e China atrasa o crescimento global, diz economista

Home | Época Negócios [Unofficial] April 27, 2026
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Prasad, um dos maiores especialistas em geopolítica e economia do mundo, fala com a autoridade de quem já atuou como diretor da Divisão de Estudos Financeiros do Fundo Monetário Internacional (FMI) e consultor oficial do governo americano sobre a economia da China. Para Prasad, que hoje é professor de política e economia na Universidade Cornell (NY), o mundo está vivendo em um círculo vicioso, em que atitudes isolacionistas, disputas geopolíticas e economia desigual se retroalimentam, gerando os piores resultados possíveis. Nesse movimento, a tecnologia ocupa um papel fundamental, criando uma concentração ainda maior de poder econômico e financeiro e estimulando a competição acirrada, em que só uma empresa pode vencer. Prasad salienta, porém, que a inteligência artificial também pode ajudar os países emergentes a encontrar o caminho do crescimento, desde que os benefícios sejam compartilhados entre todos. Para quem quer se aprofundar, é possível achar nas livrarias a obra The Doom Loop (em uma tradução livre, “O ciclo da perdição”), que já está sendo aclamada como um dos melhores livros de negócios de 2026. NEGÓCIOS Você já disse que a disputa entre Estados Unidos e China está atrasando o crescimento mundial. Pode me explicar por quê? PRASAD Alguns anos atrás, eu acreditava que estávamos passando de um mundo com um só poder, os Estados Unidos, para outro em que o poder econômico estaria distribuído de forma mais equilibrada, com países de mercados emergentes, incluindo China, Índia e Brasil, tornando-se muito mais importantes. Mas, à medida que pesei todas as forças em jogo, percebi que havíamos chegado a uma realidade em que o poder estava dividido entre dois países, Estados Unidos e China, para quem o que interessa é a vítória. Os governos americano e chinês só vão estar felizes quando vencerem essa batalha. E, por caisa dessa disputa, economia, política doméstica e geopolítica estão presas em um ciclo de retroalimentação negativa, em que um país extrai o pior um do outro, e não dá espaço para novas potências surgirem. NEGÓCIOS No livro, você diz que, como agora a disputa é entre os EUA e a China, outros países se sentem forçados a se alinhar com um ou com outro. Existe uma boa maneira de lidar com esse dilema? PRASAD Sim, o resto do mundo agora está preso entre essas duas alternativas muito desagradáveis. Por um lado, você tem os Estados Unidos, a maior economia do mundo, que adotou uma abordagem muito mais isolacionista nas relações internacionais. Por outro, você tem a China, a segunda maior potência, que está abrindo os braços para o resto do mundo, dizendo que é a defensora do livre comércio. Mas nem todos confiam na China, um país com um arcabouço institucional muito fraco. E que, neste momento, enfrenta uma economia muito desequilibrada, que teve um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão no ano passado. Muitos acham que, caso se aproximem demais da China, podem ser inundados por exportações daquele país. Os dois lados da disputa econômica se encontram: o presidente Donald Trump cumprimenta o presidente Xi Jinping Getty Images NEGÓCIOS Em fevereiro, Brasil e Índia assinaram um acordo sobre terras raras e energia renovável. Você acha que esse tipo de colaboração é uma boa resposta neste momento? PRASAD Essa é uma estratégia que parece estar funcionando. Há outros acordos como o que mencionou, entre a Europa e o Mercosul, a Europa e a Índia. É uma abordagem muito prática, em que são travados acordos sobre temas específicos, mesmo quando os países não estão perfeitamente alinhados em outras áreas. Eu me preocupo que, no longo prazo, esses relacionamentos possam se mostrar um tanto frágeis. Mas certamente é o melhor que muitos podem fazer neste momento. NEGÓCIOS Como podemos escapar desse ciclo atual? PRASAD Acho que a verdadeira questão é como podemos voltar a ter boas instituições domésticas, que permitam mecanismos corretivos, que incluam o Estado de Direito, um sistema de freios e contrapesos, uma imprensa livre e destemida que possa responsabilizar autoridades públicas e um banco central independente. Cada uma dessas instituições está sendo ameaçada, particularmente nos Estados Unidos, mas também em muitos outros países. Infelizmente, as pessoas que precisam reconstruir as instituições são precisamente aquelas que as estão destruindo. Precisamos também de boas organizações internacionais, porque todos os países querem sentir que as regras do jogo são justas. Muitas instituições que os Estados Unidos ajudaram a criar nas últimas décadas, e que foram essenciais para sustentar a estabilidade e a prosperidade globais, agora estão sendo abandonadas pelos EUA. Ao mesmo tempo, países de mercados emergentes, liderados pela China, mas incluindo Brasil e Índia, estão criando suas próprias instituições. Acho que isso leva a mais fragmentação. Então, se quisermos sair do círculo vicioso, precisamos de instituições domésticas e internacionais muito melhores. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião no Palácio Presidencial (Rashtrapati Bhavan) com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi Agência Brasil NEGÓCIOS Quanto tempo deve durar esse ciclo que estamos passando? PRASAD Nos próximos cinco a dez anos, vejo como sendo bastante difícil reverter essa dinâmica. Mas há diferentes fatores que podem desencadear uma transformação. Pode ser que surjam líderes muito visionários e com grande capacidade de antecipação, que nos forcem a pensar sobre o que é realmente importante e como podemos nos beneficiar juntos. Ou talvez ocorra algum tipo de evento muito negativo, levando o sistema social e político à beira do colapso, e é aí que vamos recuar. Mas, na minha visão, ainda pode levar algum tempo para essa mudança acontecer. NEGÓCIOS Além das disputas entre países, temos também grandes empresas competindo pela IA mais avançada, com enormes investimentos. Isso também afeta a ordem econômica mundial? PRASAD Eu diria que é extremamente preocupante. Essa atitude de que só um pode vencer significa que, em vez de a competição produzir resultados melhores, ela pode potencialmente criar mais concentração de poder. E isso me leva a outro ponto focal: os riscos que as novas tecnologias podem trazer quando não há salvaguardas. Precisamos de proteções urgentes, não para sufocar a inovação, mas para garantir que essas tecnologias beneficiem a todos nós. Mas, em um momento em que a cooperação entre países está em um nível muito baixo, eu simplesmente não vejo como progredir em direção a estruturas globais capazes de regular novas tecnologias. Então elas estão essencialmente correndo soltas neste momento. NEGÓCIOS Você acha possível que algum dia tenhamos a regulação global para a IA? PRASAD Eu espero que sim, mas não estou muito otimista, porque hoje claramente há uma falta de confiança entre as principais economias, e cada país parece estar olhando para seus próprios interesses. E pensar que, não faz tanto tempo assim, há apenas algumas décadas, acreditávamos que todos os países tinham interesses comuns. Havia uma sensação geral de que, se todos cooperassem, o resultado traria benefícios para todos. Infelizmente, esse espírito deu lugar à noção de que outros países não podem ser confiáveis, e que o diferente é sempre o inimigo. Nesse tipo de ambiente, é muito difícil ver uma abordagem mais construtiva, tanto para a produção conjunta quanto para a regulação global. ÉPOCA NEGÓCIOS Você acaba de lançar um livro chamado The Doom Loop. Como esse “ciclo de perdição” está afetando a tecnologia? ESWAR PRASAD Acredito que a crise geopolítica em que vivemos tem um impacto mais acentuado sobre três elementos: inteligência artificial, moedas digitais e redes sociais. Essas tecnologias trouxeram enormes benefícios potenciais, no sentido de aproximar países e criar progresso econômico. Se você pensar em elementos muito básicos, como pagamentos digitais, o Brasil é um exemplo muito bom de como usar inovação em finanças para o bem de todos. Mas há muitos fatores negativos que chegam com as novas tecnologias. Algumas delas, como a IA, estão criando uma concentração ainda maior de poder econômico e financeiro em determinados países, em detrimento dos mais pobres. Além disso, a tecnologia se tornou uma fonte de competição destrutiva, em que Estados Unidos e China tentam bloquear uns aos outros para que não tenham acesso fácil a chips e plataformas. Da forma como vejo, há três riscos principais neste momento. O primeiro é que a concentração excessiva de poder contribua decisivamente para a dinâmica do círculo vicioso. Segundo, que a competição destrutiva entre as duas maiores economias do mundo traga mais disrupção para a economia. E terceiro, que algumas dessas ferramentas, especialmente IA e redes sociais, sejam usadas por indivíduos, ou por países como a Coreia do Norte, para criar problemas de alcance mundial. Eu me preocupo que tudo isso aumente a desordem mundial em que vivemos. NEGÓCIOS A geopolítica também está influenciando a forma como lidamos com recursos que sustentam a tecnologia, como terras raras e energia. Isso o preocupa? PRASAD O mais relevante é entender se esses recursos vão ser usados de uma maneira que gere prosperidade compartilhada ou se serão benéficos apenas para um grupo muito restrito de pessoas. E é preciso cuidar ainda para que sejam utilizados sem consequências ambientais horríveis, porque isso, novamente, afeta todos nós. No cenário competitivo que vivemos, me espanta a falta de cooperação entre os países para lidar com as mudanças climáticas. Isso tem efeitos negativos amplos sobre a economia, especialmente sobre países pequenos e muito vulneráveis. Estamos falando de coisas que podem gerar uma enorme instabilidade política e social. NEGÓCIOS Você se define como otimista. Como encontra um senso de otimismo neste cenário? PRASAD Uma coisa que gosto de destacar é que, quando você olha para como a economia mundial se saiu no ano passado, e como é provável que se saia neste ano, o que está acontecendo nos mercados financeiros é bastante encorajador. Quero dizer, muitas dessas novas tecnologias estão gerando ganhos de produtividade. Mas o círculo vicioso é perfeitamente consistente com essa ideia de que, na superfície, tudo parece bem e calmo, enquanto no subsolo as tensões sociais, econômicas e políticas estão se acumulando. Se você voltar e pensar no início dos anos 2000, o crescimento era muito bom na maioria dos países ao redor do mundo. A inflação estava baixa. E então acabamos tendo a crise financeira global de 2008/2009. NEGÓCIOS Apesar de tudo isso, acredita que temos hoje um bom cenário para a inovação? PRASAD A inovação certamente está avançando. Vemos isso mais evidentemente nos Estados Unidos, é claro, mas ao redor do mundo a tecnologia está ajudando, sim, a melhorar a vida das pessoas. Meu receio é que, mesmo que ela beneficie o cidadão comum e aumente a produtividade, esses avanços nos levem a uma situação em que vamos nos distanciar cada vez mais da noção de democracias liberais orientadas para o mercado. Em outras palavras, se tivermos mais tensões sociais e políticas, podemos até ter mais coisas, mas não será um mundo pacífico para vivermos. NEGÓCIOS A IA deve ter impacto decisivo nos próximos dez anos. Como vê o futuro da tecnologia? PRASAD Estou otimista quanto ao potencial da IA para gerar ganhos para as empresas. Estou otimista de que ela ajudará a melhorar a produção econômica. Estou muito preocupado com o lado sombrio dessa tecnologia e com o fato de que não estamos colocando quaisquer salvaguardas nela. Não temo que ela vá ultrapassar a inteligência humana, mas acho que pode ser usada de maneiras que realmente nos afastem uns dos outros, o que pode corroer a confiança dentro das sociedades. Precisamos evitar que isso aconteça, para que possamos retornar a um caminho mais próspero, reconstruindo instituições domésticas e internacionais e retomando a cooperação internacional, para o bem de todos. *Essa reportagem foi publicada originalmente na edição de março de Época NEGÓCIOS

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