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Como o Brasil está transformando o mercado global de Terras Raras, segundo Ricardo Grossi, COO da Serra Verde

Home | Época Negócios [Unofficial] April 21, 2026
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Ricardo Grossi, COO da Serra Verde: “A reorganização das cadeias globais já é uma realidade da qual o Brasil pode participar” Divulgação A USA Rare Earth, empresa de terras raras listada na Nasdaq, anunciou na segunda-feira (20) que vai adquirir a mineradora brasileira Serra Verde, única que produz minerais raros em escala fora da Ásia. A transação envolve dinheiro e ações, e se soma a uma série de negócios recentes na disputa do governo americano contra o domínio chinês no setor. O negócio é cotado em US$ 2,8 bilhões. A companhia americana informou que pagará US$ 300 milhões em dinheiro e emitirá cerca de 126,8 milhões de ações. Proprietária de uma grande mina de terras raras no norte de Goiás, a Serra Verde é controlada por duas companhias americanas (Denham Capital e EMG) e uma britânica (Vision Blue). Prevista para ser concluída no terceiro trimestre, a transação deve criar uma nova empresa no setor, com oito operações, distribuídas no Brasil, EUA, França e Reino Unido, e operando toda a cadeia do setor, desde a mineração até o processamento, separação, metalização e fabricação dos imãs. O movimento mostra a posição única ocupada pelo Brasil no momento em que a tecnologia mundial começa a se estruturar sobre três bases principais: os minerais críticos, fundamentais para computação, inteligência artificial e aparelhos eletrônicos (a lista inclui cobre, níquel e cobalto); as terras raras (um grupo específico de 17 elementos químicos, como neodímio, disprósio, térbio e lítio), que garantem o funcionamento de motores elétricos, turbinas eólicas, baterias, data centers e sistemas de defesa; e a energia abundante, de preferência de fontes limpas, capaz de garantir o abastecimento dos data centers que alimentam a IA. Nada disso, porém, garante que o país está pronto para assumir uma posição competitiva no mercado de extração, processamento e refino dos minerais raros. O interesse atual do governo em investir na área é, na verdade, resultado de fatores externos. Foi a intensa disputa entre Estados Unidos e China pelos minerais críticos, iniciada em 2024, que levou o resto do mundo a perceber que era preciso buscar alternativas de fornecimento para não depender da produção e da tecnologia de refino do país asiático. Dono da segunda maior reserva do mundo, o Brasil surgiu como opção natural. O problema é que as nossas terras raras permanecem em grande parte inexploradas – a única empresa com uma operação comercial consolidada é a Serra Verde. A Serra Verde, com sede em Minaçu (GO), é a única empresa que realiza o processamento de terras raras no Brasil Divulgação Na visão de Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde Pesquisa e Mineração e COO do Grupo Serra Verde, o Brasil já começa a participar da reorganização das cadeias globais. A empresa de Goiás é dona da única mina de terras raras em operação comercial no Brasil – e também a única fora da Ásia a produzir em escala comercial os ímãs permanentes, um dos principais produtos desenvolvidos a partir de terras raras. Em fevereiro, a companhia recebeu um financiamento de US$ 565 milhões do Development Finance Corporation (DFC), o equivalente americano ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Esse apoio confirmou a posição especial da Serra Verde na indústria global, sustentada por um portfólio de produtos com elevada concentração de terras raras pesadas [HREEs, mais raras e valiosas que as leves; lista inclui disprósio e térbio], estágio avançado de produção, perfil econômico atrativo e histórico como operadora responsável”, afirma Grossi. “Como único produtor em escala fora da Ásia, estamos em posição singular para facilitar a criação de novas cadeias de suprimentos confiáveis e sustentáveis.” O executivo acredita que o crescimento da empresa pode ajudar a impulsionar o país para um “seleto clube”: o dos fornecedores globais para os setores automotivo, médico, de eletrônicos, robótica, defesa e aeroespacial, entre outros. A Serra Verde é um exemplo de como o setor de minerais raros pode evoluir no Brasil: sua mina em Minaçu (GO) é considerada a principal fonte de terras raras pesadas do mundo e a de maior rentabilidade no processo de extração. Além disso, a empresa produz Carbonato Misto de Terras Raras (MREC), um composto enriquecido em disprósio, térbio e ítrio, insumos críticos para defesa, energia eólica e eletrônicos avançados. “Não vendemos nada que não seja processado, estamos sempre em busca de um produto intermediário de maior valor”, afirma o COO, Ricardo Grossi. Ele reconhece o desafio estrutural do Brasil para deixar de fornecer commodities e passar a exportar tecnologia. “Transformar o potencial brasileiro em liderança global real exige um esforço coordenado em três frentes: ambiente de investimento estável e competitivo, com previsibilidade regulatória, licenciamento eficiente e acesso a financiamento de grande porte e de longo prazo.” A leitura de Grossi converge para a visão da Vale, maior mineradora do Brasil e uma das maiores do mundo, sobre o cenário global da mineração. “Temos uma oportunidade muito grande de ofertar esses minerais para os Estados Unidos, Europa e China”, disse o presidente da empresa, Gustavo Pimenta, em entrevista ao Valor. “A gente tem a tabela periódica no nosso território, vários dos minerais críticos em escala e uma posição neutra do ponto de vista geopolítico”, completou. Segundo a companhia, “os minerais críticos se tornaram um pilar geopolítico estratégico para a transição energética e a digitalização do país”. O Brasil, com sua riqueza mineral e estabilidade, é visto como um ator relevante na diversificação das cadeias de suprimentos. Essa oportunidade inédita tem impactado decisões de investimento da Vale, que já exporta para os Estados Unidos boa parte da sua produção de níquel, um mineral crítico usado na produção de carros elétricos. Outro produto fundamental nesse momento é o cobre, muito utilizado em data centers. Em 2025, a produção do mineral pela Vale foi de 382,4 mil toneladas, uma alta de 9,8% em relação a 2024. Até 2035, a empresa espera dobrar esse volume. Dentro do ecossistema da Vale, seu braço de investimento, a Vale Ventures, também tem papel estratégico. Bruno Arcadier, head da operação, destaca que investimentos recentes em startups como Boston Metal (descarbonização da produção de aço), Allonnia (biotecnologia para resíduos de mineração) e Electrified Thermal Solutions (ETS, fundada pelo MIT) “dialogam diretamente com a estratégia da Vale para minerais críticos”, ao posicionar a empresa como fornecedora de insumos para a transição energética. “Ao investir em novas tecnologias”, diz, “a Vale Ventures atua como catalisadora na cadeia de valor”. Para Mauro Barros, CEO da Ore Investments, gestora de fundos especializados em aportes em mineração, o momento é estrutural. “Há uma transformação global, acelerada pela transição energética e pela preocupação com a segurança nacional, na qual países estão se reorganizando comercialmente para reduzir a dependência de um único polo – e isso vale tanto para a produção de minerais raros quanto, principalmente, para refino e etapas industriais”, diz o executivo. Para não perder a chance, diz Barros, o Brasil precisa prestar atenção na infraestrutura e na logística. “Não adianta ter o minério certo na hora certa e não conseguir entregar por falhas regulatórias, de engenharia, licenciamento, governança, relação com comunidades e estrutura de capital.” Na visão de Osvaldo Antônio Serra, pesquisador do CNPq e professor titular do Departamento de Química da Universidade de São Paulo, o Brasil precisa fazer hoje o que a China fez nos anos 1980: investir em ciência, criar políticas que obriguem a agregação de valor, reconstruir plantas piloto e fortalecer empresas brasileiras para inovar. “Falta visão estratégica para fazer o que é preciso”, diz Serra. ONDE ESTÃO AS TERRAS RARAS NO BRASIL Foram identificados depósitos em todas as regiões do país. O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo, com 21 milhões de toneladas Fontes: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação Época NEGÓCIOS *Essa reportagem foi publicada originalmente na edição de março de Época NEGÓCIOS

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