External Publication
Visit Post

Pesquisadores descobrem como bloquear o vírus Epstein-Barr, que causa a 'doença do beijo'

Home | Época Negócios [Unofficial] April 15, 2026
Source
Um vírus silencioso, presente no organismo de quase toda a população adulta do mundo, pode estar mais perto de ser controlado. Pesquisadores do Fred Hutchinson Cancer Center (Fred Hutch), nos Estados Unidos, desenvolveram anticorpos monoclonais de estrutura humana capazes de bloquear o vírus Epstein-Barr (EBV) antes que ele infecte células do sistema imunológico, segundo informações da instituição. O EBV pertence à família dos herpesvírus e é transmitido principalmente pela saliva. Daí o apelido popular de "doença do beijo" para a mononucleose infecciosa, sua manifestação mais conhecida. Depois da infecção inicial, que em muitos casos é assintomática, o vírus não vai embora: permanece latente nas células B, um tipo de glóbulo branco central na resposta imunológica humana, pelo resto da vida do hospedeiro. Quando o sistema imunológico funciona normalmente, o vírus fica contido. O problema surge quando esse equilíbrio é rompido. Estudos anteriores, incluindo uma pesquisa da Universidade Stanford publicada em 2025, indicam que o EBV pode reprogramar células B latentes, ativando genes pró-inflamatórios que fazem o sistema imunológico atacar os próprios tecidos do corpo. Esse mecanismo foi associado ao lúpus eritematoso sistêmico; nas pessoas com a doença, a proporção de células B infectadas pelo EBV chega a ser 25 vezes maior do que em indivíduos saudáveis. O vírus também foi relacionado à esclerose múltipla, à Covid longa e à síndrome da fadiga crônica. Além das doenças autoimunes, o EBV está associado a cânceres como o linfoma de Burkitt e o carcinoma nasofaríngeo, e a condições neurodegenerativas. O desafio de bloqueá-lo Desenvolver anticorpos eficazes contra o EBV tem sido historicamente difícil por uma razão específica: o vírus consegue se ligar a praticamente todas as células B do organismo humano, tornando-o um alvo especialmente difícil de neutralizar. Anticorpos de origem não humana, por sua vez, costumam provocar rejeição imunológica, o que inviabiliza seu uso terapêutico. Para contornar esses dois problemas, a equipe do Fred Hutch utilizou camundongos geneticamente modificados para produzir anticorpos com estrutura humana. A partir desse modelo, os cientistas identificaram dez anticorpos monoclonais — dois direcionados à proteína viral gp350, responsável pela adesão do vírus às células, e oito à proteína gp42, que permite a fusão e entrada do vírus no interior celular. "Encontrar anticorpos humanos que bloqueiam o EBV de infectar nossas células imunológicas tem sido particularmente desafiador porque, ao contrário de outros vírus, ele consegue se ligar a quase todas as nossas células B", explicou Andrew McGuire, bioquímico e biólogo celular da Divisão de Vacinas e Doenças Infecciosas do Fred Hutch. Um anticorpo que bloqueou a infecção completamente Nos testes finais, um dos anticorpos voltados para a proteína gp42 impediu completamente a infecção em camundongos com sistema imunológico humanizado expostos ao EBV. Um anticorpo direcionado à gp350 ofereceu proteção parcial. A análise dos pontos vulneráveis do vírus, conduzida com apoio do Antibody Tech Core do Fred Hutch, também pode orientar o desenvolvimento futuro de vacinas. "Não apenas identificamos anticorpos importantes contra o vírus Epstein-Barr, mas também validamos uma abordagem inovadora para descobrir anticorpos protetores contra outros patógenos", afirmou Crystal Chhan, doutoranda do McGuire Lab. A descoberta tem relevância direta para um grupo de alto risco: pacientes submetidos a transplantes de órgãos sólidos ou de medula óssea. Nos Estados Unidos, mais de 128 mil transplantes desse tipo são realizados por ano. Esses pacientes tomam imunossupressores para evitar a rejeição do órgão e essa supressão do sistema imunológico pode permitir que o EBV se reative e se multiplique sem controle. Esse processo está na origem do distúrbio linfoproliferativo pós-transplante (PTLD), uma forma grave de linfoma que pode ser fatal e para a qual não existe, hoje, nenhuma terapia preventiva específica. Crianças transplantadas são especialmente vulneráveis, já que muitas ainda não tiveram contato prévio com o vírus e não desenvolveram qualquer nível de imunidade. "Prevenir a viremia por EBV tem forte potencial para reduzir a incidência de PTLD e diminuir a necessidade de reduzir a imunossupressão, ajudando a preservar a função do órgão transplantado e melhorar os desfechos clínicos", disse Rachel Bender Ignacio, médica infectologista do Fred Hutch e da Universidade de Washington. Teste de segurança O Fred Hutch já registrou pedidos de propriedade intelectual relacionados aos anticorpos descobertos. A equipe trabalha agora com colaboradores e um parceiro da indústria farmacêutica para avançar em direção ao uso clínico. As próximas etapas previstas incluem testes de segurança em adultos saudáveis, seguidos de ensaios clínicos com os pacientes de maior risco. "Depois de muitos anos em busca de uma forma viável de proteger contra o vírus Epstein-Barr, este é um avanço significativo para a comunidade científica e para as pessoas com maior risco de complicações causadas por esse vírus", disse McGuire. Mais Lidas

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...