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Crise nas empresas: a erosão silenciosa das habilidades humanas pela pandemia

Home | Época Negócios [Unofficial] April 11, 2026
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Existe uma crise acontecendo nas empresas que não aparece nos dashboards de produtividade. Ela não gera alertas no sistema de RH e não dispara notificações, mas está corroendo, silenciosamente, a capacidade das organizações de pensar, criar e resolver problemas complexos. Um estudo recente da BetterUp, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, analisou mais de 351 mil profissionais entre 2019 e 2025 e chegou a uma conclusão preocupante: as habilidades humanas como criatividade, resolução de problemas, curiosidade, resiliência e liderança regrediram drasticamente durante a pandemia e, quase cinco anos depois, ainda não se recuperaram. Os números são alarmantes. Se os funcionários de hoje fossem avaliados pelos padrões de desempenho de 2019, quase 75% estariam em um decil inferior ao que ocupam atualmente. As quedas chegam a 6% em todas as dimensões de efetividade no trabalho. E o mais irônico: justamente as habilidades que mais precisamos são as que menos desenvolvemos. Vivemos uma era em que a inteligência artificial automatiza o trabalho cognitivo rotineiro e transforma indústrias inteiras. Nesse contexto, o Fórum Econômico Mundial aponta que criatividade e resolução de problemas emergem como as competências mais valorizadas economicamente. Curiosidade e aprendizado contínuo são qualidades essenciais para sobreviver em ambientes de mudança acelerada. E, no entanto, essas mesmas habilidades estão em declínio. O estudo da BetterUp mostra que curiosidade e aprendizado contínuo são a menor competência avaliada pelos empregadores e são também as mais difíceis de desenvolver. Leva oito meses de coaching para que 50% dos profissionais alcancem competência básica nessa área. E quase dois anos para que 90% consigam de fato adquirir essa habilidade. Enquanto isso, essas competências aparecem em apenas 2% das descrições de vagas de emprego. Ou seja: as empresas dizem que precisam dessas habilidades, mas não as buscam ativamente, não as desenvolvem com consistência e não criam ambientes onde elas possam florescer. Os mais afetados: contribuidores individuais O estudo revela que os contribuidores individuais, aqueles profissionais que não ocupam cargos de gestão, foram os mais impactados pela erosão de habilidades. As quedas foram especialmente acentuadas em criatividade, resolução de problemas, curiosidade, aprendizado contínuo, resiliência, agilidade e influência social. As causas são múltiplas e se reforçam mutuamente: estresse pós-pandêmico prolongado, insegurança econômica, incerteza geopolítica, fragmentação do trabalho híbrido, burnout crescente, mudanças nas expectativas das novas gerações e, um fator cada vez mais relevante, o o loading cognitivo para a inteligência artificial. O estudo introduz um conceito que merece atenção: "workslop". É o output gerado por IA com baixo esforço humano, que não tem substância suficiente para avançar de verdade o trabalho. É a ilusão de produtividade, a aparência de entrega, e a forma sem conteúdo. E aqui está o ciclo vicioso: contribuidores individuais enfraquecidos não apenas entregam menos, eles também esgotam seus gestores. Gestores que agora precisam fazer mais mentoria, resolver mais problemas operacionais e lidar com times maiores, mais dispersos geograficamente e pressionados a usar IA. O resultado é uma cadeia de exaustão que compromete toda a organização. Os achados do Fórum Econômico dialogam diretamente com o que observamos no Brasil. No Censo de Saúde Mental 2025 da Vittude, que avaliou mais de 174 mil trabalhadores em 35 grandes empresas, encontramos padrões semelhantes e algumas pistas sobre o que pode fazer diferença. O presenteísmo — estar presente no trabalho, mas sem conseguir produzir de verdade — atinge em média 32% dos trabalhadores avaliados. É um indicador silencioso de que algo não vai bem. O corpo está lá, a mente, não. Mas o dado mais revelador é outro: nas empresas onde a segurança psicológica é alta, o presenteísmo chega a ser reduzido para 15%. Segurança psicológica é a percepção de que é possível se expressar, errar, fazer perguntas e propor ideias sem medo de punição ou humilhação. É o ambiente onde a curiosidade pode existir. Onde a criatividade não é sufocada pelo medo. Onde as habilidades humanas têm espaço para se desenvolver. Não é coincidência que justamente esse fator, que depende diretamente da cultura organizacional e da qualidade da liderança, seja o que mais protege contra o esgotamento e a improdutividade. O que isso significa para as empresas A erosão das habilidades humanas não é um problema individual. Não se resolve com mais treinamentos pontuais, mais ferramentas de produtividade ou mais cobrança por resultados. É um problema sistêmico que exige respostas sistêmicas. Primeiro, é preciso reconhecer que o ambiente de trabalho pode tanto desenvolver quanto destruir as capacidades humanas. Se as pessoas estão operando em contextos de alta demanda, baixo controle e pouca recompensa, o que chamamos de desequilíbrio na ergonomia cognitiva, não há curso de soft skills que compense. Segundo, é preciso levar a sério a construção de segurança psicológica. Não como discurso, mas como prática. Líderes que punem erros, que não dão espaço para discordância, que centralizam decisões e que tratam vulnerabilidade como fraqueza estão, ativamente, destruindo as condições para que suas equipes desenvolvam as habilidades que mais importam. Terceiro, é preciso repensar a relação com a tecnologia. A inteligência artificial pode ser uma aliada poderosa, mas também pode ser uma muleta que atrofia capacidades. Se usamos IA para evitar o esforço de pensar, estamos trocando produtividade de curto prazo por incompetência de longo prazo. Eu penso muito nisso enquanto preparo a Vittude para funcionar sem mim nos próximos meses. Delegar, documentar processos, desenvolver lideranças, tudo isso exige confiar que as pessoas vão pensar, criar, resolver. E para que isso aconteça, o ambiente precisa permitir. A pergunta que fica para cada líder é: o ambiente que você está criando desenvolve ou corrói as habilidades humanas da sua equipe? Porque, no fim das contas, nenhuma tecnologia substitui a capacidade de pensar com profundidade, de fazer as perguntas certas, de conectar ideias improváveis, de aprender continuamente. Essas são as habilidades que nos tornam insubstituíveis. E são exatamente as que estamos perdendo. *Tatiana Pimenta é fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas. Engenheira civil de formação, com MBA Executivo pelo Insper e especialização em Empreendedorismo Social pelo Insead, escola francesa de negócios. Empreendedora, palestrante, TEDx Speaker e produtora de conteúdo sobre saúde mental e bem-estar, foi reconhecida em 2023 como LinkedIn Top Voice, e em 2024 como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina pela Bloomberg Linea.

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