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Como a Getnet usou agentes de IA para transformar sua cultura organizacional

Home | Época Negócios [Unofficial] April 9, 2026
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Quando um técnico de campo da Getnet precisava configurar um novo modelo de maquininha em algum ponto do Brasil ou da América Latina, o caminho natural era ligar para o suporte interno, aguardar atendimento e tentar resolver o problema com um manual na mão. Hoje, essa mesma dúvida é respondida em segundos por um agente de inteligência artificial que já absorveu todos os manuais técnicos da empresa. Esse é um dos casos que Rodrigo Braga, head global de Tecnologia e Operações da Getnet, usa para ilustrar o que a operação da GetAI, uma plataforma proprietária de IA generativa que, nos últimos 18 meses, foi se tornando menos uma ferramenta e mais uma forma de trabalhar. "A GetAI nasceu como uma ferramenta, mas hoje ela é mais um conceito", diz Braga. "De fato, hoje é um ecossistema de ferramentas de IA que a gente usa todos os dias." Solução caseira A lógica que levou a Getnet a construir sua própria plataforma em vez de simplesmente adquirir licenças de soluções comerciais é direta: escala. "A gente olhou muito para os cases de mercado para poder definir como desenharia a nossa jornada", conta Braga. O modelo de licenciamento individual, avalia ele, cria dois problemas simultâneos: é caro e não garante adoção. "Se as pessoas não têm essa cultura, não sabem utilizar, fatalmente a gente chega numa ineficiência." A alternativa foi construir uma plataforma consumida por tokens, o que permitiu massificar o acesso sem o custo por usuário. Mas havia um segundo problema a resolver, mais difícil do que o financeiro: como fazer com que colaboradores de áreas não técnicas realmente usassem a ferramenta? A resposta foi um trabalho deliberado de cultura. "Treinamento, desenvolvimento das pessoas e showcases para que as pessoas não se desestimulassem ao primeiro uso da ferramenta", descreve Braga. Do ponto de vista técnico, a plataforma foi construída sobre o stack tecnológico já utilizado pela empresa, integrando ferramentas como GitHub, Jira e Confluence, e desenhada para abstrair o modelo de linguagem subjacente. Isso significa que a escolha do LLM (seja Gemini, ChatGPT ou outro) pode ser alterada sem impacto para o usuário final, enquanto os dados permanecem dentro da infraestrutura da Getnet. A segurança, em um setor altamente regulado como o de pagamentos, era um requisito não negociável desde o início. Três estradas para a IA "Todos os nossos projetos são AI driven", afirma Braga sobre o posicionamento da marca. "A IA não é só ferramenta de suporte. É motor de transformação e inovação em cada iniciativa." Ele organiza a adoção de inteligência artificial na Getnet em três frentes distintas, cada uma com lógica e impacto próprios. A primeira frente é o uso pelos times de desenvolvimento. Nesse campo, a empresa habilitou o GitHub Copilot para todos os profissionais de tecnologia e estabeleceu uma parceria com a Cognition para avançar em ferramentas como o Devin e o Windsurf, voltadas à automação mais profunda no ciclo de desenvolvimento. Os resultados já são mensuráveis: "A gente conseguiu exemplos de mais de 30% de capacidade de geração de linhas de código — dependendo de casos de uso específicos, acima de 90%", afirma Braga. A segunda frente é a IA aplicada diretamente ao negócio e ao relacionamento com o cliente final. Aqui, um exemplo central da empresa é o programa Get Heroes: modelos de machine learning identificam clientes com risco de churn e acionam colaboradores para ir a campo, de forma proativa, para resolver os problemas antes que se tornem cancelamentos. A terceira frente é a eficiência operacional. É aqui que os agentes mais proliferaram, muitas vezes a partir da iniciativa das próprias áreas. Rotina agêntica Quando a Getnet abriu o acesso à plataforma, a estratégia inicial foi observar o que as pessoas fariam com ela. De acordo com Braga, “a gente começou a ver áreas que talvez não sejam as nossas áreas core — que estão ali construindo os nossos produtos ou na frente com os nossos clientes —, extraindo valor no seu dia a dia.” Na área de risco, o processo de avaliação de empresas exigia verificar contratos, identificar sócios, cruzar informações com birôs de crédito e avaliar a saúde financeira de outras companhias relacionadas. Era um processo que consumia dias e mobilizava times inteiros. "Hoje a gente carrega esses contratos, integrou esses agentes com os birôs e consegue ter rapidamente a identificação do perfil de uma empresa", conta Braga. "Uma análise de risco que antes levava dias agora a gente faz em minutos." No helpdesk interno, tickets para redefinir senha, resolver problemas de acesso ou destravar uma máquina, por exemplo, que antes exigiam uma ligação, passaram a ser resolvidos por agentes. "Sempre com o mais completo processo de compliance, de segurança de dados, de aspectos regulatórios", ressalva Braga. De acordo com a empresa, cada agente passa por um processo de certificação antes de entrar em operação. Para os técnicos de campo responsáveis pela logística e manutenção de terminais POS (Point of Sale), os manuais de todos os modelos foram incorporados a agentes de suporte. Perguntas que antes dependiam de uma ligação, como configurar determinado modelo de smart POS, agora tem resposta imediata. Outro uso é o preenchimento de RFPs (“Request for Proposal”, ou Solicitação de Proposta). Grandes clientes corporativos costumam enviar questionários extensos pedindo que fornecedores descrevam suas capacidades, funcionalidades, tempos de atendimento e acordos de nível de serviço. "A gente preenche uma RFP em minutos, porque já temos a nossa base de conhecimento carregada em agentes que fazem com que aceleremos esses processos", explica Braga. Nas áreas operacionais voltadas ao atendimento ao cliente, como conciliações, suporte técnico e esclarecimentos sobre precificação, a transição do call center humano para agentes de linguagem natural também representou uma mudança de escala. Substituição ou colaboração? Com o avanço da IA no ambiente corporativo global, uma das preocupações mais frequentes é o aumento nas demissões e a adoção de ferramentas de inteligência artificial como alternativa para redução de custos. A Getnet se posiciona na contramão desse movimento. "Nosso negócio vem crescendo muito, vem expandindo, é muito global", afirma Braga. "Para podermos crescer e entrar em novas geografias, a gente precisa gerar inovação o tempo todo. Para gerar inovação o tempo todo, precisamos de talentos." Nesse quadro, a lógica da substituição não se aplica da mesma forma que em empresas focadas em corte de custos. "O que a gente identificou é que os talentos ocupavam uma parte do tempo deles com atividades mais manuais, de menor valor agregado", diz o executivo. "A IA entrou para fazer aquela conciliação manual, para resolver um problema de ticket de helpdesk, para fazer a análise de um contrato — de forma que a gente possa ter essas pessoas lá na ponta, próximas dos clientes, discutindo o que significa entrar num novo mercado, num novo país." "Você pode ver que a gente não tem layoff, não é visto no mercado dessa forma", afirma Braga. "Olhando para fora, os colaboradores viram um cenário perturbador da IA substituindo pessoas. Dentro de casa, viram o inverso." Mais Lidas

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