Temos menos controle sobre a longevidade do que imaginávamos: 50% da influência vem da genética, diz estudo
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April 5, 2026
Antes, acreditava-se que os genes tinham apenas 20% de influência sobre a longevidade Pexels Uri Alon sempre se intrigou com uma estatística comum: acreditava-se que a longevidade era determinada em cerca de 20% pelos nossos genes. “Isso me fazia pensar: o que são os outros 80%? Seria o estilo de vida? Por que deveríamos estudar os genes para determinar a expectativa de vida se eles não são tão importantes assim? A ideia me incomodava”, disse Alon, um físico que se tornou biólogo de sistemas no Instituto Weizmann de Ciências, em Israel ao The Washington Post. Alon usa modelos matemáticos para entender problemas biológicos complexos. Ele e seus colegas construíram um para reexaminar os fatores que definem a expectativa de vida humana em um estudo publicado na revista Science no início deste ano. Os estudos originais usados para estimar a proporção da longevidade hereditária foram estudos com gêmeos escandinavos do final do século 19. Naquela época, a mortalidade causada por fatores externos era alta — mortes causadas por acidentes, violência ou infecções, que hoje são menos comuns devido à melhoria da nutrição, terapias e higiene. Isso poderia justificar a enorme influência do ambiente nas pesquisas. A equipe de Alon examinou um banco de dados de gêmeos suecos nascidos posteriormente, entre 1900 e 1935, e descobriu que essas mortes por fatores externos mascaravam o componente hereditário da longevidade. Quando aplicaram seu modelo a bancos de dados de gêmeos escandinavos e irmãos de centenários que também viveram até pelo menos 100 anos, o fator hereditário passou a ter um impacto bem maior — cerca de 50%, em vez dos 20% anteriores. Não é que os estudos antigos estivessem errados: eles se concentravam na longevidade em uma época diferente — uma geração nascida entre 1870 e 1900. “Naquela época, as pessoas morriam de pneumonia e tuberculose, e poucas chegavam aos 40 anos”, disse Alon. “Nessa situação, quem se importa com quanto tempo seus pais viveram? Os genes não tinham nenhuma chance.” Nir Barzilai, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Envelhecimento do Albert Einstein College of Medicine, que não participou do estudo, citou seu próprio histórico familiar. Seu avô teve um ataque cardíaco e morreu aos 68 anos. Seu pai teve um ataque cardíaco na mesma idade, mas fez uma cirurgia de ponte de safena tripla e viveu até os 84 anos. “Pai e o filho vivem a mesma quantidade de anos? Não, porque nesse meio tempo acontece o progresso da medicina”, disse Barzilai. Se genética e ambiente têm o mesmo papel na determinação da longevidade, o que isso significa? “Como seres humanos, vivemos vidas muito diferentes das de outros organismos, e a diferença entre você e eu, um rato ou uma baleia-da-groenlândia, ou um pinheiro-de-bristlecone que vive 5.000 anos ou o fermento na massa que vive 13 dias, a verdadeira diferença está nos genes”, disse Morten Scheibye-Knudsen, professor associado de pesquisa sobre envelhecimento na Universidade de Copenhague, que não participou do estudo. Mas, como estudos anteriores sugeriam que a longevidade humana era hereditária em apenas 10 a 30%, “isso de certa forma nos dava a liberdade de imaginar que poderíamos viver até uma idade muito avançada, e que tínhamos controle e éramos senhores do nosso próprio envelhecimento”, acrescentou Scheibye-Knudsen. O novo estudo reformula a discussão, mostrando que tanto a genética quanto o ambiente são importantes. Thomas Perls, pesquisador de longevidade da Universidade de Boston e diretor fundador do Estudo de Centenários da Nova Inglaterra, concorda que a genética desempenha um papel importante na expectativa de vida, mas afirma que isso depende da idade em questão. Nos extremos da velhice — pessoas que vivem até os 105 ou mesmo 110 anos —, a genética desempenha um papel importante na expectativa de vida. Mas Perls cita um estudo de 2018 publicado na revista Circulation que sugere que, mesmo sem ganhar na loteria genética, uma pessoa comum provavelmente pode chegar aos 88 anos, se for homem, e aos 93 anos, se for mulher. Isso depende da adoção de bons hábitos de saúde. Ele também observa que as vantagens socioeconômicas contribuem — acesso a cuidados de saúde, educação e alimentação saudável. “Acredito que o ser humano médio e sua composição genética média proporcionam resiliência e resistência ao envelhecimento, mais do que se pensava no passado”, disse Perls. Alon considera isso um “ponto de ajuste genético”. A idade que nossos pais e avós tinham quando morreram influencia a probabilidade de vivermos por mais tempo. Hábitos saudáveis podem acrescentar anos à vida, mas o benefício é menos pronunciado do que o de maus hábitos, que podem reduzir décadas da expectativa de vida. Para os cientistas que buscam genes relacionados à longevidade, as novas evidências ressaltam a urgência de investigar os mecanismos biológicos por trás da longevidade. Uma compreensão mais profunda das centenas de pequenas variações genéticas que influenciam a expectativa de vida pode fornecer alvos para medicamentos que atuem no processo de envelhecimento. Embora diversos cientistas da área da longevidade tenham apresentado números diferentes sobre quantos anos uma vida saudável pode acrescentar à trajetória de vida de uma pessoa, de cinco a 20, todos concordaram que há alguma influência no sistema. O que é mais claro é que comportamentos não saudáveis podem reduzi-la drasticamente. “Qual é o seu ponto de partida? Na verdade, você não sabe. Não temos como medir isso”, disse Scheibye-Knudsen. “Então, infelizmente, ou felizmente, isso significa que você não deve fumar, deve beber com moderação e comer vegetais.”
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