Conheça o músico que compõe canções usando apenas o pensamento
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April 1, 2026
Com seis chips implantados no cérebro, o psicólogo e músico americano Galen Buckwalter, 69 anos, aprendeu a compor músicas usando apenas o pensamento. A tecnologia, desenvolvida em parceria com pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), representa um passo além das aplicações tradicionais das interfaces cérebro-computador (sigla BCI, do inglês brain-computer interface), que até agora se concentravam sobretudo na recuperação de funções motoras e de comunicação, relata a Wired. Buckwalter é quadriplégico desde os 16 anos, quando um acidente de mergulho o deixou paralisado do pescoço para baixo. Em 2024, aceitou participar de um estudo clínico no Caltech e recebeu os implantes fabricados pela empresa Blackrock Neurotech. Os dispositivos, conhecidos como "arranjos de Utah", registram a atividade elétrica dos neurônios e decodificam a intenção de movimento, o que permite a Buckwalter controlar um computador com o pensamento e recuperar parte da sensação nas mãos. Do laboratório ao estúdio A aplicação musical surgiu de uma iniciativa do próprio Buckwalter. Ainda antes da cirurgia, ele havia manifestado ao time do Caltech o interesse em explorar os sons produzidos pela atividade neural do seu próprio cérebro. O estudante de doutorado Sean Darcy desenvolveu, nos fins de semana e fora do horário acadêmico, um algoritmo que traduz a intenção de movimento em tons musicais. Cada neurônio tem uma taxa de disparo basal, um nível de atividade elétrica em repouso. Quando Buckwalter pensa em mover um dedo, por exemplo, determinados neurônios se ativam acima desse limiar, e o software associa essa variação a um tom específico. Aumentar a ativação eleva o pitch; suprimi-la faz o som cair. Atualmente, ele consegue controlar dois tons simultaneamente: pensar em mover o indicador produz um som, pensar no dedo mínimo produz outro. Os seis implantes têm 64 canais cada, totalizando 384 canais de registro simultâneo. Nem todos estão disponíveis em todas as sessões: a atividade neural pode variar de um dia para o outro, o que exige recalibração constante antes de cada uso. Punk feito com neurônios Buckwalter é integrante da banda de punk rock Siggy, sediada em Los Angeles, da qual faz parte há 29 anos. Alguns dos tons criados no laboratório foram incorporados a uma música chamada "Wirehead", também título do álbum mais recente da banda, lançado em 15 de março deste ano. A faixa é descrita como uma reflexão sobre as possibilidades das interfaces cérebro-computador. A próxima etapa, segundo ele, é avançar em direção a uma configuração mais próxima de um DJ, com loops rítmicos sobre os quais ele possa sobrepor melodias. Darcy também desenvolveu uma espécie de teclado virtual: o tom só é acionado quando a ativação neural ultrapassa um determinado limiar, funcionando de forma semelhante a pressionar e soltar uma tecla. Uma crítica ao modelo acadêmico Para além da novidade tecnológica, Buckwalter tem uma opinião sobre como a pesquisa em BCI deveria evoluir. Na entrevista à Wired, ele criticou o que chama de excesso de foco funcional nas pesquisas acadêmicas: a maior parte dos estudos se concentra em restaurar movimento e comunicação, sem considerar o que os participantes gostariam de fazer com a tecnologia, além das necessidades básicas. "Os pesquisadores têm seus experimentos e não estão realmente dizendo: 'Ei, como podemos trabalhar com você para tornar sua vida mais interessante?'", disse ele à publicação. Para Buckwalter, a experiência subjetiva do usuário, o prazer, a motivação, a criatividade, precisam não apenas ser considerados, mas guiar o desenvolvimento das próximas gerações de dispositivos. "Para que essa tecnologia realmente avance, as pessoas precisam amá-la." A dimensão criativa das BCIs não é inteiramente nova. Em 2023, uma exposição na sede da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Washington, exibiu obras digitais criadas mentalmente por outros portadores de implantes neurais. Mas o caso de Buckwalter acrescenta uma camada inédita: a integração da produção neural com a linguagem do rock, em um álbum disponível ao público. Mais Lidas
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