External Publication
Visit Post

Por que o chocolate está tão caro?

Home | Época Negócios [Unofficial] March 30, 2026
Source
Quem planeja encher a cesta de ovos de Páscoa este ano vai sentir no bolso o peso de uma crise que começou nas lavouras africanas e atravessou toda a cadeia produtiva do chocolate. Mesmo com o preço do cacau recuando no mercado internacional, o produto nas prateleiras brasileiras segue caro e deve continuar assim ao longo do primeiro semestre. De acordo com o IBGE, o chocolate em barra e o bombom acumulam alta de 26% em 12 meses na prévia da inflação de fevereiro. Nos Estados Unidos, o cenário é igualmente pressionado: os preços do chocolate subiram 14,4% nas primeiras semanas de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior, quase dobrando o ritmo de aumento registrado no início de 2025, segundo a empresa de inteligência de mercado Datasembly, conforme reportagem da ABC News. A crise que começou no campo africano Para entender por que o chocolate ficou tão caro, é preciso voltar a 2024. A alta nas prateleiras é reflexo de uma forte queda na colheita de cacau ocorrida simultaneamente no Brasil e nos principais países produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana. As lavouras sofreram com os efeitos do El Niño, que alternou secas e chuvas fora de época, além de pragas e doenças que comprometeram a produção. A África Ocidental responde por cerca de 70% do cacau produzido no mundo, segundo analistas consultados pelo ABC News, o que torna qualquer instabilidade na região um problema de escala global. Com Brasil e África produzindo abaixo do esperado ao mesmo tempo, os preços domésticos subiram ainda mais rápido do que os internacionais em 2024. O impacto nas cotações foi expressivo. Em janeiro de 2025, o preço do cacau atingiu US$ 10 mil (R$ 50 mil) por tonelada na Bolsa de Nova York (considerando a média mensal), ante cerca de US$ 4 mil um ano antes. Para efeito de comparação, antes da pandemia de Covid-19, a tonelada oscilava entre US$ 2 mil e US$ 2.500, conforme dados do Fundo Monetário Internacional. Por que a queda do cacau não chega ao consumidor Nos últimos meses, a situação no campo começou a se normalizar. Os problemas de oferta arrefeceram, e o preço do cacau recuou consideravelmente em relação ao pico. A tonelada está atualmente em torno de US$ 3.700, segundo o ABC News. No Brasil, as cotações também cederam, movimento associado à recuperação das colheitas nacionais e africanas e ao aumento das importações com a queda do dólar,. O problema é que esse alívio na matéria-prima não se reflete imediatamente no preço final. A indústria trabalha com compras antecipadas: fabricantes adquirem manteiga e pó de cacau das moageiras com seis a doze meses de antecedência. Os ovos desta Páscoa, portanto, foram produzidos com cacau comprado quando os preços ainda estavam nas máximas, entre US$ 6 mil e US$ 10 mil por tonelada pelos subprodutos. Há ainda outro fator no caminho entre a queda do cacau e o alívio no caixa do consumidor: a recuperação de margens pela indústria. O setor atravessou anos de lucros comprimidos pelo déficit global de cacau e, agora que os custos começam a ceder, está priorizando a recomposição financeira antes de repassar qualquer redução ao consumidor. A suspensão das importações da Costa do Marfim No meio desse cenário, o governo brasileiro adicionou uma variável ao mercado: o Ministério da Agricultura suspendeu temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim, alegando risco de introdução de pragas e doenças. O país africano é o maior produtor mundial de cacau e respondeu por 81% do volume importado pelo Brasil em 2025,. A justificativa oficial aponta para a possibilidade de que grãos de países vizinhos sem autorização para exportar ao Brasil (como Libéria e Guiné) estejam sendo misturados aos lotes marfinenses. A suspensão das importações não deve provocar desabastecimento nem pressionar os preços, já que a demanda da indústria por cacau segue enfraquecida. O mercado brasileiro é majoritariamente abastecido pela produção nacional, e o Equador (com safra robusta em 2025) pode suprir eventuais lacunas. O alívio deve chegar, mas exige paciência. A queda nos supermercados deve ocorrer a partir do segundo semestre de 2026, à medida que os estoques comprados a preços elevados forem sendo substituídos por insumos mais baratos. Mais Lidas

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...