Pessoas têm mais medo das alucinações da IA do que de perder o emprego para a tecnologia, diz pesquisa da Anthropic
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March 23, 2026
Pesquisa ouviu usuários do Claude Getty Images A Anthropic, empresa americana criadora do chatbot Claude, divulgou o que descreve como o maior estudo qualitativo já realizado sobre o uso de IA por pessoas reais. Conduzida em dezembro do ano passado, a pesquisa coletou respostas de 80.508 usuários em 159 países e 70 idiomas. Os resultados mostram um retrato mais complexo do que o discurso corporativo sobre IA costuma apresentar. O levantamento foi realizado por meio do Anthropic Interviewer, uma versão do Claude adaptada para conduzir entrevistas estruturadas em formato de conversa, segundo o site EdTech Innovation Hub. A presidente da Anthropic, Daniela Amodei, destacou o projeto em publicação no LinkedIn: "Este é um dos meus projetos favoritos, porque revelou o que as pessoas querem da IA." Os medos não somem com os benefícios Entre as preocupações mais citadas, a principal foi a falta de confiabilidade nas respostas da IA, mencionada por 26,7% dos participantes. Em segundo lugar vieram os impactos sobre empregos e a economia (22,3%), seguidos por questões de autonomia e agência (21,9%). Também apareceram com frequência: deterioração cognitiva, desinformação, privacidade, uso malicioso e dependência excessiva dos sistemas. Um trabalhador no Brasil relatou ter precisado tirar fotos para convencer a IA de que ela estava errada e descreveu a experiência como "falar com uma pessoa que não admite o próprio erro". O que o estudo destaca é que essas preocupações não substituem as experiências positivas: elas coexistem. Um mesmo usuário pode valorizar a IA para aprender algo novo e, ao mesmo tempo, se preocupar com o fato de estar pensando menos por conta própria. Na área de educação, esse contraste é especialmente nítido: 33% dos respondentes mencionaram benefícios de aprendizado, enquanto 17% levantaram o risco de atrofiar as próprias habilidades cognitivas. O mesmo paradoxo aparece nas relações emocionais com a ferramenta. Um trabalhador na Argentina relatou usar a IA às 3h da manhã, enquanto a esposa dorme e o psicólogo está indisponível. Um estudante de pós-graduação nos Estados Unidos admitiu ter começado a contar ao Claude coisas que não contava nem ao parceiro. Produtividade é só o começo Quando os pesquisadores agruparam as respostas por objetivo principal, o maior bloco foi o de "excelência profissional", mencionado por 18,8% dos participantes. Mas o que chama atenção é o que vem logo atrás: "transformação pessoal" (13,7%), "gestão da vida" (13,5%) e "liberdade de tempo" (11,1%). Independência financeira, empreendedorismo, aprendizado e expressão criativa também apareceram com destaque. O padrão que emerge não é o de um usuário que quer apenas fazer mais em menos tempo. Muitas respostas começam falando em ganho de eficiência, mas rapidamente migram para questões de qualidade de vida: menos sobrecarga mental, mais horas fora do trabalho, melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Um trabalhador de colarinho branco na Colômbia disse, conforme relatado no estudo, que graças à IA conseguiu sair mais cedo do trabalho numa terça-feira para cozinhar com a mãe. Um freelancer no Japão afirmou querer "gastar menos energia mental com problemas de clientes" para ter tempo de ler mais livros. Aprendizado como tema central Um dos achados mais consistentes da pesquisa é o papel da IA como ferramenta de aprendizado, especialmente para pessoas que, por diferentes razões, se sentiam excluídas do acesso ao conhecimento formal. Entre os entrevistados que disseram que a IA já os ajudou a avançar em seus objetivos, 81% do total, 17% descreveram o sistema como um "parceiro cognitivo" e quase 10% citaram desenvolvimento de habilidades e aprendizado. Outros 8,7% falaram em acessibilidade técnica: a IA permitiu que realizassem tarefas que antes estavam fora de seu alcance. Um estudante na Índia relatou que seu professor ensina 60 alunos e não tem tempo para responder perguntas individualmente; com a IA, ele pode perguntar qualquer coisa, inclusive "as perguntas bobas", às 2h da manhã. Um advogado também na Índia contou que superou o medo de matemática e de Shakespeare usando a ferramenta para traduzir textos difíceis em linguagem simples. Um trabalhador nos Estados Unidos disse que a IA consegue "ler além" de seu transtorno de aprendizagem, permitindo que ele programasse pela primeira vez. Casos como esses aparecem em número significativo no estudo. Um engenheiro de software na Ucrânia relatou que aprendeu as linguagens de programação C# e SQL com ajuda do Claude, o que lhe garantiu uma vaga em empresa de tecnologia e, com ela, diferimento do serviço militar obrigatório. O mundo não vê a IA da mesma forma A pesquisa também mapeia diferenças regionais relevantes. No geral, 67% dos respondentes expressaram sentimentos positivos em relação à IA. Mas esse número varia bastante conforme a localização geográfica. Usuários na América do Sul, na África e em partes da Ásia tendem a demonstrar mais otimismo. Nos Estados Unidos e na Europa, as preocupações, especialmente sobre impacto no mercado de trabalho, são mais frequentes. A explicação sugerida pelo estudo é que, em economias de renda média e baixa, a IA é vista como um caminho de acesso a oportunidades. Já em mercados mais desenvolvidos, o foco tende a recair sobre como lidar com complexidade, sobrecarga e pressão por desempenho. A Anthropic resume os resultados com uma expressão que diz ser parte de sua cultura interna: "luz e sombra". A mesma tecnologia que amplia o acesso ao conhecimento também pode criar dependência. A que economiza tempo pode gerar mais expectativas sobre produtividade. A que oferece suporte emocional pode fragilizar vínculos humanos. Daniela Amodei sintetizou essa dualidade ao comentar o estudo: "A IA está ajudando e inspirando pessoas, mas também causando alarme." Mais Lidas
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