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Ela evitou que 20 mil toneladas de alimentos fossem para o lixo, ajudou 2 milhões de brasileiros e quer ir muito mais longe

Home | Época Negócios [Unofficial] March 13, 2026
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Alcione Pereira tem um sonho – e um sonho grande. Ela quer ajudar o Brasil a diminuir drasticamente o desperdício de alimentos. Consequentemente, ela quer ver o país se tornar um lugar com menos fome, talvez até sem fome alguma. Para transformar esse propósito em ação concreta, fundou a Connecting Food, startup especializada em estruturar soluções para reduzir o desperdício e redistribuir alimentos a quem precisa. Desde 2017, a empresa salvou mais de 20 mil toneladas de alimentos, impactou mais de 2 milhões de brasileiros e complementou mais de 37 milhões de refeições. Para Alcione, no entanto, os números não representam um ponto de chegada, mas apenas o início de uma transformação que ela considera urgente. Engenheira de alimentos de formação, Alcione construiu uma trajetória clássica no mercado corporativo. Trabalhou em multinacionais, morou fora do Brasil e atuou em áreas como tecnologia, supply chain, logística e operações industriais. Era uma carreira sólida, bem-sucedida e previsível. Até deixar de ser. “No meio da minha vida profissional, comecei a ter algumas crises existenciais. Teve um momento mais crítico”, afirma. A virada começou em 2015, durante uma palestra sobre sustentabilidade. Um dado ficou martelando: um terço de todos os alimentos produzidos no mundo é desperdiçado. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas passam fome, inclusive no Brasil. “Essa informação virou um gancho na minha cabeça.” No fim daquele ano, um grande layoff na empresa onde trabalhava acabou acelerando o que já parecia inevitável. “Eu já dava sinais de que não queria continuar no corporativo. Saí e começou minha jornada. Eu sabia que não voltaria, mas não fazia ideia do que faria. Foi um salto no escuro.” Em 2016, surgiu a oportunidade de ingressar em uma escola de formação em empreendedorismo de impacto social. Foi ali que nasceu a ideia da Connecting Food: conectar alimentos excedentes, que perderam valor comercial, mas seguem próprios para consumo, a organizações sociais que atendem pessoas em vulnerabilidade. Antes de criar qualquer solução, Alcione decidiu entender profundamente o ecossistema. Fez um amplo mapeamento do desperdício de alimentos no Brasil, identificando quem atuava na área, quais eram os gargalos operacionais, os entraves legais e as oportunidades de integração. Passou a frequentar eventos, conversar com especialistas e se aproximar de organizações que já trabalhavam com o tema. Desse movimento surgiram oportunidades de consultorias técnicas para instituições como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e o MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome). Alcione também participou da construção da Estratégia Nacional de Redução do Desperdício de Alimentos do MDS e passou a integrar iniciativas como o Pacto Contra a Fome. “Estávamos ajudando a estruturar o ambiente para que a doação de alimentos pudesse acontecer de forma segura e em escala”, afirma. A primeira grande aplicação prática veio com um piloto no Grupo Pão de Açúcar. Três lojas participaram do teste de um sistema de conexão tecnológica para doação estruturada de alimentos. Funcionou. Em 2018, veio o primeiro contrato para a gestão da redistribuição em 57 lojas na cidade de São Paulo. Pouco tempo depois, a operação se expandiu. Entre 2018 e 2020, a Connecting Food já operava em mais de 370 lojas do grupo, estruturando processos, criando protocolos e consolidando um modelo replicável. “Ali a gente ganhou corpo na temática de redução de desperdício de alimentos.” Em 2021, a startup deu um passo além ao cofundar, com o iFood, a coalizão Todos à Mesa, iniciativa que mobilizou empresas e governos para fomentar a doação de alimentos e fortalecer políticas públicas. Durante quase três anos, o movimento lançou estudos, articulou iniciativas estaduais e desenvolveu projetos com governos locais, como em Alagoas. A atuação também se expandiu para grandes indústrias e varejistas, incluindo Danone, Camil, Unilever, PepsiCo, Carrefour e Assaí Atacadista. Mais recentemente, a Connecting Food firmou parceria com a WWF Brasil para ampliar sua atuação em sustentabilidade e combate ao desperdício. Como funciona Hoje, a Connecting Food está presente em mais de 320 cidades brasileiras, com mais de mil pontos de gestão de redistribuição e cerca de 700 organizações sociais atendidas. O modelo combina governança, operação e tecnologia. Quando entra em uma rede, a empresa revisita políticas internas, processos e protocolos, já que a doação de alimentos exige critérios jurídicos, sanitários e logísticos rigorosos. Também realiza a análise documental das organizações sociais, garantindo conformidade legal e capacidade operacional. A conexão acontece em diversos formatos, como lojas com organização social, restaurante com instituição parceira, empresas com bancos públicos de alimentos. “A nossa função é conseguir comida para as organizações sociais e fazer essa gestão acontecer”, diz. A tecnologia é a espinha dorsal dessa operação. A startup nasceu nas planilhas de Excel, evoluiu para aplicativos próprios, sistemas de gestão e plataformas integradas. Hoje, a gestão da rede acontece por meio de sistemas digitais e ERPs que monitoram doações, fluxos logísticos e indicadores de impacto. Nos últimos anos, a inteligência artificial acelerou esse processo. “A gente teve um salto gigante. Conseguimos fazer desenvolvimentos cada vez mais rápidos e eficientes, melhorar gestão, acessibilidade e acompanhamento. A tecnologia sempre esteve com a gente, mas agora estamos em outro patamar.” O modelo de negócio combina prestação de serviços para grandes empresas, captação de recursos via editais e prêmios e consultoria técnica e inteligência de dados para empresas, associações e poder público. Captação de investimento também está no radar. “Já conversamos com fundos de impacto, fundos com retorno financeiro e socioambiental. Ainda não fechamos, mas é um tema que está sempre na mesa”, diz. Os planos para 2026 são ambiciosos. A meta é triplicar a estrutura de redistribuição, saindo de cerca de 1,2 mil para 4 mil pontos de gestão. A empresa também quer ampliar o movimento Brasil Sem Desperdício, expandindo o número de empresas comprometidas com a cultura da doação e com a implementação de políticas públicas na área. A parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social entra em nova fase, com foco na execução de planos de ação e expansão da carteira de clientes. Para Alcione, a urgência do tema é incontornável. O desperdício de alimentos é uma das maiores ineficiências do sistema alimentar global. No Brasil, toneladas de alimentos próprios para consumo são descartadas diariamente, enquanto milhões vivem em insegurança alimentar. Depois de uma década dedicada à pauta, Alcione enxerga o momento como decisivo. “É uma missão de vida. Tenho o sonho de ver 100% dos varejistas brasileiros doando alimentos. Quero muito deixar esse legado.” Clayton Rodrigues Mais Lidas

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