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Exame de sangue para detectar câncer precocemente decepciona em estudo clínico

Home | Época Negócios [Unofficial] February 20, 2026
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Um dos exames de detecção precoce de câncer mais aguardados pela comunidade médica e pelo mercado de saúde fracassou em seu objetivo principal. A empresa americana Grail divulgou que seu teste de sangue, chamado Galleri, não demonstrou redução significativa nos casos diagnosticados em estágios avançados da doença em um grande estudo clínico conduzido no Reino Unido. O resultado frustrou expectativas que vinham sendo construídas há anos e que chegaram ao grande público quando o produto foi exibido em um anúncio durante o Super Bowl, neste mês. O Galleri é um tipo de exame que analisa o sangue em busca de fragmentos microscópicos de DNA de células cancerígenas. Segundo a Grail, o teste é capaz de rastrear mais de 50 tipos diferentes de câncer a partir de uma única coleta. A promessa central dessa categoria de exames, conhecida como teste de detecção múltipla de câncer, é identificar a doença em fase inicial, quando as chances de tratamento bem-sucedido são maiores. Hoje, os exames de rastreamento convencionais cobrem apenas alguns tipos de câncer, como mama, cólon, colo do útero e próstata. A maioria das mortes por câncer, no entanto, ocorre em pacientes com tumores para os quais não há triagem de rotina disponível, daí o enorme interesse em testes como o Galleri. Exame não cumpriu seu objetivo principal O ensaio clínico foi conduzido em parceria com o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) e acompanhou 142 mil adultos saudáveis entre 50 e 77 anos ao longo de três anos. Os participantes tiveram amostras de sangue coletadas em três ocasiões, com intervalo de aproximadamente um ano entre cada coleta. Uma parte do grupo foi submetida ao teste Galleri; a outra, não. O critério principal de sucesso do estudo era verificar se o uso do exame reduzia a proporção de casos diagnosticados nos estágios 3 e 4, quando o câncer já se espalhou para regiões próximas ou para outras partes do corpo. Esse resultado não foi alcançado. Em conversa com analistas financeiros, executivos da Grail reconheceram o insucesso no objetivo central, mas destacaram outros dados do estudo. "É absolutamente correto dizer que não atingimos o objetivo primário", afirmou Harpal Kumar, diretor científico da empresa. "Mas o que observamos foi um benefício clínico muito convincente." Kumar citou uma redução nos casos em estágio 4 como um resultado positivo, embora esse não fosse o foco principal do ensaio. Os resultados chegam em um momento delicado para a Grail. O produto é vendido nos Estados Unidos desde 2021 a US$ 949 (R$ 4.900) por teste, sem aprovação da agência reguladora americana, a FDA (equivalente à Anvisa no Brasil). A empresa se beneficia de uma brecha regulatória que permite a comercialização de certos exames laboratoriais sem revisão prévia do órgão. Até agora, foram vendidos quase 500 mil testes, sendo mais de 185 mil só no ano passado. A maioria dos consumidores paga do próprio bolso, pois poucos planos de saúde cobrem o exame. A Grail fez forte pressão política para ampliar o acesso ao produto. No início de fevereiro, o presidente Donald Trump assinou um pacote orçamentário que autoriza o Medicare, o sistema público de saúde americano para idosos, a cobrir exames de detecção de câncer. O Galleri pode estar entre os produtos elegíveis, mas a cobertura não é automática: depende de aprovação regulatória adicional. A empresa também protocolou um pedido formal de aprovação junto à FDA. O resultado negativo do estudo britânico, porém, pode complicar essa tramitação e tornar os reguladores mais cautelosos em relação ao produto. Por que detectar câncer cedo nem sempre é suficiente O insucesso do Galleri no estudo expõe uma questão mais ampla que a comunidade científica já debatia: detectar um câncer mais cedo não garante, por si só, que o paciente viverá mais. Há casos em que o diagnóstico antecipado leva a tratamentos desnecessários ou a estresse sem benefício real para a sobrevida. Há também o risco oposto: exames que não detectam um câncer presente podem criar uma falsa sensação de segurança, levando pessoas a abandonar rotinas de rastreamento já estabelecidas, como mamografias e colonoscopias. Esses fatores tornam o desenvolvimento e a validação de testes dessa natureza especialmente complexos e reforçam a importância de estudos clínicos rigorosos antes da adoção em larga escala. A Grail informou que apresentará dados mais detalhados do estudo em um congresso de oncologia ainda este ano. Mais Lidas

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