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"textContent": "\nEm 2019, à espera da segunda filha, Mari Pompeu, 43 anos, acompanhava o tratamento da primogênita, diagnosticada com um tumor cerebral aos 2 anos. Durante meses, a rotina da mineira alternava entre hospitais, consultas médicas e os preparativos para a chegada do bebê. Com câncer, mulher se emociona ao ver sua mãe e sua filha raspando a cabeça junto dela A família ainda alimentava esperança de cura. Mas, apenas quatro dias após o nascimento de Juliana, Gabriela morreu. Entre a alegria pelo nascimento de Juliana e a dor da despedida da filha mais velha, Mari precisou reconstruir a própria trajetória em meio ao luto. Anos depois, essa história deu origem ao livro Esperar Nunca Fez Tanto Sentido, em que compartilha reflexões sobre fé, perda e recomeços. \"Eu precisava me despedir da minha primeira filha ao mesmo tempo em que me alegrava com uma nova vida chegando. Foi uma montanha-russa de sentimentos\", conta. A seguir, ela relembra como tudo aconteceu e os caminhos que encontrou para seguir após a morte da filha. Grávida, com a primogênita e o marido Mari Siqueira/Arquivo pessoal Um diagnóstico inesperado Os primeiros sinais de que algo não estava bem surgiram de forma discreta. Em uma manhã, ao se preparar para ir ao trabalho, Mari percebeu que Gabriela, então com 2 anos, tinha dificuldade para abrir uma caixinha de cotonetes com a qual costumava brincar todos os dias. “Era algo muito sutil, mas meu coração de mãe estranhou. Além dessa dificuldade com a mão direita, eu já havia percebido que ela estava andando de um jeito diferente. Gravei um vídeo e enviei para uma colega, cujo filho fazia residência em neurocirurgia. Assim que ele viu, orientou que a levássemos imediatamente a um pronto atendimento\", recorda. Até aquele momento, Gabriela era uma criança saudável, com desenvolvimento dentro do esperado e cheia de energia. Por isso, a suspeita de câncer foi um choque para a família. A hipótese acabou sendo confirmada. Com o diagnóstico em mãos, a rotina passou a ser marcada por exames, internações e tratamentos. \"Enquanto eu acompanhava sessões de radioterapia e quimioterapia, havia uma bebê crescendo dentro de mim.. Precisei equilibrar sentimentos que pareciam impossíveis de conviver, como a alegria de uma vida que chegava e a angústia de ver a doença da minha filha mais velha avançar. Eu esperava uma filha nascer enquanto tentava salvar a outra\", diz. A espera Mari Siqueira/Arquivo pessoal Quatro dias entre a chegada e a partida Mari, que é cirurgiã-dentista por formação, conta que um dos momentos mais difíceis de todo o processo aconteceu ao receber o laudo médico e compreender a gravidade do diagnóstico. \"Costumo dizer que meu luto começou ali, mesmo antes da partida da Gabi. Quando perguntavam sobre sua saúde, eu evitava detalhes porque sentia que, se contasse exatamente o que estava acontecendo, faria com que todos sentissem aquela mesma dor\", recorda. Pai é demitido após faltar ao trabalho para ficar com o filho na UTI: \"Desesperador\" Em março de 2019, a família viveu dias que ficarão para sempre marcados em sua memória. Juliana nasceu após uma gestação marcada por consultas, tratamentos e incertezas sobre a vida da irmã. Quatro dias depois, Gabriela morreu. Mari se refere àquele momento como um \"encontro de almas\". Para ela, a filha mais velha esperou a chegada da irmã antes de partir. “Vivi cada etapa com todo o amor que eu tinha. Não precisei escolher entre uma filha e outra. Mesmo grávida, estive presente. Passei dias e noites na cadeira do hospital, acompanhando tudo de perto. Hoje, sinto que aconteceu como deveria acontecer, ainda que isso não diminua a dor”, afirma. Transformando a dor em palavras Por anos, Mari evitou falar publicamente sobre o que havia vivido. Quando tentou escrever pela primeira vez, não conseguiu avançar. \"Reviver tudo com tantos detalhes parecia intenso demais. Era como tocar de novo em uma dor que eu havia aprendido a carregar com cuidado\", relembra. Com a filha Mari Siqueira/Arquivo pessoal Segundo ela, a obra nasceu da vontade de compartilhar não apenas os momentos difíceis, mas também a fé, os laços fortalecidos e o amor que permaneceu após a perda. “A ideia era ser uma ponte, especialmente para outras mães que viveram o luto materno. Mostrar que a saudade permanece, mas que o amor também continua presente. Foi a forma que encontrei de dar um novo significado à dor”, destaca. O legado de Gabriela Ao olhar para trás, Mari diz que uma das maiores lições deixadas por Gabriela foi a importância de viver o presente e valorizar os momentos simples do cotidiano. \"Ela me ensinou a ter coragem de viver. Gabi viveu dois anos e quatro meses de uma forma tão intensa, tão inteira, que hoje eu não posso desperdiçar um minuto sequer\", completa. Ao compartilhar sua trajetória, Mari também espera acolher outras mães que enfrentam a perda de um filho. Para ela, a saudade não desaparece, mas o amor encontra novas formas de seguir presente. \"O vínculo com um filho não termina com a ausência física. Hoje, eu só sou a mulher e a mãe que me tornei por causa dela. Eu honro a Gabi vivendo e acredito que ela se orgulha de me ver nesse lugar. Sinto a presença dela viva dentro de mim”, conclui. Livro \"Esperar Nunca fez tanto sentido\" Divulgação",
"title": "“Esperava uma nascer enquanto tentava salvar a outra”, conta mãe que perdeu filha de 2 anos para o câncer"
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