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"textContent": "\nQuando decidiu adiantar o horário de colocar as filhas na cama, a fisioterapeuta Fernanda Veloso de Matos, de 45 anos, enfrentou reações diferentes. “A mais velha quis entender tudo, perguntou o porquê, tentou argumentar e até negociar mais alguns minutos acordada. Já a mais nova aceitou, deitou e dormiu”, conta a mãe de Rafaela, 9, e Manuela, 6. Esse é só um exemplo da vida real que tantos pais com mais de um filho passam no dia a dia: embora os pais e as regras da casa sejam os mesmos, cada criança interpreta e responde à sua maneira. As comparações são inevitáveis, e começam cedo. No início, envolvem as características físicas, logo após a chegada do irmãozinho, como o peso e a altura de cada um. Depois se estendem para os marcos do desenvolvimento, quando os pais (e o resto da família) comparam quem andou, falou ou desfraldou antes... O que a ciência diz sobre as diferenças entre os irmãos Magnific E, à medida que os irmãos crescem, englobam também a personalidade das crianças. Tem o mais obediente, o mais levado... a mais extrovertida, a mais tímida... “Vivemos em uma sociedade baseada em comparações. Na escola, temos as notas como referência. No trabalho, os salários. As redes sociais potencializam esse comportamento. Atualmente, comparamos até mesmo estilos de vida. Não é, portanto, algo exclusivo dos pais”, explica o psicanalista e educador parental Thiago Queiroz, autor de O Poder do Afeto (Editora Fontanar), entre outros livros. Isso ajuda a redimir a culpa, claro, mas não anula os efeitos da comparação. “Ainda que os pais comparem as crianças de maneira espontânea, com boas intenções, do ponto de vista do desenvolvimento emocional, porém, podem surgir consequências negativas”, afirma o psiquiatra Roberto Santoro, coordenador do Grupo de Trabalho de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Começando pelos rótulos... Profecias autorrealizáveis Ao reforçar repetidamente determinadas características, as famílias acabam atribuindo papéis às crianças sem perceber. Sejam positivos ou negativos, esses rótulos podem “aprisionar” quem os recebe. “A criança tende a acreditar que, para ser aceita e amada, necessariamente tem de se comportar da maneira que os pais esperam”, afirma o psicanalista Thiago Queiroz. “E como os pais são a sua principal referência, esses rótulos podem se transformar em uma profecia autorrealizável”, completa. Na prática, isso significa que a criança chamada de preguiçosa pode desistir de mudar, por exemplo. Já aquela que internalizou um rótulo “positivo”, como a que só tira notas altas, pode viver com medo de falhar. Em ambas as situações, eles limitam a individualidade da criança. “Não podemos esquecer que o esforço, muitas vezes, ultrapassa o talento. Se uma das crianças gosta de música, mas não tem tanta habilidade quanto o irmão, não há por que não incentivá-la. Foi o que aconteceu na minha casa, com meu filho caçula, que se tornou um exímio pianista. Temos de permitir, portanto, que as crianças encontrem seus próprios caminhos”, exemplifica Roberto Santoro, da SBP. A educadora Luciana Brites, CEO do Instituto Neurosaber (PR), concorda. “O rótulo é a comparação que ‘pegou’”, diz. E vai além. “Quando rotulamos as crianças, estamos validando um comportamento específico. Como se aquela característica a definisse, enquanto, na verdade, ela faz parte de um todo”, acrescenta. Luciana ressalta ainda que, mesmo quando não viram rótulos, as comparações afetam os vínculos familiares. “Em vez de aliados, os irmãos passam a disputar a atenção dos pais. E esse ressentimento, infelizmente, pode se estender para além da infância.” O lado bom da comparação Sim, ele existe. Quem afirma é a psicóloga e pesquisadora Laurie Kramer, professora da Universidade Northeastern, nos Estados Unidos. “Depende do tipo de comparação. Muitas vezes, os pais estão apenas pontuando as diferentes qualidades e preferências das crianças, e não necessariamente julgando que uma é melhor do que a outra. Talvez um dos filhos seja um excelente atleta, enquanto o outro é um ótimo artista, e está tudo bem”, explica a especialista, que é referência mundial no tema relacionamento entre irmãos. De acordo com Laurie, diversas pesquisas comprovam que as crianças, e especialmente os adolescentes, desejam ser reconhecidos por suas particularidades. “Eles querem tanto ser vistos quanto tratados como indivíduos únicos, segundo seus interesses”, afirma. Um estudo feito na China, em 2025, com cerca de mil adolescentes, por exemplo, mostrou que expectativas positivas dos pais sobre o desempenho escolar dos filhos tendem a aumentar a motivação das crianças para aprender. Outro ponto importante envolve os marcos do desenvolvimento – habilidades motoras, cognitivas e emocionais esperadas em cada fase. Essas referências, como as curvas de crescimento, existem para orientar profissionais de saúde e famílias. Nesses casos, a comparação pode até ser útil. “Cada criança tem seu ritmo. Se um filho demora mais para falar que o outro, isso não significa atraso, mas sim que essa diferença deve ser investigada. Quanto antes houver intervenção, se necessária, melhor”, explica o pediatra Carlos Corrêa, do Hospital Pequeno Príncipe (PR). Iguais, mas únicos O desafio pode ser ainda maior quando os filhos são gêmeos, segundo os especialistas consultados pela CRESCER. Como são parecidos, estão sempre juntos e, em alguns casos, ainda vestem roupas iguais, eles podem ter dificuldade em exercer a própria subjetividade, alerta Thiago Queiroz. “Por essa razão, as orientações pedagógicas mais atualizadas preconizam que irmãos gêmeos estudem em classes separadas. Ao menos naquele grupo, o primeiro não será somente o irmão do segundo, e sim ele próprio, com seus amigos e suas preferências individuais”, explica o psicanalista. Isso não funcionou com as gêmeas Bia e Branca Feres, 36 anos, ex-atletas de nado sincronizado que ilustram a nossa capa. Apesar dos esforços da mãe para que cada uma tivesse a sua personalidade, elas gostavam mesmo é de estarem juntas e, de preferência, iguais. “Nossa mãe comprava roupas diferentes, mas a gente não gostava (risos). Ela estimulava para que cada uma tivesse a sua vocação, seu esporte... só que a gente sempre gostou de fazer tudo juntas. As comparações não vinham de dentro de casa, mas de fora”, conta Bia, em entrevista exclusiva à CRESCER. Branca completa: “Uma coisa que fez muito a gente querer ficar igual era quando a gente ia para um lugar e as pessoas falavam: ‘Uma mais magra, a outra mais alta. Quem tirou nota melhor? Uma mais introvertida, a outra extrovertida...’. Ficavam comparando, e a nossa defesa era ficarmos iguais. Assim, ninguém falaria que uma é mais ou menos do que a outra”. Mesma casa, mesmas regras? Na tentativa de evitar ciúmes ou injustiças, muitos pais optam por fazer tudo igual: mesmas regras, mesmas oportunidades, mesmas decisões. Criar os filhos dessa forma, ao contrário do que parece, nem sempre é a decisão mais acertada. “Cada um tem a sua maneira de ser, e isso é determinado por uma combinação de fatores biológicos e ambientais, segundo a ciência”, resume o psiquiatra Roberto Santoro, da SBP. Apesar de algumas normas valerem para todos, seja não bater ou desligar as telas durante as refeições, outras precisam ser adequadas à idade, ao desenvolvimento e às necessidades de cada criança. Isso aparece no dia a dia: no horário de dormir, no tempo de telas, nas responsabilidades em casa e na autonomia para sair ou tomar decisões, detalhes que vão sendo renegociados conforme elas crescem. Em outras palavras, as regras podem e devem ser adaptadas – desde que não levem ao favoritismo. O que as próprias crianças não só notam, como geralmente criticam, em frases como “Ele ganhou mais suco do que eu” ou “Não é justo”. “Quando os filhos fazem esse tipo de reclamação, os pais tendem a adotar uma atitude defensiva. As explicações deles podem ser úteis, mas é importante que eles também os escutem. Pode ser que, de fato, os filhos tenham razão”, recomenda a psicóloga Laurie Kramer. O favoritismo parental, embora as famílias custem a admitir, é mais comum do que se imagina. Assim como os rótulos, essa parentalidade diferenciada, como é chamado entre os especialistas, também aumenta a rivalidade entre os irmãos, segundo uma pesquisa feita pela Universidade Waterloo, no Canadá, em 2025. De acordo com Laurie, o olhar dos pais deve ser ainda mais atento quando uma das crianças demanda mais suporte em razão de alguma circunstância especial, como atrasos no desenvolvimento, problemas de comportamento ou condições médicas. Empatia, a base do cuidado Quando o filho caçula nasceu, embora já fosse mãe, a executiva de TI Débora Albuquerque, 49 anos, diz ter adentrado um novo universo. “Um filho com deficiência introduz aos pais inúmeras agendas, assuntos e necessidades até então desconhecidos”, relata a mãe de Cauã, 13, e Benício, 9. “Encontrar um equilíbrio foi desafiador. Mesmo que a gente se policiasse, a atenção pendia para o lado daquele que demandava mais naquele momento”, afirma. Com o tempo, ela aprendeu a diferenciar quais características eram ou não relacionadas à síndrome de Down e, assim, a reconhecer a personalidade de cada filho. “O Benício é mais expansivo, conversa com todo mundo, enquanto o Cauã é mais tímido”, exemplifica. O fato de ganhar mais atenção, tanto por ser mais sociável, quanto por exigir mais cuidados, possivelmente gerou certos medos no irmão mais velho. “Ele não descia do elevador nem ficava em casa sozinho até alguns meses atrás. Mesmo na terapia, não descobrimos exatamente a causa. O mais importante, porém, é que já superou”, comemora Débora. Hoje, sempre que possível, ela e o marido se esforçam para criar momentos exclusivos com o filho mais velho. “Pode ser uma simples ida ao shopping ou uma partida de beach tennis”, conta. Dica que vale para todas as famílias, com crianças de todas as idades, atípicas ou não. “A base do cuidado é a empatia”, resume o psiquiatra Roberto Santoro, da SBP. Fernanda, do início da reportagem, sabe bem disso. “Houve situações em que uma das minhas filhas pedia colo, enquanto a outra, espaço. Elas não precisam ser comparadas, e sim compreendidas”, conclui a mãe de Rafaela e Manuela. Em um mundo que rotula o tempo todo, criar filhos pede outro olhar: menos comparação e mais compreensão. Irmãos crescem juntos, mas é quando são reconhecidos como únicos que cada um pode, de fato, florescer. Igualdade versus equidade Apesar de semelhantes, essas palavras não são sinônimos. A primeira pressupõe tratar todos da mesma forma, oferecendo condições iguais. Já a segunda busca oferecer mais a quem mais precisa, com o objetivo de equilibrar situações desiguais. E por que isso é importante? No contexto educacional, é fundamental considerar as diferentes realidades das crianças, na família ou na escola, como etnia, classe social e orientação sexual, entre outros fatores, a fim de que elas desenvolvam todo o seu potencial. FONTE: Alfabetização: Por onde começar, livro de Luciana Brites (Editora Gente) Cada filho, uma necessidade Apesar de a comparação vir, muitas vezes, de forma automática, é preciso refletir e entender que cada criança precisa e merece ser vista como única. veja como colocar isso em prática no dia a dia. O QUE FAZER Ter momentos individuais com cada filho Nos conflitos, seja o mediador, e não o juiz Ajustar expectativas Descobrir os interesses de cada um O QUE EVITAR Reforçar apenas uma característica (boa ou ruim) da criança Tomar decisões “em bloco”, como dar o mesmo horário de dormir para filhos de idades bem diferentes Frases como “Aprende com ele” ou “Seu irmão conseguiu...”",
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