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"textContent": "\nNa última vez em que atendi presencialmente em São Paulo, uma cena me chamou a atenção logo na sala de espera. Antes mesmo de começarmos as consultas, várias crianças chegaram segurando exatamente a mesma coisa nas mãos: álbuns de figurinhas da Copa. Especialista reflete sobre como os álbuns de figurinha da copa podem ajudar na inclusão de crianças neurodivergentes Reprodução redes sociais/Instagram O autismo não fica na infância: o desafio de crescer em um mundo que ainda não se adapta Algumas queriam me mostrar quantas páginas já tinham completado, outras contavam animadas quantas figurinhas faltavam para terminar uma seleção. Houve quem exibisse orgulhosamente suas repetidas, já planejando as próximas trocas com os amigos. Enquanto observava tudo aquilo, pensei em como a infância continua encontrando formas simples e poderosas de promover desenvolvimento. Porque, quando olhamos para um álbum de figurinhas, é fácil enxergar apenas uma brincadeira. Mas, para quem trabalha diariamente com desenvolvimento infantil, fica claro que existe muito mais acontecendo ali. A magia não está apenas nas figurinhas. Ela está na expectativa de abrir um pacote e descobrir o que veio dentro. Está na alegria de encontrar aquela figurinha que faltava, mas também na decepção quando aparece uma repetida. Está na conversa que surge entre as crianças, nas negociações, nas trocas e até nas pequenas frustrações. Tudo isso faz parte de experiências que ajudam a construir habilidades importantes para a vida. Uma das tarefas mais importantes da infância é aprender a esperar. Vivemos em uma época em que quase tudo acontece instantaneamente. Um clique entrega um vídeo, outro entrega uma compra e outro traz uma resposta para qualquer pergunta. Mas, a vida não funciona dessa forma. O álbum ensina isso de maneira muito natural. Nem sempre a figurinha desejada aparece no primeiro pacote. Nem sempre a coleção avança na velocidade que a criança gostaria. E, justamente por isso, o cérebro vai aprendendo a lidar com a espera, com a expectativa e com a construção gradual de objetivos. Menino passa por cirurgia robótica após diagnóstico de tumor raro, em SP: \"Foi como um renascimento\", diz mãe Aos prantos, mãe faz desabafo sobre o puerpério e chama atenção com recado emocionante A frustação ao colecionar Outro aprendizado valioso está na relação com a frustração. Como psicóloga, costumo dizer às famílias que nem toda frustração precisa ser eliminada da vida de uma criança. Na verdade, uma parte importante do desenvolvimento emocional acontece justamente quando ela aprende que pode se decepcionar e, ainda assim, seguir em frente. Quando uma figurinha vem repetida ou quando uma troca não acontece da forma esperada, existe uma oportunidade de aprendizado. É nesses momentos que o cérebro desenvolve flexibilidade, tolerância e capacidade de adaptação. Talvez a parte mais bonita desse fenômeno seja aquilo que acontece entre as crianças. As figurinhas criam algo extremamente poderoso: um interesse compartilhado. E interesses compartilhados aproximam pessoas. Para trocar figurinhas, é preciso conversar, observar o outro, negociar e compreender que existem interesses diferentes dos seus. Sem perceber, as crianças estão praticando habilidades sociais fundamentais. Em uma época em que muitos pais se preocupam, com razão, com o excesso de telas e a redução das interações presenciais, ver crianças reunidas em torno de uma coleção nos lembra que a infância também acontece nos encontros. Ela acontece na conversa do recreio, na roda formada no corredor da escola, na troca organizada durante uma festa de família ou até na sala de espera de um consultório. Para crianças neurodivergentes, esse contexto pode ser ainda mais valioso. Muitas delas desejam participar das interações sociais, mas nem sempre encontram uma forma natural de entrar nas conversas ou nos grupos já formados. Quando surge um assunto que mobiliza todas as crianças, como o álbum da Copa, abre-se uma oportunidade importante de conexão. Nem sempre a inclusão acontece automaticamente, mas interesses compartilhados costumam criar pontes. Uma figurinha pode se transformar em um convite. Uma troca pode se transformar em uma conversa. E uma conversa pode ser o início de uma amizade. Como ajudar seu filho a entrar nessa brincadeira Quando converso com famílias de crianças neurodivergentes, uma preocupação aparece com frequência: \"Meu filho quer participar, mas não sabe como entrar na brincadeira.\" E eu entendo essa angústia. Muitas vezes, a criança observa os colegas trocando figurinhas, acompanha as conversas, demonstra interesse, mas não encontra naturalmente uma forma de se aproximar ou iniciar uma interação. Nessas situações, o papel dos adultos pode ser extremamente importante. Uma das estratégias que costumo sugerir é começar identificando quais colegas, famílias ou ambientes já demonstram abertura para essa interação. Nem sempre o melhor caminho é colocar a criança diretamente em um grupo grande e desconhecido. Muitas vezes, uma troca entre duas ou três crianças já cria oportunidades valiosas de conexão e confiança. Outra possibilidade é procurar eventos organizados de troca de figurinhas. Durante a Copa, muitos shoppings, praças, clubes e centros culturais promovem encontros destinados exatamente a isso. Como todos estão reunidos em torno de um interesse comum, a conversa tende a acontecer de forma mais natural e menos exigente socialmente. Também vale combinar pequenos encontros com amigos, vizinhos ou familiares que estejam colecionando. Em alguns casos, sugiro até que a família faça um pequeno ensaio em casa, praticando frases simples que poderão ser usadas durante as trocas. \"Você quer trocar comigo?\" \"Qual figurinha está faltando para você?\" \"Eu tenho essa repetida.\" Pode parecer algo simples, mas para algumas crianças essas ferramentas funcionam como verdadeiras pontes para a interação social. Outro ponto importante é não focar apenas no álbum completo. O objetivo maior não é terminar a coleção primeiro. É aproveitar a jornada para desenvolver comunicação, iniciativa social, flexibilidade, negociação e pertencimento. Porque, no fim das contas, a figurinha mais valiosa talvez não seja a mais rara. Pode ser justamente a amizade que nasce durante a troca. Talvez essa seja a principal mensagem que eu gostaria de deixar. O desenvolvimento não acontece apenas dentro de consultórios, escolas ou livros. Ele acontece na vida real. Acontece no recreio, na praça, na fila do mercado, na conversa entre amigos e nas brincadeiras que surgem espontaneamente. É por isso que gosto tanto de olhar para o cotidiano. Muitas vezes, as melhores oportunidades de aprendizagem chegam disfarçadas de brincadeira. Enquanto muitas crianças acreditam que estão apenas completando um álbum, seus cérebros estão aprendendo algo muito maior: estão aprendendo a conviver.",
"title": "O que as figurinhas da Copa me lembraram sobre infância, amizade e desenvolvimento"
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