Imunidade passiva: o escudo temporário que protege o bebê nos primeiros meses de vida
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June 9, 2026
Quando soube que uma nova vacina estava liberada para gestantes, a operadora de pedágio Gislaine Lopes, 36 anos, correu ao posto de saúde da cidade onde mora, Itapevi (SP). Assim que completou 28 semanas de gravidez, em janeiro deste ano, fez questão de se imunizar contra o vírus sincicial respiratório (VSR), um dos principais causadores de bronquiolite e pneumonia em bebês. Gravidez: check-list de vacinas essenciais Ela não recebeu orientação direta do obstetra durante o pré-natal, mas ficou atenta à novidade ao saber que a vacina havia sido incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS), no fim de 2025. Por trás da decisão, porém, há uma história dolorosa: em 2023, Gislaine perdeu a segunda filha, Maitê, com apenas dois meses de vida. Você sabe o que é imunidade passiva? Magnific Embora tenha nascido saudável, a bebê começou a apresentar sinais de um resfriado comum, que rapidamente tomou proporções inesperadas. Inicialmente, a mãe cuidou da pequena em casa, com inalações de soro e lavagem nasal. “Três dias depois, a situação mudou: ela amanheceu chiando bastante e tossindo. No mesmo dia, levei ao médico e veio o diagnóstico de bronquiolite”, lembra. O quadro evoluiu rápido. Mesmo medicada, Maitê piorava. Na terceira ida ao pronto-socorro, a saturação estava baixa e precisou ser internada. Depois de sete dias de internação, veio a notícia para a qual nenhuma família está preparada para ouvir: Maitê não resistiu. Hoje, ao falar sobre a filha, Gislaine – que também é mãe de Mariana, 13, e espera mais um bebê para este mês – tenta transformar a dor em alerta e faz questão de incentivar outras gestantes a se imunizarem. “Apesar de me doer relembrar o sofrimento, eu amo falar sobre ela”, afirma. Escudo materno Hoje, no Brasil, a proteção dos bebês contra doenças infecciosas começa já ao nascer, com BCG e hepatite B, mas somente a partir dos dois meses de vida o calendário fica mais intenso, com vacinas que previnem infecções respiratórias graves. Tarde demais para algumas crianças, como Maitê. Com o avanço da ciência, porém, esse ponto de partida mudou e a proteção começa ainda na gravidez, com a imunização materna. A transferência de anticorpos da mãe para o bebê ocorre pela placenta, como explica a ginecologista e obstetra Melania Amorim, professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na Paraíba. “O anticorpo que atravessa a barreira placentária é a Imunoglobina G, ou, IgG. Isso acontece porque a placenta possui receptores específicos, que ‘capturam’ a IgG materna e a transportam ativamente para o sangue fetal”. Segundo Melania, o transporte não se trata de um “vazamento”, mas de um mecanismo ativo e seletivo. “Quando a gestante é vacinada, seu sistema imunológico produz anticorpos que, em cerca de duas a quatro semanas, atingem concentrações elevadas no sangue”, diz. Esses anticorpos são transportados pela placenta e o bebê já nasce com uma reserva de proteção herdada da mãe – a chamada imunidade passiva. Essa proteção é temporária e dura os primeiros meses de vida, justamente o período em que o bebê ainda não pode receber todas as próprias vacinas. Esse mecanismo de transferência de anticorpos pela placenta aumenta ao longo da gravidez. “Na primeira metade da gestação, a concentração de IgG no sangue fetal é muito menor que a materna. Com 28 a 32 semanas, os níveis já correspondem a cerca de 50% dos níveis maternos”, diz a ginecologista. “É por esse motivo que a maioria das vacinas é recomendada no terceiro trimestre: para que o pico de anticorpos maternos, que ocorre cerca de quatro semanas após a vacinação, coincida com o período em que a transferência placentária fica mais intensa”, completa Melania. Uma janela delicada Após o nascimento, o organismo do bebê ainda é muito vulnerável. “Os primeiros meses de vida representam um período de imaturidade imunológica, porque o sistema imune ainda está em desenvolvimento”, explica o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Segundo a pediatra Isabella Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), “até, pelo menos, os seis a nove meses de vida, o bebê depende dos anticorpos que recebeu da mãe durante a gravidez e na amamentação”. Além disso, as vias aéreas dos recém-nascidos são menores e mais sensíveis, o que favorece o desconforto respiratório diante de processos inflamatórios. Soma-se a isso o contato precoce com vírus e bactérias em um organismo ainda imaturo. É nesse contexto de maior fragilidade que a vacinação da gestante ganha relevância: ela antecipa a defesa do bebê quando ele mais precisa. Nova aliada contra a VSR O calendário de vacinas para gestantes no Brasil já inclui a dTpa (contra tétano, difteria e coqueluche), hepatite B, influenza e covid-19. A adição mais recente é a imunização contra o vírus sincicial respiratório (VSR), a mesma que Gislaine fez questão de tomar. “O vírus é responsável por cerca de 75% a 80% dos casos de bronquiolite na criança lactente nos primeiros meses de vida”, explica o obstetra Marco Aurélio Knippel Galletta, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Foi justamente por esse impacto que a vacina passou a integrar as estratégias de prevenção. Estudos clínicos indicam eficácia de 81,8% contra doença respiratória grave nos primeiros 90 dias de vida do bebê, afirma Melania Amorim. “A imunização materna contra o VSR representa avanço importante na prevenção de doenças respiratórias graves na primeira infância”, reforça Eduardo. Antes da vacina para gestantes, a principal estratégia de proteção contra o VSR eram os anticorpos monoclonais, aplicados diretamente no bebê. Embora tenham o mesmo objetivo – evitar quadros graves –, os mecanismos são diferentes. “A vacina aplicada na gestante estimula o organismo materno a produzir anticorpos que atravessam a placenta”, explica Lima. Já o anticorpo monoclonal oferece proteção imediata. “É um anticorpo pronto, de ação imediata, administrado diretamente ao lactente”, acrescenta. Hoje, porém, essa alternativa (oferecida gratuitamente pelo SUS) segue restrita a grupos específicos, como prematuros e bebês com cardiopatia congênita. Na rede privada, está disponível com prescrição médica. O valor é alto – entre R$ 3 mil e R$ 3,5 mil a dose –, o que dificulta o acesso. “A vacinação materna é estratégia populacional durante a gestação, enquanto o anticorpo monoclonal pode ser indicado para recém-nascidos e bebês conforme faixa etária, sazonalidade e critérios clínicos definidos pelas autoridades de saúde”, afirma. Gargalos da imunização Apesar dos avanços científicos, a cobertura vacinal entre gestantes no Brasil está abaixo do ideal. “O Ministério da Saúde registrou queda das coberturas vacinais a partir de 2016”, afirma o infectologista Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI). A pandemia agravou o cenário. “Houve subfinanciamento do SUS, problemas de abastecimento e desinformação”, resume. Nos últimos anos, porém, os indicadores começaram a reagir. Desde 2023, o país recuperou de 10 a 15 pontos percentuais de cobertura em diferentes imunizantes, segundo o PNI – ainda distante das metas recomendadas. A vacinação contra influenza entre as grávidas, por exemplo, passou de cerca de 41% em 2022 para aproximadamente 49% em 2023 e 55% em 2024 – longe da meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde (MS). Vários fatores podem explicar esse cenário. Um deles é a logística, um desafio em um país com um território tão vasto e diverso com o Brasil. Na prática, o caminho é o seguinte: após a compra pelo MS, as vacinas são distribuídas aos estados, que se encarregam de enviá-las aos municípios e postos de saúde. “Temos gargalos, porque dependemos da malha aérea para distribuir a maior parte das vacinas em todo o país, e há uma diferença entre os estados em relação à disponibilidade de voos, o que impacta na velocidade logística”, esclarece. Questões geográficas também pesam. “Há municípios de difícil acesso, como comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas. Ainda assim, o SUS consegue dar capilaridade para que os imunobiológicos cheguem à população”, afirma. Desinformação Mas não é só a distribuição que impede a vacina de chegar aos braços de quem precisa. As fake news, que ganharam força nas redes sociais nos últimos anos, alimentam desconfiança e dúvida na população. Entre gestantes, o receio costuma estar ligado à segurança das vacinas. “Essas dúvidas não nascem espontaneamente – elas são alimentadas por um ecossistema de desinformação”, explica a obstetra Melania Amorim. Apesar disso, décadas de evidências científicas mostram que as vacinas são seguras. “Nenhuma é recomendada ‘por intuição’. Todas passam por um crivo científico rigoroso antes de entrar no calendário”, reforça a pesquisadora. Outro obstáculo para a adesão à vacina é a falta de orientação no pré-natal. A própria Gislaine passou por isso. Se não fosse sua experiência anterior, talvez não tivesse recebido a informação a tempo na gravidez atual. “Eu perguntei para ele [o obstetra, que acompanhava seu pré-natal] se sabia quando a vacina chegaria no município, mas ele disse que não. Então, eu fui atrás”, lembra. Para Isabella Ballalai, a prescrição médica é decisiva. “Quando uma pessoa entra no consultório do médico querendo se vacinar e ele diz ‘acho melhor não’, ‘ainda não’ ou algo nesse sentido, a chance de ela se vacinar é de 8%. Quando o médico diz ‘vai se vacinar’, essa chance dispara para 80%”, compara. Por isso, a pediatra defende campanhas, capacitação de profissionais e estratégias que fortaleçam a recomendação de vacinas no país. Enquanto se prepara para receber mais um filho, Gislaine mantém viva a memória de Maitê em cada decisão. Sempre que pode, conversa com outras gestantes sobre vacinação. “Faço um apelo para que tomem a vacina. É uma grande conquista, uma nova arma contra esse vírus [o VSR]. Um leve resfriado em um adulto pode facilmente evoluir para uma bronquiolite em um bebê”, alerta. “Grávidas vacinadas são super-heroínas”, diz a obstetra Melania, ao se referir ao gesto de cuidado que protege os bebês quando eles mais necessitam. “Porém, elas precisam de um sistema que funcione, de profissionais que informem, e de um país que respeite a ciência”, finaliza. Quando mães têm acesso a orientação qualificada e informação confiável, decisões de cuidado ficam mais possíveis – e a proteção começa desde o início da vida.
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