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  "textContent": "\nObstinada, Maria Clara de Almeida Ferreira entrou na faculdade de medicina já sabendo o que queria: trabalhar com saúde da mulher, através da ginecologia e obstetrícia. Mas trouze também outra paixão, aparentemente distante da sala de aula e do consultório: a arte. Quando foi convidada por um professor a participar de uma ação social com gestantes, as duas coisas se encontraram de uma forma que ela não esperava. Ali, cercada de doulas, enfermeiras e obstetras que pintavam as barrigas das mulheres grávidas, ela percebeu que aquele contato era diferente de tudo que havia visto na prática clínica. Mais próximo, mais humano, mais aberto. E pensou: por que os médicos não fazem isso no dia a dia? Maria Clara quer aproximar a relação de paciente e médico através das oficinas de artes gestacionais Arquivo Pessoal 8 mudanças no pós-parto que ninguém fala, mas são mais comuns do que parecem A resposta que ela foi buscar virou um projeto de iniciação científica aprovado no Centro Universitário de Brasília (CEUB), orientado pelo enfermeiro obstetra e professor Alexandre Sampaio Rodrigues Pereira, conduzido com gestantes em situação de vulnerabilidade social e com estudantes de medicina de diferentes instituições do Distrito Federal. Em quase um ano de trabalho, o projeto demonstrou que pintar a barriga de uma gestante pode ser, ao mesmo tempo, um ato de cuidado, um gesto de humanização e uma aula de empatia que nenhuma grade curricular consegue ensinar sozinha. A ideia que nasceu de um estranhamento Maria Clara não chegou ao projeto pela teoria, chegou pela prática, pela experiência concreta de estar num espaço onde o cuidado acontecia de um jeito diferente. \"Eu percebi que me conectava com a gestante de uma forma diferente do que eu via na prática em consultório. E quis levar isso para outros estudantes\", conta. A pergunta que motivou tudo foi simples: o que a arte gestacional pode oferecer à formação médica que o consultório tradicional não oferece? O estranhamento que a acompanhou no início não veio do professor orientador, que abraçou o projeto desde o início, mas dos próprios colegas de faculdade. \"Alguns acharam muito diferente, do tipo: a gente não tem tempo para fazer isso. Mas, conforme os estudantes foram participando, eles se encantaram\", recorda. A resistência inicial é, por si só, sintomática de algo que o projeto se propõe a questionar: a ideia de que cuidado humano é um acessório da medicina, e não sua essência. A técnica da arte gestacional não é invenção recente. Segundo a pesquisadora, tem registro na literatura científica e origem atribuída à parteira mexicana Naolí Vinaver, que, na década de 1990, começou a oferecer o que chamava de \"ultrassom natural\" às gestantes de regiões sem acesso ao equipamento de imagem. A pintura representava o bebê na barriga da mãe, produzida a partir de palpação, ausculta e escuta. Era ciência e afeto na mesma prática. Maria Clara identificou ali uma ferramenta que ainda não havia sido aplicada como estratégia pedagógica na formação médica e foi a primeira a fazê-lo de forma estruturada e cientificamente investigada. Maria Clara monitora uma das oficinas que fizeram parte de sua pesquisa acadêmica Arquivo Pessoal Ministério da Saúde libera versão digital da Caderneta da Gestante O professor que tinha medo e topou assim mesmo Alexandre Sampaio Rodrigues Pereira é enfermeiro de formação e professor de medicina há mais de 10 anos no CEUB. Já orientou dezenas de projetos de iniciação científica. Mas, quando Maria Clara trouxe a proposta, ele admite que sentiu um frio na barriga. Não pela qualidade da ideia, mas pelo contexto em que ela seria avaliada. \"É um tema desafiador do ponto de vista técnico, porque a medicina ainda tem uma visão extremamente ortodoxa em relação à iniciação científica\", explica. Ele tinha dúvidas sobre como a banca de avaliação receberia um projeto que usava a arte como intervenção pedagógica. Mesmo assim, tocou. E o projeto foi aprovado, recebeu bolsa e foi muito bem avaliado. \"Eu tenho muita expectativa de que esse trabalho receba prêmios por conta dos resultados que estamos colhendo\", diz Alexandre, sem esconder o orgulho. O professor também faz voluntariado há mais de 15 anos atendendo gestantes em situação de vulnerabilidade na instituição filantrópica Casas Lares Humberto de Campos, em Brasília, que se tornou o campo de pesquisa do projeto. Para ele, o que torna o trabalho mais relevante é que ele chega justamente a quem mais precisa e menos tem acesso. \"Gestantes vulneráveis, em sua grande maioria, não conseguem sequer completar as consultas de pré-natal na unidade básica de saúde. Quem dirá ter acesso a uma pintura de barriga\", diz. O projeto chegou para preencher esse espaço com cuidado, informação e presença. Alexandre também situa o problema que o projeto tenta enfrentar dentro de um contexto maior: a formação médica brasileira ainda é estruturada em bases tecnocráticas, médico-centradas, que colocam o profissional no lugar da decisão absoluta e deixam de lado a autonomia da mulher, a escuta ativa e o vínculo. \"A medicina perdeu um pouco esse lado do servir. E esse tipo de prática humanizada resgata isso. O médico também tem essa questão do servir e acho que isso acabou se perdendo\", observa Maria Clara, ecoando o que aprendeu ao longo do projeto. Os desenhos são feitos depois de uma avaliação médica, para entender como o bebê está na barriga da gestante. Durante o processo, muita escuta ativa e empatia Arquivo Pessoal Lei das doulas é sancionada; saiba como essas profissionais atuam e o que muda com a nova norma A experiência de Ana Vitória: quando a medicina vira conversa Ana Vitória tinha 19 anos quando entrou no projeto. Já fazia voluntariado na mesma instituição onde as oficinas aconteciam. Apaixonada pela ginecologia e obstetrícia desde que chegou à faculdade, ela havia chegado ao curso querendo ser psiquiatra e mudou de ideia ao se aproximar da saúde da mulher. Quando conheceu a proposta de Maria Clara, entrou sem hesitar. O que ela encontrou nas oficinas não estava em nenhum livro de medicina que havia lido. \"Eu vi que a gestante pega intimidade com a gente muito facilmente. Elas vêm a gente como alguém de confiança, alguém que pode ouvir. E, às vezes, elas não podem falar aquilo em casa\", conta. Em uma das sessões, uma gestante compartilhou uma história de violência familiar enquanto sua barriga era pintada. Era algo que ela não teria dito numa consulta de pré-natal padrão. \"A gente pode ser esse ouvido. Às vezes, o médico que trabalha no postinho vai ser o único ouvido para alguém. Que grande responsabilidade.\" Para Ana Vitória, a maior transformação foi entender que a medicina não é sobre exibir o que se sabe. É sobre como se entrega esse conhecimento. \"O paciente não vem para ver o quanto você sabe. Ele já sabe que você é o médico. Ele vem para ser acolhido\", afirma. Ela descreve com clareza a armadilha que a formação médica tende a criar: a compulsão por acúmulo de conhecimento técnico, pela nota, pela tecnologia de ponta, enquanto o básico do cuidado humano fica em segundo plano. \"A gente esquece do básico, que é a mão, que é a conexão.\" A estudante também trouxe para a prática algo que impressionou: antes de pintar, ela fazia o exame obstétrico completo. Palpava a barriga para identificar a posição do bebê, auscultava os batimentos cardíacos, media o fundo uterino. A pintura era feita na posição em que o bebê se encontrava de verdade. \"Queria que fosse o mais fidedigno possível, como se fosse um ultrassom artístico\", conta. Numa das sessões, enquanto pintava, sentiu o bebê se mexer sob os pincéis. \"Para os estudantes, isso foi uma coisa muito emocionante. Você tá pintando e sente o bebezinho mexendo.\" O que precisa mudar na obstetrícia brasileira Os dados que embasam o projeto são pesados. Uma pesquisa nacional da Fiocruz com mais de 23 mil mulheres revelou que 45% relataram ter sofrido algum tipo de violência durante o parto. O Ministério da Saúde reconheceu publicamente, em audiência na Câmara dos Deputados em 2023, que há uma lacuna formativa na graduação médica como um dos fatores de perpetuação desse problema. As Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de medicina não contemplam de forma estruturada a violência obstétrica, nem propõem práticas pedagógicas voltadas à humanização do cuidado. Para Maria Clara, o projeto não é uma resposta definitiva a esse problema, mas uma intervenção concreta que aponta um caminho. \"A arte gestacional não é só a pintura em si. É toda uma conversa de duas horas com aquela mulher. Você pergunta o que ela está sentindo, se está tendo apoio, quais são os medos em relação ao parto. São perguntas que não acontecem no consultório\", explica. Para as gestantes que participaram, o impacto também foi visível além do esperado. \"Essa pintura vai ficar marcada pra sempre em minha memória e nas fotos que vou mostrar pro meu bebê quando ele crescer. Ele vai saber que, antes mesmo de nascer, já era celebrado com tanta beleza e tanto amor\", disse uma das participantes do projeto, Jussara Gomes Soares \"A autoestima delas mudou. Ficaram todas orgulhosas da barriga, querendo mostrar para todo mundo\", conta Maria Clara. Isso não estava previsto como resultado da pesquisa, mas emergiu como dado relevante: mulheres que chegaram menos confiantes em suas próprias gestações saíram com outro olhar sobre os próprios corpos. Maria Clara se surpreendeu com a melhora na autoestima das gestantes após a pintura gestacional Arquivo Pessoal Técnica do pontinho: entenda o método que promete estimular o início do trabalho de parto Os próximos passos de um projeto que quer ir longe A pesquisa foi encerrada em maio de 2026, após quase um ano de coleta de dados. Agora, começa a fase de consolidação dos resultados, análise de conteúdo e escrita do relatório final, com previsão de publicação de artigo científico em agosto. Os trabalhos serão apresentados em congresso no segundo semestre, com possibilidade de premiação na cerimônia de encerramento do programa de iniciação científica do CEUB. Mas, o projeto já deixou marcas que vão além dos dados. Muitos dos estudantes que participaram das oficinas se tornaram voluntários ativos na instituição onde a pesquisa foi realizada. Voltaram para continuar pintando barrigas, continuaram ouvindo gestantes, continuaram exercitando a medicina que o projeto tenta ensinar. \"Eles gostaram tanto que quiseram voltar\", diz Maria Clara, com uma satisfação que não precisa de números para se justificar. O próximo horizonte é a escala nacional. O projeto tem metodologia bem definida, foi construído para ser replicável e não está restrito ao CEUB: ao longo da pesquisa, participaram estudantes de outras instituições de medicina do Distrito Federal. Alexandre e Maria Clara sonham com financiamento do CNPq e da FAPDF para expandir o modelo. \"A ideia é que a gente tenha subsídios científicos para provar que isso funciona, de maneira que a gente possa torná-lo um projeto nacional\", diz o professor.",
  "title": "Estudante de medicina usa arte para transformar a relação com os pacientes: \"Conecta\""
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