Entre o colo e o limite: pais e especialista falam sobre o novo jeito de educar
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May 30, 2026
Nos últimos anos, tenho a sensação de que educar filhos ficou, ao mesmo tempo, mais consciente e desafiador. Se antes havia pais que optavam por modelos mais rígidos, hoje há uma busca legítima por relações respeitosas, com diálogo, escuta e vínculo. Mateus Solano: "Filhos são uma grande oportunidade de evolução, muito mais do que qualquer trabalho" Mas, nessa jornada, uma dúvida insiste em aparecer, nas conversas com famílias e também na minha própria experiência como mãe: como acolher sem perder a autoridade? Como impor limites sem parecer duro demais? Essa inquietação não é individual. Entre o colo e o limite: o novo jeito (possível) de educar Magnific Uma pesquisa do instituto Talker Research, nos Estados Unidos, mostra que 54% dos pais da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) dizem priorizar preparar os filhos para o “mundo real”, desenvolvendo autonomia, responsabilidade e capacidade de lidar com frustrações, saber esperar e conviver. Há quem nomeie esse modelo como parentalidade híbrida, há quem a chame de positiva, respeitosa, equilibrada. Importante dizer que novos termos surgem o tempo todo, mas a nomenclatura importa menos do que a lógica por trás deles. Muitos pais millennials, nascidos entre 1984 e 1994, cresceram em contextos marcados por uma educação autoritária, baseada no “eu mando e você obedece”. Ao se tornarem pais, fizeram um movimento importante de ruptura: não queriam repetir o que viveram nem fazer os filhos passarem pelo mesmo sofrimento. Nesse processo, acabaram indo para o lado oposto: a permissividade. O que essa nova geração começa a perceber, agora, é que nenhum dos extremos sustenta um crescimento saudável. E daí surge essa intenção de combinar afeto e escuta com limites, regras e uma certa hierarquia dentro de casa. Não para voltar ao autoritarismo, mas para sair do cenário onde tudo é negociável e o ‘não’ quase desaparece – o que, em alguns casos, se aproxima da negligência. No fim, mais do que seguir um rótulo, é necessário construir uma referência estável para a criança. Como mãe e educadora parental, acompanho de perto o quanto esse processo pode ser confuso. Existe um desejo genuíno de não repetir gritos, punições ou violências do passado, mas, muitas vezes, sem clareza sobre o que colocar no lugar. Bia e Branca: "As comparações não vinham de dentro de casa, mas de fora" O efeito aparece rápido: filhos que não ouvem, pais inseguros, cansados e, não raro, com o sentimento de que estão sempre errando. A empreendedora Ana Kolodji, 31 anos, mãe de Ravi, 6 anos, Flora, 3, e Caetano, 2, resume essa “linha tênue” entre autoridade e excesso de flexibilidade. “Muitas vezes, tentando fazer diferente, acabava indo para um extremo sem perceber. Num período bem desafiador, percebi que, se a mãe não está íntegra, ou seja, com as próprias emoções reguladas, ela não consegue sustentar essa dinâmica de educar as crianças, equilibrando o colo e o limite. Tive que aprender a me estabilizar emocionalmente até nos dias mais difíceis para que meus filhos também se sentissem mais calmos”, desabafa. O que está mudando, afinal? Mais do que uma nova “metodologia”, o que está em jogo hoje é um outro olhar na educação. A principal diferença não está no comportamento dos pais, mas na intenção. “A grande transformação é sair de uma lógica de ‘como faço meu filho me obedecer?’ para ‘como ajudo meu filho a se desenvolver emocionalmente enquanto aprende a se comportar?’”, explica a psicanalista Mônica Pessanha, colunista da CRESCER. Esse deslocamento acompanha um avanço importante no conhecimento sobre a infância. Hoje sabemos que o comportamento da criança não é apenas “birra” ou “desobediência”, mas uma forma de comunicação emocional. Isso convida os adultos a escutarem mais sem abrir mão de orientar. Aí é que pode surgir um equívoco: confundir respeito com ausência de limites. Na prática, não é isso que essas abordagens propõem. “Há adultos que acham que ser gentil significa proteger os filhos de toda e qualquer decepção, mas isso é ser permissivo”, explica a escritora Bete Rodrigues, educadora parental e trainer em Disciplina Positiva no Brasil pela Positive Discipline Association. Esse princípio aparece na perspectiva do desenvolvimento infantil. A neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, destaca que a combinação entre afeto e limite é essencial para a formação cerebral da criança. “Os pais devem educar os filhos usando autoridade com afeto”, afirma. Segundo ela, regras claras e repetidas de forma positiva ajudam a construir conexões neurais que sustentam o aprendizado ao longo do tempo. A pediatra Maura Calixto, do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), observa o impacto dessa estratégia na rotina de seu consultório: “Essas crianças conseguem demonstrar suas emoções, mas não perdem o controle com facilidade, lidam melhor com frustrações e apresentam maior capacidade de concentração”, diz. Limites como bússola Evidências do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostram que habilidades fundamentais – como controle de impulsos, capacidade de esperar e autorregulação emocional, conhecidas como funções executivas – se desenvolvem a partir de relações com adultos que oferecem estrutura, previsibilidade e orientação consistente. Segundo Liubiana, a criança precisa de referências previsíveis para desenvolver resiliência, capacidade de enfrentamento e regulação emocional. O psiquiatra infantil Wimer Bottura Junior, cofundador da plataforma Universidade de Pais, usa uma imagem que ajuda a entender esse papel de forma concreta: o limite como o leito de um rio. “A água, para correr, precisa de um leito. Quando tudo pode, a criança vive uma sensação de desproteção”, explica. Na prática, limites não apenas organizam o comportamento, mas também o mundo interno da criança. Punição x consequência Se os limites são parte fundamental do desenvolvimento, surge outra dúvida comum: como colocá-los em prática sem recorrer a castigos? Durante muito tempo, a ideia de disciplina esteve associada a punição: tirar algo que a criança gosta, dar bronca, envergonhar. Hoje sabemos que essas estratégias podem até gerar obediência imediata, mas não promovem aprendizado. No Brasil, esse movimento também encontra respaldo legal. A chamada Lei da Parentalidade Positiva (Lei no 13.010/2014) estabelece o direito de crianças e adolescentes de serem educados sem castigos físicos ou tratamentos cruéis ou degradantes, incentivando práticas baseadas no cuidado, no diálogo e no respeito. Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), atitudes disciplinares mais eficazes são as que ensinam; não as que apenas fazem a criança sofrer pelo erro ou sentir medo. Isso significa ajudá-la a compreender o impacto de suas ações, desenvolver responsabilidade e saber como agir diferente da próxima vez. Se o seu filho joga os brinquedos no chão, por exemplo, e não guarda, não faz sentido tirar o desenho favorito dele mais tarde. A consequência mais efetiva é não poder iniciar uma nova brincadeira até organizar o que já usou. É sair da lógica da culpa e entrar na lógica da solução. “Se a criança está envolvida no problema, precisa estar envolvida na solução. É assim que ela aprende a resolver problemas”, diz. A educadora parental Bete Rodrigues chama a atenção para essa confusão. “A maioria dos adultos usa punição disfarçada de consequência”, afirma. Esse é um dos pontos mais complicados porque, quando estamos cansados ou irritados, a tendência é reagir, não ensinar. É nesse momento que muitos pais se veem repetindo padrões que gostariam de evitar. A consultora Aline Vanderlinde, 32 anos, mãe de Victor, 8 anos, e Augusto, 5, cresceu em um ambiente marcado por agressões e sempre quis fazer diferente. Ainda assim, reconhece como isso pode ser difícil no dia a dia. “Eu tento, mas confesso que nem sempre consigo. Às vezes eu grito, já dei tapa e me arrependi imediatamente”, relata. O que muda, segundo ela, é a forma de lidar com esses momentos. “Eu converso muito com eles, falo quando erro e peço desculpas.” Mais leveza, menos culpa Se por um lado a nova forma de educar trouxe avanços importantes, por outro também veio um efeito colateral pouco falado: a pressão sobre os pais. Em teoria, tudo parece fazer sentido: acolher emoções, conversar, evitar punições, construir vínculos. Na prática, a cena costuma ser outra: crianças cansadas, birras no meio da rotina, irmãos brigando, adultos exaustos depois de um dia de trabalho. E, nesse contexto, responder sempre com calma, paciência e consciência parece simplesmente impossível, como aconteceu com Aline. Eu mesma já me vi nesse lugar: saber exatamente o que deveria fazer e, ainda assim, não conseguir sustentar. E o mais difícil nem é errar – é a culpa que vem depois e a percepção de que qualquer desvio seja um sinal de fracasso. Muitas vezes, essa pressão nem precisa vir de fora – ela chega até nos momentos de pausa. Basta abrir o Instagram por alguns minutos: “não faça isso”, “você precisa fazer aquilo”, “o certo é assim”. Até o descanso vira mais uma lista de “tem que” da maternidade. Nas redes sociais, o que aparece são versões simplificadas e idealizadas – recortes de respostas perfeitas, falas prontas, crianças que cooperam. O bastidor – o cansaço, a repetição, o que não funciona – fica de fora. “Nem sempre mais informação implica em maior segurança”, alerta a pediatra Maura Calixto. Segundo ela, muitos pais chegam cheios de referências, mas sem saber como aplicar no dia a dia. Essa idealização pode levar a algumas armadilhas: confundir acolher com ceder, ter medo de frustrar a criança, dificuldade de dizer “não” e a sensação constante de impotência. A empreendedora Sarah Hirota, 44 anos, mãe de Raul, 6, confessa o quanto é complexo. “Não é só sobre dizer não, é sobre limites, acolher, é muita coisa. O excesso de informações traz sobrecarga e temos que cuidar para isso não gerar ansiedade e afetar o desenvolvimento da criança”, diz. No meio de tudo isso, é importante lembrar: educar uma criança não é uma jornada linear. Nenhuma família sustenta presença e coerência o tempo todo. Haverá dias de cansaço, respostas atravessadas, decisões que não saem como o esperado. O que faz diferença não é acertar sempre, mas conseguir retomar a rota, reparar o que for necessário e seguir. É nesse movimento – e não na perfeição – que a educação acontece. Preparar para o mundo real No fim das contas, toda essa discussão leva a uma pergunta maior: que tipo de adulto queremos formar? Se antes o foco estava em crianças obedientes, hoje o olhar se amplia para capacidades que vão além do comportamento imediato: autonomia, responsabilidade, capacidade de lidar com frustrações, de esperar, de conviver. Não por acaso, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram um aumento nos quadros de ansiedade e sofrimento emocional entre crianças e adolescentes, reforçando a importância de desenvolver habilidades socioemocionais desde cedo. Preparar para o mundo real não significa endurecer a educação, mas ampliar o repertório da criança para lidar com o que ela inevitavelmente vai encontrar: frustração, regras, convivência, limites. Famílias que evitam qualquer desconforto acabam, sem perceber, deixando os filhos mais frágeis. “Facilidades demais trazem dificuldades demais”, afirma o psiquiatra Bottura. E isso não é sinônimo de menos afeto. Mas, sim, estar junto também nos momentos difíceis, dizer “não” quando necessário e permanecer disponível. Não poupar a criança das adversidades, mas ajudá-la a atravessá-las. A enfermeira e consultora de amamentação Marina Latini, 42 anos, mãe de Anne, 11, e dos gêmeos Liz e Rafael, 7, traz um exemplo desse tipo de condução. “Eu mostro que todas as escolhas têm consequências e deixo eles chegarem às próprias conclusões”, conta. Aos poucos, esse tipo de experiência constrói algo essencial: a capacidade de pensar antes de agir e de assumir responsabilidade pelos próprios comportamentos. Esse é o ponto central: não se trata de ter filhos que obedecem sempre, mas de formar crianças que, ao longo do tempo, aprendem a se conduzir – mesmo quando ninguém está olhando. O caminho do meio na prática DICAS PARA AGIR COM... Birra e explosões emocionais Validar o sentimento: “Eu sei que você ficou frustrado” Manter o limite: “Mas não é possível fazer isso agora” Ajudar a criança a atravessar o momento (e não evitá-lo) Hora de dormir Criar uma rotina previsível (banho, história, luz baixa) Manter horários consistentes Sustentar o limite mesmo com resistência Uso de telas Definir regras claras (tempo, horários e conteúdos) Combinar previamente, não decidir no conflito Sustentar o combinado com firmeza e calma Alimentação Oferecer opções dentro de um limite (“é isso que temos hoje”) Evitar fazer múltiplos pratos para agradar ao paladar Respeitar o apetite da criança, mas manter a estrutura A hora de dizer “não” Ser claro e direto: a clareza transmite segurança e ajuda a entender os limites sem confusão Evitar justificativas longas demais Sustentar a decisão com presença (mesmo diante da frustração) Os momentos em que você errar (porque vai acontecer) Reconhecer o erro Pedir desculpas Reparar a relação 5 princípios da educação com afeto e limites 1. ACOLHER EMOÇÕES Validar o que a criança sente não significa concordar com o comportamento que ela teve. Na prática, o ideal é reconhecer, nomear a emoção e mostrar o que ela pode aprender. 2. MANTER LIMITES CONSISTENTES Limite não é falta de amor, é estrutura. Crianças precisam de regras claras e previsíveis para se sentirem seguras. 3. ENSINAR, EM VEZ DE PUNIR Erros fazem parte do aprendizado. O foco deixa de ser “dar uma lição” e passa a ser construir soluções e responsabilidade. 4. DESENVOLVER AUTONOMIA AOS POUCOS Crianças aprendem a se responsabilizar quando participam, decidem e vivenciam as consequências de suas escolhas dentro de um ambiente seguro. 5. CUIDAR DA RELAÇÃO O vínculo não é oposto ao limite – é na conexão que a criança encontra segurança para crescer.
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