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  "textContent": "\nHavia uma cadeirinha guardada no armário. Comprada antes do carro existir, antes mesmo de haver qualquer certeza de que ele viria. Alguém disse a Esthefany Silva Corrêa para doá-la — afinal, quando o carro chegasse, ela poderia comprar outra. Ela não doou. Meses depois, o carro chegou. E a cadeirinha estava lá, esperando, exatamente onde ela havia guardado. Esthefany Silva Corrêa com os filhos Ana Laura e Davi Lucca Reprodução/redes sociais Estudo revela que 53% das famílias raramente leem para criança Essa imagem diz muito sobre quem é Esthefany, de 32 anos, mãe solo de Ana Laura, de 9 anos, e Davi Lucca, de 4. Uma mulher que aprendeu a agir antes da certeza, a guardar antes da chegada, a acreditar antes de ver. E que carrega essa postura todos os dias, numa rotina que começava de bicicleta, atravessava ladeiras com os dois filhos, passava por três fontes de renda e chegava, recentemente, a um carro financiado — pago por ela, parcela a parcela, com o dinheiro do próprio trabalho. 7 quilômetros de bicicleta e uma logística de mãe solo Eram 7 quilômetros por dia. Mais, se ela precisasse voltar para casa entre as escolas. As crianças estudavam em turnos e escolas diferentes, o que tornava cada manhã uma operação cuidadosamente planejada. Esthefany deixava a bicicleta da filha mais velha na casa de uma tia que morava perto da escola, seguia a pé os 200 metros restantes com Ana Laura, esperava ela entrar e então pedalava até a escola do Davi Lucca. Entre uma escola e outra, fazia exercícios funcionais perto do local e ficava numa loja de outra tia para não precisar refazer o percurso inteiro. No caminho, havia ladeiras. Sol quente. Dias de chuva em que as crianças simplesmente não podiam ir. \"Se fosse perto ou se os dois estudassem na mesma escola, seria um pouco mais fácil. Mas essa não era a minha situação. A escola era longe, tinha ladeiras, sol quente, e se estivesse chovendo, eles faltavam. Em algumas situações eu precisava me adaptar: se minha filha tivesse prova, íamos de Uber ou andando\", conta. A escola da Ana Laura é muito boa, e Esthefany faz o possível para mantê-la lá, mesmo que as vagas disponíveis para o Davi Lucca sejam apenas no período da tarde, o que torna a logística ainda mais complexa. Foi observando essa rotina exaustiva que ela entendeu: era necessário ter um carro. E foi assim que começou a buscar uma forma de conseguir. Initial plugin text “As Ovelhas Detetives”: Hugh Jackman e Julia Louis-Dreyfus revelam desafios das filmagens e falam da mensagem emocionante do filme para toda a família CPF do pai e as prestações pagas por ela Esthefany encontrou no pai o caminho que precisava. Como financiar no próprio nome exigiria uma entrada que ela não tinha, o pai emprestou o nome. Mas quem paga as prestações, todos os meses, é ela, com o dinheiro que ganha nos seus diferentes trabalhos. \"Digamos que ele me emprestou apenas o CPF\", conta, com a leveza de quem resolveu o problema sem romantizar a solução. A lista de contas que Esthefany cobre sozinha é longa: aluguel, faculdade de enfermagem, as prestações do carro e tudo que envolve criar dois filhos sem divisão de despesas. Para sustentar esse orçamento, ela trabalha numa loja, faz papelaria e ainda aluga decorações para festas. E vende salgados para complementar a renda. São frentes diferentes, algumas fixas, outras autônomas, todas necessárias. Mesmo assim, ela não se queixa. Esthefany precisou administrar muitos empregos para poder criar os filhos Reprodução/redes sociais Mães da geração Y são as mais mentalmente exaustas, revela pesquisa Uma rede de apoio que sustenta sem substituir Para dar conta de tudo, Esthefany conta com a mãe e as tias, que ajudam com as crianças quando necessário. Foram as tias que apareceram nos pontos estratégicos do percurso de bicicleta: uma guardando a bike da Ana Laura, outra abrindo a loja para que Esthefany não precisasse fazer o caminho de volta em vão. Essa rede é real e ela reconhece com gratidão. Mas também é honesta sobre o peso que não se divide. \"Mesmo tendo uma boa rede de apoio, a responsabilidade maior sempre é da mãe. A dificuldade é eu querer dar o melhor e ter que trabalhar muito para conseguir isso. Agora estou estudando, então conseguir dar a eles a atenção que eu gostaria, criar memórias como eu gostaria, ficou mais difícil\", conta. O esforço tem um propósito que ela declara sem hesitação: \"Como crio eles sozinha, eu faço de tudo para que eles não sofram com a ausência do pai. Para que possam viver e usufruir de coisas que eu não pude na idade deles. E tenho conseguido criar boas memórias, mesmo que em momentos simples.\" Esthefany faz parte de uma realidade que é ao mesmo tempo silenciosa e gigante no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Economia, o país ultrapassou a marca de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas. Quinze por cento dos lares brasileiros são chefiados por mães solo, que seguem dia após dia dando o seu melhor, muitas vezes sem que isso apareça em nenhuma estatística além do sorriso dos filhos. As redes sociais e a viralização que veio na hora certa Esthefany começou a compartilhar sua rotina nas redes com um sonho específico: havia sonhado, no começo do ano, que um vídeo seu bateria 1 milhão de visualizações. Começou a postar. Cinco dias depois, o primeiro vídeo viralizou, mas os seguidores não vieram na mesma velocidade. Ela desanimou. Pensou em parar. Voltou. Desanimou de novo. Foi quando chegou o vídeo do carro. \"Eu falei para Deus que não queria ficar me expondo e expondo meus filhos sem que o Senhor tivesse planos. Foi quando postei esse vídeo do carro, ele viralizou, e eu ganhei tantas mensagens de carinho, tantos parabéns, ganhei muitos seguidores. Vou seguindo assim, até onde Deus quiser que eu chegue, junto com os meus filhos\", conta, emocionada. Para ela, a fé não é passividade, é o que dá combustível para agir mesmo nos dias em que a conta não fecha, a ladeira aparece e a chuva insiste. \"Confie que você pode tudo. Tenha fé, força, foco e determinação. Quando se sentir fraca, olhe para o sorriso das suas crianças. Você terá mais combustível para caminhar.\" E completa com a leveza de quem já aprendeu a acreditar antes de ver: \"Eu vivo pela fé, faço tudo confiando que Deus pode fazer infinitamente mais do que eu penso ou imagino. Tendo Deus na direção de nossas vidas, a caminhada fica mais leve. Fácil não é — teremos dias difíceis. Mas com Deus, até esses dias ficam mais leves.\"",
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