Violência sexual na infância quadruplica em dez anos, no Brasil
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May 27, 2026
A violência contra crianças e adolescentes é um problema cada vez mais preocupante no Brasil. Entre 2014 e 2024, os casos de violência sexual cresceram de forma significativa, segundo dados divulgados nesta terça-feira (26) pelo Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Meninas são as principais vítimas Freepik O levantamento mostra que os casos registrados de violência sexual na primeira infância, entre crianças de 0 a 4 anos, mais que quadruplicaram na última década: passaram de 1.671 ocorrências, em 2014, para 7.845, em 2024. Entre crianças de 5 a 14 anos, o número de notificações saltou de 6.594 para 29.135 no mesmo intervalo. Já na faixa etária de 15 a 19 anos, os registros também mais que quadruplicaram, saltando de 1.632 casos, em 2014, para 6.869, em 2024. Veja por que 7 em cada 10 vítimas de violência sexual têm até 6 anos Violência online: veja momento do dia em que adolescentes ficam 2x mais vulneráveis O estudo também revela um aumento expressivo de outros tipos de violência contra crianças e adolescentes. Entre 2023 e 2024, os registros cresceram 14,9% nos casos de negligência, 16,5% nas violências físicas, 24,4% nas violências psicológicas e 7,2% nas violências sexuais. Na comparação entre 2014 e 2024, os casos de violência sexual aumentaram 369,5%, passando de 1.671 para 7.845 registros. Já a negligência cresceu 241,5%, indo de 7.694 para 26.277 casos. No mesmo período, a violência psicológica teve alta de 478,4%, enquanto a violência física aumentou 149,8%. 'A maior parte dos casos é cometido por familiares ou pessoas próximas' O levantamento também mostra que o perigo nem sempre está na rua. Os dados apontam que 67,3% das violências acontecem dentro de casa e que 79,9% são praticadas por familiares. Especialistas alertam que o combate à violência contra crianças pequenas não pode se limitar às ações de segurança pública. O próprio Atlas da Violência defende o fortalecimento das redes de proteção social — especialmente nas áreas de saúde, assistência social e educação — ao destacar que políticas focadas apenas na repressão são insuficientes. Nos primeiros anos de vida, o acompanhamento contínuo realizado pela atenção primária à saúde tem papel fundamental na identificação precoce de sinais de negligência, violência e vulnerabilidade familiar. Consultas de rotina, vacinação obrigatória e atendimentos médicos funcionam como importantes oportunidades de observação do desenvolvimento infantil e ajudam a detectar indícios, ainda que sutis, de situações de risco. A educação infantil também ocupa papel central nessa rede de proteção. A frequência à creche e a obrigatoriedade da matrícula escolar ampliam o contato cotidiano da criança com professores e outros profissionais, aumentando as chances de identificar sinais persistentes de negligência, sofrimento emocional ou violência doméstica. “Os diferentes serviços de educação, assistência social e saúde são fundamentais para identificar e interromper ciclos de violência ainda nas fases iniciais da vida. O cenário reforça a necessidade de uma atuação integrada, além da capacitação permanente de profissionais para reconhecer sinais de violência”, afirma Marina Fragata Chicaro, diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Metade dos adolescentes brasileiros já sofreu violência sexual online, aponta levantamento “Os dados mostram que a maior parte dos casos é cometido por familiares ou pessoas próximas. É preciso fortalecer as políticas para prevenção das diferentes formas de violência contra bebês e crianças, incluindo apoio à parentalidade, à educação sexual e as iniciativas de redução de adversidades a que as famílias estão expostas. Precisamos também derrubar questões estruturais que seguem sustentando o uso de práticas punitivas, como é a compreensão equivocada da ‘palmada para educar’”, complementa. Especialistas também destacam que o aumento das situações de negligência exige uma abordagem cuidadosa. Muitos dos casos de violência estão relacionados ao esgotamento dos cuidadores, à pobreza, à insegurança alimentar, à ausência de rede de apoio e à sobrecarga vivida pelas famílias. Violência de gênero O gênero também aparece como um fator importante nos dados analisados. Segundo os pesquisadores, a maioria das vítimas é do sexo feminino (61%), equivalente a 499.744 crimes. A diferença se torna ainda mais evidente nos casos de violência sexual: 86,9% das vítimas são meninas, enquanto 13,1% são meninos. A violência psicológica também atinge mais meninas, que representam 62,9% das vítimas. Já nos casos de violência física, a diferença entre os sexos é menor: meninas correspondem a 52,4% dos registros. Negligência é a principal violência sofrida por crianças, e pai e mãe são os maiores agressores, mostra pesquisa Na negligência, porém, há uma leve predominância de vítimas do sexo masculino (53,3%), o que, segundo os pesquisadores, pode indicar uma relação maior com condições estruturais de cuidado. O Atlas da Violência aponta ainda que fatores ligados a relações de poder, controle do corpo feminino e normas de gênero ajudam a explicar por que as meninas são as principais vítimas de violência sexual. “A partir da adolescência, a violência sexual pode assumir formas associadas à coerção em relacionamentos, pressão por práticas sexuais e situações de risco em espaços públicos ou mediadas por redes sociais”, destaca o estudo. O Atlas da Violência destaca ainda que as redes sociais têm contribuído para a disseminação desse tipo de comportamento ao impulsionar conteúdos misóginos e reforçar, sobretudo entre adolescentes, ideias ligadas à dominação masculina, à objetificação das mulheres e à desvalorização do consentimento feminino. *Com informações da Agência Brasil e da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal
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