Mãe denuncia fala chocante de médico diante de perda gestacional: “Tava torcendo para não ter batimentos”
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May 20, 2026
Durante muito tempo, Thaynara Lomboni, 25, de Nova Iguaçu (RJ), acreditou que jamais conseguiria engravidar. Diagnosticada com Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) e outros problemas ginecológicos, ouviu de médicos que era uma forte candidata a enfrentar problemas com a infertilidade. Por isso, quando descobriu a gestação, a notícia foi recebida quase como um milagre. “Ela não foi planejada, mas foi uma gravidez muito desejada, desde o início”, conta, em depoimento exclusivo a CRESCER. “Eu sempre sonhei em ser mãe e minha família também carregava essa esperança. Quando contei, todo mundo ficou emocionado porque existia essa sensação de que, talvez, eu nunca conseguisse gerar uma vida”, lembra. Caso chocou as redes sociais Arquivo pessoal/Reprodução redes sociais Os primeiros meses da gestação transcorreram relativamente bem, apesar de um hematoma subcoriônico [um acúmulo de sangue que se forma entre a parede do útero no início da gravidez, mas que raramente leva a complicações]. No caso dela, foi necessário repouso e uso de medicação. Aos poucos, os exames começaram a mostrar melhora, e Thaynara se tranquilizou, acreditando que tudo ficaria bem. A expectativa pelo chá revelação era enorme. Desde criança, o sonho dela era ter uma filha. O que ela não sabia era que justamente naquela ocasião, sua gestação tomaria um rumo totalmente inesperado. Enquanto participava das brincadeiras da festa, sentiu uma sensação estranha e correu para o banheiro. “Eu sempre comparo com aquela sensação de quando a gente acorda menstruada e sente algo descendo. Foi exatamente aquilo”, descreve. Ela percebeu que havia saído líquido. Ainda assim, tentou manter a calma. Conversou com seu companheiro, Danilo, colocou um papel para observar se o líquido continuaria escorrendo e tentou seguir com a comemoração. “Eu estava vivendo um momento tão feliz que queria acreditar que não era nada grave”, lembra. Mas, contrariando suas expectativas e acendendo um sinal de alerta, pouco depois, o líquido voltou a sair. “Quando fui me despedir de uma amiga, senti novamente. Foi aí que pensei: ‘Não, eu preciso ir para o hospital’”, conta. “Não era para estar batendo?” Thaynara procurou atendimento em um hospital, no Rio de Janeiro, mas afirma que, já naquele primeiro atendimento, sentiu que algo estava errado. Segundo ela, apesar do relato de vazamento de líquido, a situação foi tratada com desdém. “A médica fez um toque, disse que o colo do útero estava fechado e colocou o aparelho para ouvir o coração da minha filha. Quando escutei os batimentos, senti um alívio enorme e falei: ‘Graças a Deus’. E ela perguntou: ‘O que foi? Não era para estar batendo não?’”, conta. A fala a deixou desconcertada, mas o atendimento continuou de forma ainda mais desconfortável. “Ela falou que minha filha devia estar pensando: ‘Ai mamãe, que mico, vindo para o hospital sem ter nada’”. Enquanto conversavam, mais líquido saiu. Thaynara perguntou como aquilo poderia ser considerado normal. A médica respondeu que provavelmente era secreção vaginal ou até escape de urina. “Eu falei que sabia diferenciar. Mas ela insistiu que não era nada”, lembra. Mesmo insegura e comunicando seus receios e dúvidas à equipe médica, Thaynara recebeu alta. “Ela disse que eu não precisava fazer repouso e que, se ficasse olhando para o teto, ia começar a sentir coisas que nem estava sentindo”, diz. Poucas horas depois, já em casa, a situação se agravou drasticamente. “Eu acordei durante a madrugada para ir ao banheiro e, quando me levantei, a bolsa rompeu completamente. O absorvente encharcou, o líquido escorreu pelo chão. Naquele momento eu entrei em desespero”, recorda-se. Thaynara estava feliz, esperando a filha, Serena: era a realização de um sonho de toda a família Reprodução/ Instagram A mudança brutal entre a felicidade do chá revelação e o medo de perder a filha ainda dói quando ela relembra. “Um dia antes eu estava vivendo o maior sonho da minha vida, descobrindo que teria uma menina, que se chamaria Serena. E, horas depois, parecia que meu mundo tinha acabado”, analisa. “Eu só sabia chorar” Em pânico, ela foi a outro hospital buscar atendimento. Lá, recebeu o diagnóstico de ruptura prematura da bolsa ainda no quinto mês de gestação. Ela foi internada imediatamente e passou a viver dias de extrema angústia, cercada por incertezas e pelo medo constante de perder Serena. “Eu só sabia chorar. Ficava me perguntando por que aquilo estava acontecendo comigo, por que com a minha filha?”, lembra. Enquanto tentava lidar emocionalmente com a possibilidade da perda, também enfrentava a vulnerabilidade física de uma internação prolongada. “Eu estava internada havia sete dias quando aconteceu o exame”, relata. Danilo, seu marido, precisou voltar ao trabalho, então Thaynara passou a maior parte do tempo acompanhada da mãe. Foi justamente durante um ultrassom, realizado sem a presença dele, que Thaynara decidiu gravar o áudio para mostrar depois ao companheiro. “Minha memória é muito ruim e, na gestação, isso parecia ainda pior. Então, pensei: vou gravar para depois ele ouvir tudo direitinho”, explica. Falas cruéis Ela já havia percebido que o médico responsável pelo exame tinha um comportamento frio e ríspido. Dias antes, ao fazer perguntas durante outro atendimento, ouviu dele: “Não vou responder nada para você. O que eu tiver que falar estará no exame e seu médico lê depois”. No dia do chá de bebê, a bolsa rompeu prematuramente, com cinco meses de gravidez Reprodução/ Instagram Por isso, durante o início da gravação, ela permanece em silêncio. Apenas observa a própria mãe tentando descobrir, pelos gestos, se ainda havia batimentos cardíacos. Quando o médico percebe a movimentação, responde de forma cruel: “Tem batimento sim. Não acabou seu sofrimento ainda”. Em seguida, anuncia sem a menor empatia: “Uma pena. Eu estava torcendo para não ter batimentos”. Depois, ele ainda completa: “Ou você quer ele todo troncho para você ter que criar a vida toda? Tem que acabar logo”. “É meu filho. Eu não quero que acabe” Thaynara conta que, naquele momento, ficou completamente sem reação. “Eu paralisei. A única coisa que consegui dizer foi: ‘É meu filho. Eu não quero que acabe’”. Ela afirma que saiu da sala destruída emocionalmente, chorando compulsivamente. “Eu não conseguia parar de chorar”, diz. Segundo ela, o médico ainda tentou relativizar a situação logo depois do exame. “Ele deu três tapas no meu ombro e perguntou: ‘Eu te ofendi?’. Eu respondi: ‘Você me ofendeu muito’”. Mas, em vez de se desculpar, ele teria continuado: “Apontou para minha barriga e disse: ‘Vai pensando que vai fazer outro porque isso aí não vai vingar’”. Mesmo em estado de choque, Thaynara procurou ajuda imediatamente. “Eu fui direto ao posto de enfermagem perguntar como fazia para denunciar”, conta. A equipe acionou uma assistente social e um policial militar para orientá-la. “Mesmo muito abalada, eu tinha clareza de que aquilo não era normal. Eu sabia que tinha sofrido uma violência”, diz. Pouco tempo depois, os médicos precisaram induzir o parto. Serena já estava descendo pelo canal vaginal e Thaynara corria risco de infecção generalizada. “A médica falou: ‘Agora precisamos priorizar você, porque você corre risco de sepse’. Foi quando decidiram induzir”, explica. “Escutar o áudio foi reviver toda a dor” Depois da perda da filha, Thaynara mergulhou em um luto profundo. Durante meses, evitou ouvir novamente o áudio gravado no hospital. Quando finalmente conseguiu, a sensação foi devastadora. “Eu lembro que estava na cozinha quando coloquei o áudio para tocar. Comecei a chorar sem parar. Foi como reviver tudo outra vez”, conta. "Estava torcendo para não ter batimentos", disse o médico Reprodução/ Instagram Ela diz que o que mais a machuca é pensar no quanto Serena era esperada e amada. “Não era só eu sonhando com ela. Minha família inteira sonhava com ela. Quando ela morreu, não fui só eu que perdi. Todo mundo perdeu experiências, planos, sonhos”, declara. No início, Thaynara ficou com o pé atrás ao cogitar tornar a história pública. “Eu tive medo de ser julgada, de ninguém acreditar em mim, de sofrer retaliações”, diz. Mas algo mudou quando procurou a delegacia para registrar a denúncia. “Lá, eu descobri que existiam outras denúncias envolvendo esse médico. Isso me assustou muito”, acrescenta. Saber disso reforçou a sensação de que era necessário compartilhar, sim, a experiência. “Eu pensei que talvez outras mulheres também tivessem sofrido algum tipo de violência”, pontua. Quando publicou o relato nas redes sociais, a repercussão foi imediata. O vídeo ultrapassou um milhão de visualizações rapidamente e trouxe uma onda de apoio inesperada. “Muitas mulheres começaram a me contar histórias parecidas. Eu percebi que aquilo era muito maior do que só a minha dor”, afirma. Hoje, quase tudo ainda desperta gatilhos para Thaynara. Consultórios médicos, exames, conversas com profissionais de saúde. “Eu tenho medo de médico. Tenho medo de ser negligenciada, de ser maltratada”, confessa. Ela conta que passou a gravar praticamente todas as conversas importantes por receio de viver outra situação parecida: “Virou um mecanismo de defesa”. Além do trauma da violência psicológica, Thaynara também enfrentou uma depressão profunda após a perda da filha. “Eu me afundei no luto. Foi tudo muito traumático. Desde o dia em que fui internada até ouvir aquelas palavras durante o exame”, lembra. Apesar de toda a dor e de todo o trauma, o sonho de ser mãe não ficou esquecido. “Não para substituir a Serena. Ela é insubstituível. Minha primogênita sempre vai ser ela”, reafirma. Ao transformar a própria história em denúncia, Thaynara espera que outras mulheres se sintam encorajadas a reconhecer e denunciar situações de violência obstétrica e psicológica. Ao olhar para tudo o que viveu, ela diz que existe um propósito doloroso, mas importante, em compartilhar suas feridas “As mulheres precisam entender que têm voz. Que não precisam aceitar qualquer tratamento só porque estão vulneráveis. Eu gostaria que nenhuma outra mulher precisasse passar pelo que eu passei”, conclui. Assista ao vídeo abaixo (se não conseguir visualizar, clique aqui): Initial plugin text O que diz o hospital CRESCER entrou em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde, responsável pelo Hospital Municipal Rocha Faria, no Rio de Janeiro (RJ), que enviou a seguinte nota: "A direção do Hospital Municipal Rocha Faria (HMRF) informa que o fato ocorreu em outubro do ano passado e que, assim que foi informada, ainda naquela ocasião, determinou à empresa terceirizada responsável pelo serviço de ultrassonografia o desligamento imediato do profissional, tendo em vista a gravidade da situação. Thaynara recebeu todos os cuidados indicados pela equipe da maternidade mas, infelizmente, era uma gestação muito prematura, de apenas 18 semanas, e houve complicações. O parto do bebê já morto ocorreu no dia 22 de outubro de 2025. A direção do HMRF mais uma vez se desculpa com a paciente pelo ocorrido e reforça que não compactua com conduta desrespeitosa, antiética ou incompatível com os princípios da assistência humanizada e do acolhimento aos pacientes e familiares"
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