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Para os pais, a notícia pode gerar dúvidas legítimas, especialmente quando se trata de entender o risco real para as crianças, como a doença se transmite e se há motivo de preocupação no Brasil. A CRESC R conversou com Renato Kfouri, pediatra, neonatologista, infectologista e presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP),além de colunista da revista, para responder às principais perguntas sobre o tema. O que é o Ebola e como ele se transmite O vírus Ebola não é novidade para a República Democrática do Congo. \"O Ebola tem afetado diversos países, com destaque para a República Democrática do Congo, onde surtos têm ocorrido nos últimos anos, e não é a primeira vez. A disseminação do vírus, frequentemente, atinge outros países da região subsaariana, como Uganda, o que gera apreensão na OMS, devido ao risco de propagação para outras nações\", explica Kfouri. A forma de transmissão é um ponto central para entender por que a doença, apesar da letalidade alta, não tem o mesmo potencial pandêmico de vírus respiratórios como o da Covid-19. \"O Ebola é uma doença viral e os morcegos, em geral, são os principais reservatórios do vírus. A transmissão não ocorre primariamente de pessoa para pessoa, embora isso possa acontecer em raras ocasiões\", afirma o especialista. A contaminação geralmente acontece por contato com materiais contaminados por morcegos ou com frutas consumidas por eles, sem que necessariamente haja ingestão desses alimentos. Funerais de pessoas falecidas por Ebola também representam risco, assim como contato sexual com um parceiro infectado ou convivência no mesmo domicílio com uma pessoa doente. Quais são os sintomas e como a doença evolui Os primeiros sinais do Ebola se assemelham aos de outras doenças febris, o que pode dificultar o diagnóstico inicial. A febre alta, as dores musculares e a dor de cabeça são os sintomas iniciais mais comuns. Por ser uma doença que causa inflamações nos vasos sanguíneos, hemorragias, diarreias severas e vômito aparecem com frequência na evolução do quadro. Em estágios mais graves, há alterações na pressão sanguínea e risco de choque, com dificuldade respiratória e falência de órgãos. O período de incubação, ou seja, o tempo entre o contato com o vírus e o aparecimento dos primeiros sintomas, varia de 2 a 21 dias, com a maioria dos casos se manifestando por volta do quarto dia. A evolução é rápida e imprevisível: alguns pacientes melhoram espontaneamente entre 7 e 14 dias após os primeiros sintomas, enquanto outros apresentam quadro grave por volta do décimo dia. Existe vacina ou tratamento disponível Sim, e esse é um dos pontos que diferencia o contexto atual do passado, quando o Ebola era praticamente intratável. Kfouri confirma que há avanços importantes nessa frente. \"Existem tratamentos aprovados, como o uso de anticorpos monoclonais, e uma vacina também aprovada, utilizada para controlar surtos, focando na proteção daqueles que estão em contato com o vírus\", diz o pediatra. A OMS recomenda e possui duas vacinas licenciadas para uso global, ambas voltadas para a espécie Ebolavírus Zaire: a Ervebo, de dose única e amplamente utilizada para conter surtos, e o esquema sequencial Zabdeno e Mvabea, administrado em duas doses. Para quem já foi infectado, a FDA americana aprovou terapias com anticorpos monoclonais que neutralizam o vírus diretamente no organismo, como o Ebanga, em dose única, e o Inmazeb, um coquetel de três anticorpos. Quanto mais cedo o tratamento é iniciado após a infecção, maiores são as chances de sobrevivência. O cuidado de suporte, com hidratação rigorosa, controle da pressão arterial e suporte para oxigenação, segue sendo parte fundamental do manejo clínico. Vacina da gripe: \"Crianças e gestantes estão sendo menos vacinadas do que gostaríamos\", alerta Kfouri O risco para crianças Crianças, junto com idosos e gestantes, estão entre os grupos que podem desenvolver quadros mais graves da doença caso sejam infectadas. Kfouri explica o motivo: \"Idosos, crianças e gestantes apresentam maior risco de desenvolver quadros graves da doença devido a questões imunológicas.\" No entanto, o especialista faz uma distinção importante. Esses grupos não são necessariamente os mais expostos à contaminação. O risco de exposição é maior em quem convive diretamente com situações de risco, como profissionais de saúde que atendem pacientes com Ebola e pessoas que compartilham o domicílio com alguém doente. No contexto do surto atual, a preocupação com crianças está ligada principalmente às regiões afetadas, onde o acesso a cuidados médicos e ao tratamento precoce é mais limitado. A mobilidade populacional intensa na região, citada pelos CDC África como fator de risco para propagação, inclui famílias inteiras, o que eleva o potencial de exposição de menores de idade ao vírus. O que os pais brasileiros precisam saber agora A OMS deixa claro no comunicado que o surto atual ainda não cumpre os critérios de emergência pandêmica conforme definidos no Regulamento Sanitário Internacional. E Kfouri reforça que o risco de propagação global deve ser avaliado com cuidado e sem alarmismo. \"A disseminação do Ebola não apresenta o mesmo potencial pandêmico de doenças como a Covid-19, devido à sua forma de transmissão menos facilitada. Trata-se, portanto, de uma preocupação focada principalmente nos países da região e para aqueles que viajam para essas áreas.\" Famílias com viagem prevista para regiões da África Central devem consultar as recomendações atualizadas do Ministério da Saúde e de órgãos internacionais antes de partir. Crianças que apresentem febre alta, dores musculares e histórico de contato com pessoas vindas das regiões afetadas devem ser avaliadas por um médico imediatamente, com menção ao histórico de viagem ou exposição. A OMS recomenda que os países ativem mecanismos nacionais de gestão de emergências, reforcem a vigilância epidemiológica e ampliem a educação da população sobre os riscos. No Brasil, o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria são referências confiáveis para informações atualizadas sobre a situação. Por enquanto, a orientação é clara: acompanhar as atualizações oficiais, evitar viagens desnecessárias às regiões afetadas e confiar que o sistema de vigilância internacional está acionado. O Ebola assusta, com razão. Mas entender como ele funciona é a primeira forma de não deixar o medo falar mais alto do que a informação.A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de importância internacional no último sábado (16) por causa de um novo surto de Ebola que afeta a República Democrática do Congo e Uganda. O vírus em circulação é o Bundibugyo, e os números que motivaram o alerta são expressivos: 8 casos confirmados em laboratório, 246 casos suspeitos e 80 mortes registradas na província de Ituri, no Congo. Em Uganda, dois casos confirmados em Kampala acenderam um sinal amarelo adicional: as pessoas infectadas haviam viajado vindo do Congo, o que levanta preocupação com a possibilidade de propagação internacional da doença. Para os pais, a notícia pode gerar dúvidas legítimas, especialmente quando se trata de entender o risco real para as crianças, como a doença se transmite e se há motivo de preocupação no Brasil. A Crescer conversou com o médico infectologista Jessé Reis Alves, do Instituto Emílio Ribas, para responder às principais perguntas sobre o tema. O que é o Ebola e como ele se transmite O vírus Ebola foi descoberto em 1976 e tem uma taxa de mortalidade que varia entre 60% e 80%, segundo a OMS. O surto atual é causado pela espécie Bundibugyo, uma das variantes conhecidas do vírus. A transmissão, diferentemente do que o nome da doença pode sugerir, não acontece pelo ar. \"O Ebola é transmitido apenas se houver contato com fluidos corporais do doente, como saliva, sangue ou vômito. A propagação não acontece pelo ar, pela tosse, nem pela respiração. Não é como a gripe. Também não é possível pegar a doença só de conversar mais de perto com uma pessoa\", explica o infectologista Jessé Reis Alves. Ele acrescenta um ponto importante: o infectado só começa a transmitir o vírus quando os sintomas aparecem. Ou seja, no período em que a pessoa ainda se sente bem, ela não oferece risco de contágio. Quais são os sintomas e como a doença evolui Os primeiros sinais do Ebola se parecem com os de outras doenças febris comuns, o que pode dificultar o diagnóstico inicial. Segundo o infectologista, os sintomas começam com febre alta, acima de 38,6°C, dores musculares e dores de cabeça. Por ser uma doença que causa inflamações nos vasos sanguíneos, hemorragias, diarreias severas e vômito aparecem com frequência na evolução do quadro. Em estágios mais graves, há alterações na pressão sanguínea e risco de choque, com dificuldade respiratória e falência de órgãos. O período de incubação, ou seja, o tempo entre o contato com o vírus e o aparecimento dos sintomas, varia de 2 a 21 dias, com a maioria dos casos se manifestando por volta do quarto dia. \"Entre 7 e 14 dias depois que os primeiros sintomas aparecem, há pacientes que melhoram espontaneamente. Por outro lado, outros já apresentam um quadro bem sério por volta do décimo dia\", diz Alves. Existe vacina ou tratamento disponível Sim, e esse é um dos pontos que diferencia o surto atual do contexto de décadas atrás, quando o Ebola era praticamente intratável. A OMS recomenda e possui duas vacinas licenciadas para uso global, ambas focadas na espécie Ebolavírus Zaire: a Ervebo, de dose única e altamente eficaz para conter surtos, e o esquema sequencial Zabdeno e Mvabea, administrado em duas doses. Para quem já foi infectado, a FDA americana aprovou terapias com anticorpos monoclonais que atuam neutralizando o vírus diretamente no organismo. São elas o Ebanga, administrado em dose única, e o Inmazeb, um coquetel de três anticorpos. \"Os tratamentos avançaram bastante, embora o cuidado de suporte continue sendo fundamental para a recuperação\", afirma Alves. Esse cuidado de suporte inclui hidratação rigorosa por via intravenosa ou oral, controle da pressão arterial e suporte para a oxigenação. Quanto mais cedo o tratamento é iniciado após a infecção, maiores são as chances de sobrevivência. O risco para crianças Crianças são especialmente vulneráveis ao Ebola por terem imunidade ainda em desenvolvimento e, no contexto dos surtos africanos, frequentemente vivem em condições de maior exposição a fluidos corporais em ambientes domésticos, onde cuidadores adoecidos são a principal fonte de transmissão. Dados de surtos anteriores mostraram taxas de mortalidade mais altas em crianças pequenas do que em adultos jovens, especialmente nos primeiros anos de vida. No contexto do surto atual, a preocupação com crianças está ligada principalmente às regiões afetadas, onde o acesso a cuidados médicos e ao tratamento precoce é mais limitado. A mobilidade populacional intensa na região, citada pelos CDC África como fator de risco para propagação, inclui famílias inteiras, o que eleva o potencial de exposição de menores de idade ao vírus. O que os pais brasileiros precisam saber agora A OMS deixa claro no comunicado que o surto atual ainda não cumpre os critérios de emergência pandêmica conforme definidos no Regulamento Sanitário Internacional. O risco de transmissão no Brasil, por ora, é considerado muito baixo, já que o vírus não se espalha pelo ar e exige contato direto com fluidos corporais de pessoas já sintomáticas. No entanto, o episódio é um lembrete importante sobre vigilância em saúde. Famílias que tenham viagem prevista para regiões da África Central devem consultar as recomendações atualizadas do Ministério da Saúde e de órgãos internacionais antes de partir. Crianças que apresentem febre alta, dores musculares e histórico de contato com pessoas vindas das regiões afetadas devem ser avaliadas por um médico imediatamente, com menção ao histórico de viagem ou exposição. A OMS recomenda que os países ativem mecanismos nacionais de gestão de emergências, reforcem a vigilância epidemiológica e ampliem a educação da população sobre os riscos. No Brasil, o Instituto Emílio Ribas e o Ministério da Saúde são as principais referências para informações atualizadas sobre a situação. Por enquanto, a orientação é clara: acompanhar as atualizações oficiais, evitar viagens desnecessárias às regiões afetadas e confiar que o sistema de vigilância internacional está acionado. O Ebola assusta, com razão. Mas entender como ele funciona é a primeira forma de não deixar o medo falar mais alto do que a informação.",
  "title": "Surto de Ebola na África: o que os pais precisam saber sobre a doença e o risco para crianças"
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