Como o álbum da Copa pode contribuir para a saúde mental dos adolescentes?
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May 15, 2026
Em ano de Copa, surge um objetivo que todas as crianças e adolescentes querem alcançar: completar o álbum de figurinhas. É quase impossível conseguir todas sem trocar com os amigos — ou gastar uma "fortuna". Nesse processo, surgem mais conversas cara a cara e interações reais. Para a psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro, a troca de figurinhas desempenha um papel fundamental no convívio e na saúde mental de crianças e adolescentes. Álbum Copa do Mundo Divulgação "Os jovens estão precisando de encontros presenciais e de trocas. A febre do álbum não se relaciona apenas à paixão pelo futebol, mas também implica em pertencer a algo, em ter um projeto compartilhado e ser reconhecido por um grupo", afirma a especialista, que também é autora do livro "Suicídio na Adolescência: uma abordagem psicanalítica". Segundo ela, muitos adolescentes da sua prática clínica tem se queixado da sensação de esvaziamento e de que nada faz sentido. "O álbum cria, quase naturalmente, uma estrutura que oferece exatamente o oposto: uma meta concreta, um outro com quem negociar, uma busca compartilhada. O sucesso do álbum revela uma necessidade real e urgente de pertencimento, encontros e trocas", destaca. Como falar sobre saúde mental com crianças e adolescentes, de acordo com a idade Um em cada sete adolescentes tem problemas de saúde mental, aponta OMS O pertencimento é um sentimento muito importante, principalmente na adolescência. "É nessa fase que o jovem precisa construir, por conta própria, o sentido e o valor de sua existência. Quem ele é para além da família? É no grupo, no laço com os pares, que esse lugar se constrói. Quando o pertencimento falta, surgem o vazio, a errância, a sensação de invisibilidade e, com eles, o risco", diz. "Na minha clínica, escuto com frequência adolescentes que respondem 'tanto faz' a qualquer pergunta sobre o futuro. Esse 'tanto faz' não é indiferença: é sofrimento difuso à procura de laços sociais e afetivos", acrescenta. Impacto na saúde mental Carolina Nassau Ribeiro afirma que o sentimento de solidão e a pouca convivência são fatores de risco para o sofrimento psíquico na adolescência — inclusive para pensamentos suicidas. "Em contrapartida, os vínculos fora do ambiente familiar funcionam como fatores de proteção relevantes", destaca. "A troca de figurinhas pode parecer banal, mas ela exercita habilidades fundamentais: comunicar o que se quer, ouvir o outro, lidar com o imprevisto, tolerar a espera, se deparar com frustração. São competências emocionais construídas no cotidiano e importantes para a saúde mental da criança e do adolescente, mas que estão escassas em tempos digitais", adiciona. A psicóloga afirma que muitos jovens da atualidade se enquadram na "geração do quarto", ou seja, uma geração conectada ao mundo pelas redes, mas incapaz de conversar com as pessoas que vivem no mesmo lar. "São jovens hiperconectados e, paradoxalmente, cada vez mais solitários e cheios de ideias mórbidas. Nesse sentido, trocar figurinhas vai na contramão dessa tendência contemporânea", afirma. Saúde mental: o que está por trás do aumento de diagnósticos psiquiátricos em crianças Como ajudar crianças e adolescentes a terem mais conexões presenciais? Os pais também podem ajudar os filhos a terem mais conexões presenciais e interações fora das telas, sem parecer algo forçado. Veja algumas dicas de Carolina Nassau Ribeiro: Criar condições, não obrigações Levar à banca, organizar uma mesa de trocas em casa, deixar o filho convidar amigos para abrir pacotinhos juntos, tudo isso é oferecer estrutura sem forçar. Superproteção não é o caminho Pais que superprotegem acabam dificultando as trocas simbólicas possíveis com os filhos. No caso do álbum, isso tem uma tradução prática: os pais precisam resistir à tentação de resolver o que falta antes que eles tentem. Dê espaço para que seu filho encontre as próprias soluções Não é preciso antecipar tudo, os pais devem deixar os filhos se haverem com a incompletude do álbum e correrem atrás do que falta. Suportar o pacote que ainda não chegou também é cuidado, aprendizado e possibilidade de fazer laço.
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