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Cecília Malan revela que somente quatro dias após a filha nascer é que escolheu o nome Olímpia

Crescer - O principal portal de notícias para pais, mães e gráv… May 8, 2026
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Quatro dias. Foi quanto tempo Cecília Malan ficou olhando para a filha recém-nascida sem conseguir escolher um nome. Ela tinha uma lista de três opções e nenhuma delas parecia certa. Então, no dia em que precisava dar uma resposta para sair do hospital, foi ao banheiro, se olhou no espelho e começou a testar. "Oi, eu sou a mãe da Olívia. Oi, eu sou a mãe da Nina." E quando chegou na terceira opção, algo encaixou. "Quando falei 'oi, eu sou a mãe da Olímpia', foi como eu me sinto melhor me apresentando. E pronto." À esquerda, a foto que originou a ideia de escrever um livro sobre maternidade: Cecília Malan e a filha, Olímpia, juntas no trabalho da mãe Reprodução/redes sociais Olímpia tem 6 anos. Talvez ela ainda não saiba, mas sua mãe é uma das jornalistas brasileiras mais conhecidas do país, como correspondente da Globo em Londres há mais de duas décadas, e acaba de lançar "Eu e Elas: Histórias Maternas", um livro que reúne depoimentos de mulheres de diferentes realidades do Brasil sobre maternidade, trabalho, culpa, solidão e recomeço. Um livro que, segundo ela, nasceu de um dia comum que se tornou extraordinário por acidente. A foto que virou livro Não era a primeira vez que Cecília levava a filha para o trabalho. Nem a última. Mas foi um desses dias em que a rede de apoio falhou, as opções acabaram e a escolha foi faltar ou ir com a menina embaixo do braço. Ela foi. Alguém fotografou. Ela postou. E o que aconteceu em seguida a surpreendeu de verdade. "Fiquei muito genuinamente comovida e surpresa com a quantidade de mensagens que comecei a receber de mulheres Brasil afora dizendo 'me senti representada', 'me identifiquei', 'já passei por situações similares'", conta. Vieram também mensagens de mulheres que lembraram de ter ido ao trabalho com a própria mãe quando eram crianças. "Falei gente, tem alguma coisa aí." A foto em si não é das mais plásticas. Tem uma cadeira em primeiro plano, um cinegrafista ao fundo com a cabeça cortada pelo enquadramento. Mas tem camadas. E essas camadas tocaram uma ferida que muitas mulheres carregam caladas: a de ter que resolver, sozinha, o que não tem solução fácil. "É uma situação que toda mãe que trabalha já enfrentou. Ou eu falto, com as consequências que isso pode ter para os meus colegas, ou levo e ela participa de um dia de trabalho." O trabalho de formiguinha que construiu uma coletânea Decidida a transformar aquela repercussão em algo concreto, Cecília começou o que ela chama de trabalho de formiguinha: foi bisbilhotando os perfis das mulheres que lhe mandaram mensagens, montando um quebra-cabeça do Brasil. "Fui fazendo um raio-x: diferentes estados, diferentes profissões, casadas, mães solo, divorciadas como é o meu caso, mães com mãe. Composições familiares das mais diversas. Com um filho, três, quatro. Filhos mais velhos, mais novos." Entrou em contato com cada uma. Muitas acharam que era trote. Outras, golpe. Quando a identidade foi confirmada, vieram as entrevistas, todas por videochamada, sempre depois de Olímpia dormir. "Sempre, tipo, dez da noite, a gente estava tendo essas conversas. Aqui, dez da noite de Londres." Criou um grupo, primeiro, no Instagram. Depois, migrou para o WhatsApp. Chamou de "nosso livro". E o grupo continua ativo, com as entrevistadas trocando histórias com uma regularidade que ela mesma não esperava. Quando veio o lançamento no Rio de Janeiro, 19 das entrevistadas foram pessoalmente. Foi o primeiro encontro presencial do grupo. Cecília ofereceu um café da manhã no dia do lançamento e as reencontrou à noite, na livraria. "Podiam ter sido mulheres que não dessem liga, mas deu. Foi uma energia absolutamente linda, de muito choro e muitas risadas." Initial plugin text Um livro de jornalismo que exigiu outro músculo Cecília Malan é correspondente internacional. Cobre guerras, eleições, mortes de monarcas, quebras históricas. O jornalismo que ela pratica na televisão exige distância emocional, precisão, economia de palavras e, muitas vezes, contenção de tudo que se sente enquanto se fala. "Eu e Elas" pediu o oposto. “São elas as protagonistas dessas histórias. Eu apenas costuro os relatos, conduzo a narrativa. Deixei muito espaço para a voz de cada uma, porque senti que todas mereciam um livro próprio”, explica. Mas o processo de escuta profunda — sem a urgência do telejornal e sem a câmera como filtro — acabou mexendo com ela de uma maneira inesperada. Depois do lançamento, muitas entrevistadas contaram que o impacto das conversas veio de forma tardia: lembranças do passado ressurgiram, traumas foram reabertos e revisitados, e algumas passaram a enxergar certas situações sob uma nova perspectiva. Para Cecília, o processo foi parecido. Ela também dividiu com as mulheres do grupo, a história do divórcio e da gestação. "Acho que nos ajuda a nos enxergar. O poder da conversa, o poder da escuta real, de uma escuta amiga, sem julgamento, sem expectativa." É diferente de tudo que ela faz no dia a dia, e foi justamente esse contraste que tornou o projeto tão significativo. O que o livro revelou sobre ela mesma Ao longo do processo, Cecília foi identificando algo que não havia nomeado antes. "A gente fala muito do processo da mulher que vira mãe, como isso muda a gente, como isso é uma transformação radical. Mas é também uma transformação radical e linda ver a mãe que volta a ser mulher." Esse retorno, ela diz, exige tempo e gentileza consigo mesma, tanto no corpo quanto na identidade. "Você também precisa se reencontrar como mulher, como profissional, como parceira." Outro tema que atravessou as conversas de forma recorrente foi a relação com as próprias mães. "Muitas falam sobre a relação com a mãe. E eu também sinto que, depois de ser mãe, passei a entender a minha mãe muito mais." É um dos efeitos colaterais da maternidade que raramente aparece nas conversas públicas, mas que surgiu com força nos relatos do livro. Sobre o ambiente de trabalho, ela é direta. Voltar da licença-maternidade com a rotina redesenhada não deveria ser visto como sinal de menor comprometimento. "Você vira mãe, você se torna mais eficiente. Você quer completar as tarefas e voltar para casa. Você passa a priorizar melhor. Você ganha praticamente um PHD em gerenciar emoções, pessoas, conflitos e tempo." Para ela, é um erro de visão não reconhecer isso. "Nós precisamos ser mais valorizadas no ambiente de trabalho. A gente volta com outro olhar, outra sensibilidade, outro nível de empatia." Foi a filha quem ajudou a escolher o nome do livro Reprodução/redes sociais Olímpia e o livro que ela ajudou a nomear A participação da filha no projeto foi mais central do que muita gente imagina. O título do livro, "Eu e Elas: Histórias Maternas", passou por um longo processo de brainstorming em família. "Venho de uma família muito opinativa, todo mundo tem uma ideia sobre tudo", conta Cecília. Surgiram opções boas, outras nem tanto. E no meio de tudo, Olímpia insistia sempre na mesma resposta. "Ela desde o início falou: eu gosto de 'eu e elas'. Eu gosto de 'eu e elas'. Eu gosto." Cecília resistiu um tempo, achando que o título sozinho ficava incompleto. Mas quando complementou com "histórias maternas", algo clicou. "Eu pensei: opa. Acho que é isso. Somos nós. O grupo." No lançamento do Rio de Janeiro, Olímpia estava ao lado da mãe enquanto ela assinava exemplares e abraçava leitoras. A menina de seis anos escolheu uma forma própria de participar: fez um desenho em cada livro. Uma borboletinha, um ovo de Páscoa (o tema ainda fresco na cabeça depois da data que tinha acabado de passar). "Acho que ali ela entendeu um pouco mais o que eu estava fazendo. Lançamento de livro é uma coisa muito abstrata para uma criança. Mas acho que agora ela entendeu melhor." A maternidade que o livro não romantiza "Eu e Elas" não é um livro só para mães. É o que Cecília faz questão de sublinhar. Nos lançamentos, muitos homens foram comprar exemplares para dar para parceiras, irmãs, colegas. E muitos disseram que depois leriam também. Para ela, isso é parte do que o livro precisa provocar. "Muito do que é dito nele é o sentimento de solidão, a sobrecarga mental, o gerenciamento completo da vida da criança. Esses papéis precisam ser repensados. E para isso, homens precisam entender, precisam ler livros assim." A intenção sempre foi essa, desde antes de uma linha ser escrita. "Sempre foi a intenção do livro ser um livro abraço", conta. "Acho que a gente tá precisando desse abraço. A gente tá precisando dessa troca saudável, dessa escuta atenta, dessa escuta real. Espero que mais mulheres se sintam vistas e ouvidas e que nos ambientes de trabalho possam discutir esse delicado equilíbrio entre ser uma mãe presente e ser uma profissional competente." Por enquanto, um segundo volume não está nos planos imediatos. Mas histórias continuam chegando. E o grupo do WhatsApp com as entrevistadas segue ativo. "A gente ainda tá trocando histórias", diz Cecília. Algumas dessas histórias, ela confessa, bem que dariam um volume dois. Só com quem estava na fila dos lançamentos.

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